(Foto: Thiago Sacramento)

A lei da boa vizinhança diz que, quando o debate é sobre feminismo, o homem deve apenas ouvir e não tentar usurpar o lugar de fala da mulher. Toda regra tem sua exceção – ou subversão – é claro. Em cartaz no Teatro Serrador, no Centro, o espetáculo “A Última Revolução Possível” propõe uma reflexão feminista, com duas atrizes em cena, mas com texto e direção de homens. No palco, as atrizes vivem duas melhores amigas com posições muito diferentes quanto à maternidade. Uma acredita que ser mãe é um objetivo de vida e a outra vê a maternidade como o fim de uma vida feliz e independente. É realmente um debate da mulher contemporânea – mas quem escreveu foi Furio Lonza (o mesmo autor de “Patagônia” e “Jantando com Isabel”), um ítalobrasileiro de 64 anos. Em tempos de tantos coletivos femininos, não é contraditório uma peça feminista escrita por um homem?

– Aparantemente soa, não é mesmo? Isso faz da peça ainda mais intrigante, acredito. – diz a atriz Ângela Câmara (de “Beija-me Como Nos Livros”), que contracena com Flávia Fafiães (de “Casamento Suspeitoso”) – Eu, se pudesse ser espectadora, me sentiria profundamente atraída exatamente por isso: “vamos lá, vamos ver como um deles nos vê…”. Furio consegue abordar esse território de reflexões feministas sem cerimônia, sem papas na língua: é engraçado, vai por dentro, não parece a voz de um homem nos vendo de fora, parece que o texto foi escrito por mulheres.

(Foto: Thiago Sacramento)

Flávia concorda. Para ela, a peça é a visão do homem como aliado tanto às questões femininas quanto às causas feministas. Além do debate sobre maternidade, ela diz que é a amizade das personagens que mais lhe instiga. Entre as duas, questões e pensamentos podem transitar livremente, sem medo de julgamentos. É um lugar seguro para a discordância. Flávia e Ângela, aliás, são representativas dessa grande decisão de toda mulher: ser ou não ser mãe. Flávia optou por não ter filhos, e Ângela é mãe de um menino de 12 anos. “Eu considero revolucionário ter colocado Inácio no mundo. Inácio é minha maior contribuição amorosa para o mundo e minha melhor semente revolucionária”, diz a mãezona. Flávia, por sua vez, defende sua posição:

– Não ser mãe foi uma escolha consciente, uma opção pensada. Pensada e ponderada, porque toda mulher se questiona quanto a maternidade quando seu prazo de validade começa a vencer. É uma decisão até hoje muito questionada, vejo muitos olhares de espanto e/ou tristeza quando digo que não tive filhos. Ainda é difícil nossa sociedade entender que a realização da mulher pode estar desassociada da maternidade.

“A Última Revolução Possível” que diz o título da peça é justamente a maternidade. A personagem de Ângela defende que ter um filho é sua contribuição para um mundo melhor. É educando o ser humaninho que se dissemina valores como empatia, respeito, tolerância e solidariedade para o futuro. Já a personagem de Flávia acredita que botar mais alguém no mundo, do jeito que está, é uma insanidade.

– O bacana é que não é uma peça tendenciosa, acredito que consegue cumprir o que se propõe: manter a discussão no fio da navalha, sem tomar partido, pra que a plateia mantenha o interesse e o pensamento vivos e vá se decidindo por si mesma no que prefere acreditar. – conclui Ângela.

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SERVIÇO: ter e qua, 19h30. R$ 40. 60 min. Classificação: 12 anos. Até 25 de outubro. Teatro Municipal Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Centro. Tel: 2220-5033.