(Foto: Igor Keller)

“Moitará” é um termo de origem indígena que significa troca entre os membros da tribo. Inspirado nesse sentido, no Rio de Janeiro, em 1988, surgiu o grupo Moitará, que completa 30 anos e apresenta como espetáculo comemorativo a peça ”A Busca”. O elenco, encabeçado pelos atores Venicio Fonseca (de “Acorda Zé) e Erika Rettl (de “Quiprocó”), apresenta a história do grupo, em entrevista ao Teatro em Cena: “surgimos com o intuito de entender e estudar os princípios técnicos do trabalho do ator através das ações físicas. Para isso, fundamentamos nossas atividades usando elementos técnicos da dança, acrobacia, artes marciais e exercícios de ritmo tendo como base experimentações desenvolvidas no Teatro Laboratório de Jerzy Grotowski, a Commedia dell’Arte italiana”, explica Venicio.

Os espetáculos do grupo Moitará ficam conhecidos justamente pelo uso de máscaras inspiradas na Commedia dell’Arte italiana em dramaturgias tipicamente brasileiras. “A máscara se tornou, para nós, o principal instrumento de pesquisa acerca da dramaturgia do ator. Entre muitas questões, queríamos saber quais as suas possibilidades de uso e função para o teatro“, salienta Erika.

Instigados por essas temáticas e pela carência de pesquisadores no ramo de criação e confecção da máscara teatral no Brasil do final dos anos 1980, o Moitará se aproximou do trabalho do Centro Maschere e Strutture Gestuali, na Itália, e buscou como referência o resgate das máscaras dos “tipos” da Commedia Dell’Arte para o teatro contemporâneo. “Para isso, é necessário o desnudamento do ator em relação à sua máscara cotidiana para que as qualidades da máscara teatral ganhem vida em seu corpo, imprimindo o ritmo de um comportamento próprio, um estado capaz de catalisar a atenção do espectador. Por isso, ela não pode ser um retrato da nossa subjetividade. Para confecção da máscara, é importante que se leve em conta o estudo da sua funcionalidade, de forma a contribuir para a prática do jogo teatral. Neste sentido, a máscara passou a ser a ferramenta de pesquisa do grupo sobre a dramaturgia do ator e a sua preparação técnica e profissional”, comenta Venicio.

(Foto: Celso Pereira)
(Foto: Divulgação)

No entanto, se engana quem pensa que as máscaras são simples. Há diferentes estilos – cada uma com suas particularidades, mas complementares entre si. Elas se dividem entre neutra, geométrica, larvária, expressiva, meia-máscara e acento, que se tornam uma passagem entre a técnica primordial do trabalho do ator (pré-expressiva) e a criação dramatúrgica (comunicação, expressão).

Venicio relata como acontece a ressignificação do uso de máscaras inspiradas na comédia Dell’Arte para histórias tipicamente brasileiras. “Em nosso percurso de trabalho com a máscara teatral, parte da pesquisa do Grupo Moitará está dedicada à criação de máscaras de “tipos” populares inspiradas da nossa cultura, estabelecendo um paralelo com alguns arquétipos da Commedia dell’Arte. “Com referência nos Zannis, especificamente no Arlequim e nas personagens da literatura brasileira (Macunaíma, Malazarte, Mateus, João Grilo, entre outros), comparados com os “tipos” observados no cotidiano, criamos uma Máscara do “Zé de Riba” – uma mistura de esperteza e ingenuidade, “preguiçoso” e faminto, contador de causos, que inventa histórias cheias de vantagens e presepadas para atingir seus objetivos e se livrar do trabalho pesado. A partir desse estudo, que reuniu vários personagens da mesma índole numa só identidade, foram criadas outras máscaras que se tornaram públicas por meio dos espetáculos “Quiprocó” e “Acorda Zé!”, do Moitará, inspirados na Commedia Dell’Arte”.

Em outubro, o grupo estreia o espetáculo “A Busca”, que ficará em cartaz no Teatro Serrador, no centro do Rio de Janeiro, entre 04 a 27 de outubro com apresentações de quinta a sábado. Erika, protagonista da peça, explica sobre o trabalho que debate aspectos do mítico feminino: “para o peça ‘A Busca’, iniciamos a pesquisa sobre os muitos aspectos do mítico feminino, em figuras arquetípicas, que perduram no imaginário popular por meios das lendas e mitos de muitas civilizações. Traçando um paralelo entre várias narrativas sobre o feminino, estabelecemos uma dramaturgia acerca de sua importância da vida. A amplitude e relevância deste tema, abordada a partir da estética da cena-poema, potencializam a relação de identificação da plateia, provocando uma reflexão sobre o desenvolvimento da vida no planeta”, finaliza Erika.

(Foto: Igor Keller)

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 19h30. R$ 40. 53 min. Classificação: 16 anos. Até 27 de outubro. Teatro Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Centro. Tel: 2220-5033.