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5 atores vão passar 24 horas em uma casa recebendo o público

Um misto de teatro, instalação e jogo. É assim que os organizadores definem “C A S A V A Z I A”, experiência marcada para acontecer durante os Jogos Olímpicos em Santa Cruz. Cinco atores passarão 24 horas dentro de uma casa, executando atividades triviais, como tomar banho, cozinhar, lavar pratos, conversar (e dormir, por que não?), enquanto o público entra e sai a hora que quiser, interagindo e se misturando. Não precisa pagar entrada, nem desligar o celular. Não tem roteiro, nem personagem. Mas os atores estão preparados com alguns materiais-base, e a dramaturgia vai se construir juntamente com o público, em tempo real. O que qualifica isso como teatro? O diretor Gabriel Morais aponta a aproximação com a teatralidade por meio dos catalisadores performáticos, o atrito entre realidade e ficção e o deslocamento das noções de espaço e tempo.

(Foto: Erick Dau)

(Foto: Erick Dau)

O projeto surgiu dentro de uma pesquisa de iniciação científica na UFRJ, em 2014, com orientação da professora Gabriela Lírio. O que vai ser feito em Santa Cruz, do dia 6 para o dia 7 e do dia 20 para o dia 21 de agosto, das 14h às 14h, já aconteceu no final daquele ano, em uma casa em Santa Teresa. Em alguns momentos, havia de 25 e 30 pessoas fora do elenco na casa. Algumas não chegaram com a disposição para ficar 24 horas, mas depois não conseguiam ir embora. O coletivo (que ainda não tem nome) lembra dos relatos sobre “perder a noção de tempo” e sobre ter um olhar diferente para a vida ao sair da casa. “A noção de experiência que atravessa o sujeito e transforma o corpo, transforma o olhar, desloca o olhar, foi muito potente. Isso que deu força para a gente continuar pesquisando e retornar agora em 2016”, pontua o diretor. Em Santa Cruz, os atores Camila Costa, Christiane Igreja, Isabel Sanche, Mariah Valeiras e Ricardo Cabral e a equipe esperam suscitar novamente vivências sensoriais coletivas.

A nova casa foi toda mobiliada com doações de terceiros. Os artistas tinham uma lista do que precisavam e conseguiram tudo que precisavam com colaborações que vieram de dez bairros diferentes. “Tínhamos que conseguir talheres, colchão, fogão, geladeira. Mas não fazia sentido comprar tudo novo, queríamos trabalhar com objetos usados, cheios de memória”, conta a produtora Luiza Toschi.

(Foto: Erick Dau)

(Foto: Erick Dau)

TEATRO EM CENA – Como surgiu essa ideia de cinco atores em uma casa 24 horas?
GABRIEL MORAIS – A primeira proposta veio do Ricardo [Cabral, ator], quando ele queria investigar duas coisas: uma proximidade radical com o espectador e a investigação de uma dramaturgia que se construísse em relação com o espaço de uma casa. A medida que a gente foi ensaiando e construindo, a gente foi entendendo que essa proximidade radical poderia ser dada tanto pelo espaço – quebrar a fronteira palco/plateia, que a casa já permitia – quanto pelo tempo, se a gente criasse um tempo longo de imersão na casa. A gente foi pensando que período seria esse: seis horas, três, um jantar, e aí surgiu a ideia de uma experimentação de 24 horas. A medida que a gente foi passando os ensaios, as 24 horas foi se consolidando na nossa cabeça. A gente decidiu radicalizar a ideia do tempo mesmo.

O material de divulgação de “C A S A V A Z I A” diz que a dramaturgia vai se construir em tempo real junto com o público. Como vai se dar isso?
A gente vai construindo vários materiais-base ao longo dos ensaios, e esses materiais são utilizados pelos atores durante as 24 horas. Ela é sempre tencionada e atravessada pela participação dos espectadores e das pessoas que vêm até a casa. Mais do que se construindo, ela vai se reconstruindo. Esses materiais têm uma dramaturgia, mas às vezes não consegue se completar por causa do espectador, dos outros atores, esses atravessamentos, então ela vai criando outras linhas de fuga e possibilidades.

Então tem um roteiro pré-definido?
A gente tem micromateriais, como se fossem microdramaturgias, mas não tem roteiro definido porque não tem o momento certo que os atores fazem e, na verdade, se eles vão fazer. A gente tem uma série de materiais, mas não necessariamente todos são feitos, ou são feitos apenas uma vez… Ele é acessado a medida que o jogo vai caminhando para ele, ou os atores sentem que é o momento de entrar. Então, não tem roteiro, mas tem micromateriais que vão sendo costurados durante o jogo. O roteiro vai sendo feito ali também.

Os atores vão estar como personagens?
Não. São eles mesmos. Os cinco atores respondem pelo próprio nome, com as vivencias reais. Um dos motes de criação é a autobiografia, então eles se colocam como eles mesmos o tempo todo.

Eles vão dormir na casa ou são 24 horas acordados?
São 24 horas em que eles fazem toda uma vivência que poderia ter em casa: tomam banho, cozinham, por ventura dormem, mas não necessariamente dormem à noite e não necessariamente dormem oito horas. É uma vivência de casa mesmo: cozinham o almoço, fazem a janta, fazem bolo, uma pipoca… Mas tudo isso de maneira que vira material poético e material de cena, né. A gente tenta o tempo todo atritar, para que não seja simplesmente cotidiano.

E as pessoas que vão lá participar podem comer com eles?
Sim, sim. Não só podem comer, como podem cozinhar juntos se quiserem. Podem dormir também se quiserem. É um jogo bem horizontal. Não são só os atores que impõem.

Tem regras?
Tem. Os atores têm as regras que são os dispositivos de criação deles. E, quando os espectadores chegam, ganham algumas regras, porque a gente acha que, ao saberem as regras de utilização da casa, as pessoas acabam ficando mais à vontade com a casa, por saberem os limites dela. Então, a gente tem algumas regras desde não poder entrar calçado até “você pode mexer em todas essas roupas, mas esse armário é o único que não pode mexer”. A gente vai estabelecendo e, a medida que o jogo vai acontecendo, o espectador vai entendo um pouco as regras que acontecem entre os atores. Eles acabam se apropriando do jogo também.

Qual o limite de pessoas que podem ficar na casa?
Isso varia muito de acordo com o momento e com o tempo que as pessoas estão na casa. Se as pessoas que estão na casa já estão há algum tempo, a casa consegue abarcar mais, porque essas pessoas já entraram na energia do jogo, entende? Isso é uma variável que muda de acordo com momentos do jogo, então é um limite que a gente vai sentindo a medida que o jogo vai acontecendo. Tem eu, a produtora, a diretora de arte e o iluminador, externos ao jogo, sentindo a lotação da casa. Quando falo que a gente está externo, a gente está ali no meio, a gente não fica escondido.

Mas não são muitas pessoas na casa, né?
Não, não. Varia. Em Santa Teresa, a gente teve momentos de 25, quase 30 pessoas, mas era uma casa menor do que a que temos hoje. Eu não tenho como dizer um número preciso.

Os atores vão estar 24 horas na casa e não tem um roteiro pré-definido. O que qualifica isso como teatro e não como reality show?
É uma boa pergunta. A gente tem construção de materiais, que criam pequenos roteiros. Isso surgiu dentro de uma pesquisa de iniciação científica lá na UFRJ e minha orientadora, que era a professora Gabriela Lírio, chamava de roteiros performáticos. São esses pequenos roteiros, que tem início, meio e fim, e são pensados cenicamente falando. Além disso, o que a gente traz é uma questão de atritar realidade e ficção o tempo todo. Por mais que os meninos estejam como eles mesmos, eles se apropriam das histórias uns dos outros, como se fossem deles. Aí já cai em uma camada de ficcionalização. Outro aspecto que leva para o lugar do teatro e da teatralidade é que a gente cria outro espaço e outro tempo. Por mais que seja uma casa, 24 horas, com esse caráter de vivência real, a gente cria um outro espaço e tempo que é diferente do cotidiano. Quando a gente fez em Santa Teresa, algumas pessoas comentaram isso: que o olhar delas estava alterado para as coisas. As pessoas olhavam e a teatralidade se dava através do olhar delas: um simples lavar a louça era transformado para a poética da forma, a teatralidade do gesto de lavar a louça. Claro que quando o ator está lavando a louça ele não está só lavando a louça. Ele está atritando a ficção, criando outras camadas de teatralidade no cotidiano.

(Foto: Erick Dau)

(Foto: Erick Dau)

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SERVIÇO: sábado para domingo, 14h às 14h. Entrada franca. 24 horas. Classificação: 16 anos. De 6 a 7 e de 20 a 21 de agosto. Casa da Rua do Amor – Santa Cruz. Tel: 96937-5142.

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