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A gente viu e conta tudo pra você: Cássia Eller – O Musical

Fãs da Cássia Eller, do João Fonseca, de teatro musical e curiosos em geral estão de olho nesta peça. “Cássia Eller – O Musical” estreou com ingressos esgotados para duas semanas, e um burburinho sobre a dificuldade para adquirir entradas. “Mais difícil que ingresso para o musical da Cássia Eller” é quase um bordão nas redes sociais. Pesam, além de todos atrativos mencionados, o preço da entrada (R$ 10) e o tamanho do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, que acomoda menos de 200 pessoas. Então, basicamente, assistir ao espetáculo predispõe alguma disputa – seja na bilheteria do local ou no site Ingresso Rápido. Só os vencedores veem a peça. Mas o Teatro em Cena foi convidado para assistir e conta tudo para você.

Tacy de Campos como Cássia Eller. (Foto: Marcos Hermes)

Tacy de Campos como Cássia Eller. (Foto: Marcos Hermes)

Esse é o terceiro musical do diretor João Fonseca sobre um artista popular. Ele também dirigiu as peças sobre Tim Maia e Cazuza, dois sucessos de bilheteria. “Cássia Eller” traz algumas características recorrentes do trabalho dele: um rosto novo no papel principal (no caso, o da cantora curitiba Tacy de Campos), pouca parafernália cenográfica (“O Grande Circo Místico” foge à regra) e atores interpretando vários personagens diferentes. Fora isso, é tudo novo. O espetáculo aposta em um clima muito intimista, quase introspectivo, como era a homenageada em seu dia-a-dia.

A peça começa com “Do Lado do Avesso”, uma das poucas composições da própria Cássia. Tacy aparece de costas no palco, que acomoda um cenário simples, com plásticos pretos, banda e atores em cena. Ela se vira apenas em “Lanterna dos Afogados”, quando mostra logo a que veio – não só pelo gogó, mas pela atitude: tira a camisa e toca com os seios expostos, encarando o público. Tacy é um desses achados do João Fonseca, que divide a direção – e o mérito – com Vinícius Arneiro (de “Cachorro!”) neste trabalho.

Como Emílio Dantas em “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”, Tacy chama a atenção pela semelhança do seu timbre com o da Cássia Eller. Com o trabalho dos figurinistas Marilia Carneiro e Lydia Quintaes, não dá para negar: ela também lembra fisicamente a cantora. Suas limitações como atriz, que são várias, são compensadas pela musicalidade. Tacy transforma o palco do teatro em show e, quando simula o Rock in Rio, você realmente acredita que está no festival. Ao cantar “Malandragem”, ela até vira o microfone para a plateia. Ponto para Lan Lan, que assina a direção musical, e para iluminação do André Crespo, que dá conta das variações da história diante do minimalismo do cenário intimista.

Lista de músicas do espetáculo. (Crédito: Programa)

Lista de músicas do espetáculo. (Crédito: Programa)

O texto de Patrícia Andrade (de “Elis, a Musical”) acompanha a carreira e a vida pessoal da cantora, com suas passagens pelo Rio de Janeiro, por São Paulo e por Brasília. Ao contrário do que fez com “Elis”, a dramaturga não maquiou a nova biografada – estão lá a galinhagem, a bebedeira, o consumo de drogas, e todos os defeitos. Quem amar Cássia, vai amar “apesar de”. Há cenas de Maria Eugênia (vivida por Eline Porto, de “Hedwig e o Centímetro Enfurecido”), a esposa da cantora, praticamente implorando para que ela maneire, em nome do filho Chicão. Mas ela não maneira. Cássia sempre fazia o que queria, e os outros que a aceitassem assim.

Eline Porto, aliás, acertou o tom como Maria Eugênia. É dela a responsabilidade da maior dramaticidade do musical, carregando sozinha a emoção de mais de uma cena. Ela também surpreende nas cenas mais quentes (há até um ménage à trois). Outra que merece destaque é Evelyn Castro (de “Tim Maia – Vale Tudo, o Musical”), que chama a atenção e arranca aplausos em todos os seus números musicais. Vinda do extinto programa de calouros “Fama”, ela reafirma-se como boa atriz, cheia de comicidade. São dela os papeis da mãe da Cássia, e da namorada Ana.

As performances mais bonitas e delicadas, no entanto, vem para o final, com o ator Emerson Espíndola (de “Hair”), que vive Nando Reis. Com Tacy, ele canta “Relicário” e “All Star”, tão próximos do público, que parecem em comunhão com a plateia – como a cantora gostava. É um momento muito sensível, e os espectadores não resistem a cantar junto.

Tacy de Campos e Emerson Espíndola na performance de "All Star". (Foto: Marcos Hermes)

Tacy de Campos e Emerson Espíndola na performance de “All Star”. (Foto: Marcos Hermes)

O CD e DVD “Acústico MTV”, evidentemente, é uma referência para a montagem, que corre para um lado diferente de “O Grande Circo Místico”, a outra peça do João Fonseca em cartaz. Na sessão em que o Teatro em Cena assistiu, houve algumas falhas de microfone e de falas (atores chamaram a personagem Moema, primeiro amor de Cássia, de Thainá – que é o nome da atriz que a interpreta, Thainá Gallo). Mas nada disso diminuiu a beleza do que se viu. São 2h30, em um ato único, de pura viagem no tempo.

A temporada está marcada até 20 de julho, com sessões de quarta a domingo, sempre às 19h. Os ingressos são vendidos no dia de cada sessão no site da Ingresso Rápido e antecipadamente na bilheteria do local.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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