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A fantástica fábrica de artistas – Por Vitor Rocha

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(Foto: Divulgação)

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As pessoas perguntam a minha idade constantemente e se espantam. Não por eu ter dezessete, mas diante da opinião que tenho sobre sobre a arte, a vida e o futuro. “Lá vem o mineiro precoce” gritavam os meus colegas mais velhos quando comecei a estudar teatro aos quatorze. Eu não achava isso muito divertido, mas hoje morro de vontade de abrir um centro formador de mineiros precoces… Quem está aqui há mais tempo que eu pode confirmar que o ritmo mudou e a batida acelerou. Acelerou como se o dia fosse mais curto e tudo acontecesse mais cedo. As crianças que tocam bateria como profissionais, cantam como as estrelas e os meninos de dez anos que criam os aplicativos milionários já não são mais raridades ou vídeos legais do YouTube, são os nossos vizinhos, conhecidos e até mesmo amigos (ou filhos destes, rs). Mas eu não quero falar do sentimento acelerado do mundo, quero falar de teatro.

Todos os atores devem se lembrar de como foi pisar num palco pela primeira vez. Eu lembro que era um gato amarelo e tinha sete anos. Lembro que só fiz a peça descalço porque choveu e o clube onde íamos apresentar tinha muitas goteiras no lugar que eles chamavam de “camarim”. (Ficava além de Grotowski a ideia que tinham por aqui de “teatro pobre”.) Era um festival estudantil que iria escolher o melhor espetáculo dentre todos os encenados pelas escolas, eu aproveitei a deixa e acabei escolhendo o que queria fazer pelo resto da minha vida. Eu não sei o que estaria fazendo hoje se uma professora não tivesse inventado toda essa história de gato. Eu poderia estar me descabelando por conta do ENEM, por uma vaga na faculdade de medicina ou até mesmo por não saber o que seria daqui em diante, mas no momento o que me faz arrancar os cabelos são as marcações de palco, as trocas de figurino e as falas que não decorei. E tudo está normal! Todos nós temos o direito de surtar no ensino médio, afinal não existe lugar mais propício para isso, mas talvez a razão (e diria até mesmo a culpa) de eu não temer tanto a vida e as escolhas de hoje seja a educação que recebi. Por sorte não me fizeram naquela fôrma que vê a vida como uma bifurcação e só.

Certo dia, inclusive, ouvi de um professor: a minha meta é colocar aluno na universidade. Parei, desliguei o que Edu Lobo cantava no fone de ouvido e pensei: que triste! Triste porque a universidade não chega nem perto do universo e não contaram isso para ele. E professores, me perdoem ou agradeçam, mas eu acredito no que vocês fazem. Acredito na arte de ensinar mais do que em qualquer outra e é justamente por isso que vejo a escola como o melhor lugar para se experimentar, errar, cair e aprender. Vejo a escola como uma folha em branco então, por favor, não me dê só uma caneta para rabiscar. Me veja uma aquarela, nanquim, carvão, giz de cera e tudo mais!

Sou um dos criadores do Projeto “Pardalzinho” – Teatro na Escola, um projeto que acabou por fundar um grupo de teatro composto exclusivamente por crianças de até onze anos, e penso assim: há que se saber o básico da matemática, o básico da química e até mesmo o básico da botânica, então porque não se ensinar o básico das cênicas ou da dança? E a gente pode ir além! É só pensar nos inúmeros dramaturgos excelentes, diretores sensacionais ou atores de tirar o chapéu que nós não estamos tendo o privilégio de conhecer pois estes simplesmente não foram apresentados ao teatro.

O ponto é que feliz e recentemente foi aprovada a lei que estabelece como disciplinas obrigatórias da educação básica as artes visuais, a dança, a música e o teatro, e essa coluna foi a minha maneira de comemorar. Talvez seja hora de mudar a pergunta “o que você vai ser quando crescer?” e pensar melhor na música de Milton “há que se cuidar do broto/ pra que a vida nos de flores, frutos”. Eu digo jovens e me incluo, digo crianças e não falo só das minhas, falo do que pode ser se quisermos. Às escolas e educadores eu diria, como um aluno que brinca de ensinar o que está aprendendo: nós podemos trabalhar nesse produto e fabricar algo bem mais interessante se levarmos na cabeça “inspirar” em vez de “educar”.

“Você precisa ser alguém na vida!” Não sei se sou alguém na vida, mas no palco já fui vários.

Vitor Rocha é ator, escritor, diretor e criador do Backstage Musical.

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