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“A dramaturgia brasileira começou a se desenvolver”, destaca crítica Bárbara Heliodora

Bárbara Heliodora se aposentou do cargo de crítica do jornal O Globo, mas continua envolvida com teatro. Está atenta ao circuito carioca, traduzindo obras e participando de um grupo de estudos sobre Shakespeare. No fim de semana, participou de uma aula inaugural do curso de dramaturgia do Teatro Sesi, no Centro, e o Teatro em Cena estava lá para ouvir o que ela tinha a dizer. Sua análise do panorama atual é positiva. “Nos últimos dez anos, a dramaturgia brasileira começou a se desenvolver”, afirma, ressaltando talentos como Jô Bilac e Julia Spadaccini, que escrevem regularmente. “Tenho uma preferência particular por ‘Conselho de Classe’ [do Jô Bilac], porque é uma dramaturgia primorosa. É uma peça de brasileiros, sobre brasileiros”.

(Foto: Divulgação / Guga Melgar)

(Foto: Divulgação / Guga Melgar)

A especialista não ignora o histórico nacional – com Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Martin Pena, entre outros – mas afirma que se tratavam de talentos isolados. Atualmente, há uma pluralidade maior de textos de qualidade e de autores voltados para o teatro. Prova disso, segundo ela, é o aumento das montagens de textos brasileiros. “Antes não havia bons textos originais nacionais, e os atores eram criticados por só montarem obras de dramaturgos internacionais”. Para Bárbara, foram os besteiróis os responsáveis por proporcionar essa guinada – aumentando a produção e o público. “Alguns autores começaram no besteirol e depois foram escrever outras coisas, como Mauro Rasi e Miguel Falabella, então tem seu valor”.

Ela critica, porém, o que chama de excesso de monólogos. Nos últimos anos de trabalho no jornal, era esse formato o que mais lhe incomodava. “Eu não aguentava mais! De seis estreias, cinco eram monólogos! Um horror!”. Atualmente, há pelo menos quatro em cartaz no Rio de Janeiro. “Há pouco dinheiro no teatro carioca. Todo teatro feito aqui é com muita dificuldade. Não é como em São Paulo, que em qualquer momento tem 100 peças em cartaz. Aqui, se faz monólogo porque não tem dinheiro para mais. Com três atores no elenco, já é superprodução”.

Os monólogos favoreceriam atores exibicionistas, na opinião dela. Os cômicos, particularmente, alimentam o mito de que teatro é só divertimento. Ela responsabiliza esse conceito pela proliferação de peças ruins. “O crítico tem que ter muita paixão pelo teatro, porque vê coisas horríveis, e continua acreditando no teatro”, brinca. “Um espetáculo ruim me ofende, porque ofende ao teatro, é um desrespeito”. Bárbara ficava especialmente irritada quando produtores pediam que ela não fosse assisti-los na estreia. “Se não está pronto, não tem que estrear! Porque os críticos não podem ver e o público pode pagar para ver algo mal feito?”

"Conselho de Classe", de Jô Bilac, tem os elogios da crítica. (Foto: Divulgação)

“Conselho de Classe”, de Jô Bilac, tem os elogios da crítica. (Foto: Divulgação)

Uma maneira de diminuir a quantidade de peças de má qualidade, segundo ela, seria uma mudança na política de ocupação dos teatros municipais. Prezam a quantidade de projetos atendidos, às vezes prejudicando bons espetáculos. “É melhor atender um bom, em vez de quatro ruins”, opina. “’Conselho de Classe’ fica quatro semanas e tem que sair”. Bárbara acredita que isso prejudica a fidelização do público e o boca-a-boca, porque os espectadores se perdem quando uma peça fica em trânsito, com mudanças frequentes de teatro. “Seria um serviço melhor se ficasse mais tempo no mesmo lugar”.

A crítica mais temida também destaca os problemas nas políticas públicas. Certa vez, se revoltou ao perceber que uma peça de má qualidade tinha chancela do Ministério da Cultura. “Chamava-se ‘Sexo’ e nem sexo tinha. Era uma porcaria. Questionei o selo do Ministério da Cultura e me disseram que eles não podem usar a qualidade como critério. Qualquer um que preenche o formulário corretamente é aprovado e tem o direito de captar recursos com as empresas, com isenção fiscal. Isso me deixa horrorizada. Tem que se chamar Ministério Assistencial”. Bárbara acha que muitos dramaturgos exercem o ofício sem ter nada a dizer. O texto é o grande problema das piores peças. “Escrevem porque acham bonitinho. O autor tem que querer dizer alguma coisa. É o primeiro passo”.

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