Entrevista

A história não contada de Myra Ruiz

(Foto: Rafael Jacinto)

“Você quer bala?” – a oferta inocente sinaliza um momento importante na vida de Myra Ruiz. A atriz está no camarim que divide com Helga Nemeczyk e Marina Palha no Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro, cidade para a qual se mudou em 2018 por conta do musical “Meu Destino É Ser Star”. Ela tira da bolsa um pacote fechado cheio de balas de gelatina coloridas e deixa que o repórter o abra, enquanto ela liga o ar-condicionado. São 17h e o teatro está vazio. Ela chegou uma hora antes do normal para ser entrevistada para o Teatro em Cena: “você se importa se eu for me maquiando? Eu demoro. Não importa o tempo que eu tenha, eu sempre fico atrasada”. É fácil entender sua demora com a caracterização: Myra fala olhando nos olhos, para, pensa, se recosta no encosto da cadeira, chega para frente, checa informações no celular, puxa memórias no passado e se deixa levar pelo papo, constantemente reservando à maquiagem o segundo plano.

Myra Ruiz Canzian, filha de pais jornalistas, nasceu em 19 de janeiro de 1993, em São Paulo. Para os fãs de teatro musical, ela é mais conhecida como a Elphaba de “Wicked”, espetáculo importado da Broadway e visto por 340 mil espectadores em São Paulo em 2016. Para pegar o papel, Myra passou por uma bateria de testes concorridos. Interpretar a Bruxa Má do Oeste era o sonho de sua vida – um sonho distante, admite. Ela já tinha visto “Wicked” seis vezes na Broadway. Resultado: se jogou de cabeça no trabalho, sem pesar as consequências de um tombo. Foi aclamada, mas só ela sabe o quanto pesou. Nesta entrevista, como “Wicked”, que conta a história não contada das bruxas de “O Mágico de Oz”, Myra Ruiz chama a atenção para a história não contada de uma atriz no auge de sua carreira.

– Eu queria mostrar uma força e uma superação de “dou conta”. Eu me enchi de remédios nos ensaios. Até quero falar isso para as pessoas entenderem que você deve e pode ser muito dedicada ao seu trabalho e tudo o mais, e é como eu sou até hoje, mas a saúde tem que vir em primeiro lugar. Você ficar tomando remédio que nem louca, esses remédios que desinflamam a voz e tal, nem sempre é a melhor saída. Eu fui colher os problemas depois. Fui ter problema hormonal no ano passado, porque junto com isso vieram dietas malucas para ficar magra e… distúrbio de imagem. Rolou tudo isso comigo. – revela Myra Ruiz.

Myra caracterizada como Elphaba em “Wicked” (Foto: Divulgação)

Com o sucesso de “Wicked”, ela passou a ver suas fotos estampadas em jornais, revistas e sites de cultura e entretenimento. Basta dizer que as primeiras imagens de sua caracterização como Elphaba foram divulgadas pelo blogueiro Hugo Gloss, na época com cerca de seis milhões de seguidores no Instagram. Myra também se sentou para uma entrevista no extinto “Programa do Jô” e foi cantar no “Encontro com Fátima Bernardes”. Significa dizer que, pela primeira vez, ela alcançava um público massivo. Com isso, vieram as preocupações com sua aparência e um distúrbio alimentar. “Eu quase fiquei anoréxica, porque não me via magra o suficiente para me enquadrar nos padrões da sociedade. Não me via bonita o suficiente, com a boca que eu deveria ter, com o cabelo que eu deveria ter…”, conta. Sair desse lugar não foi fácil.

– Entrei em um distúrbio de imagem ferrado de não querer comer. Eu estava magra, magra, magra e não me via assim. Tomava remédio para conseguir fazer o show e não comia direito. Mas eu dei conta. Meu trabalho foi bem feito pra caramba. Depois eu fui me descobrir nesse lugar que me coloquei. Talvez não precisaria ter sido tão grave assim. Eu sou doida pelo meu trabalho. Não foi só com “Wicked”, é por meu trabalho de uma forma geral. É que “Wicked” é mais falado. Não é que eu seja obcecada pela Elphaba, eu sou obcecada por meu trabalho. Eu fui parar na médica no ano passado principalmente por causa dessa coisa da magreza e quero falar sobre isso, porque acho importante as pessoas saberem. – pontua.

Myra, atualmente, no palco de “Meu Destino É Seu Star” (Foto: Caio Gallucci)

Quando fala sobre o trabalho, Myra Ruiz usa as variações “obcecada” e “obsessão” várias vezes durante a entrevista de uma hora. Ela é muito autocrítica. “Myra é extremamente competente e exigente com ela mesma”, diz Rachel Ripani Rach, diretora residente de “Wicked”. Sua disciplina vem da infância – com a rotina de treinos em ginástica olímpica e oito anos de aulas de ballet. Quando começou a estudar teatro musical na adolescência, sua determinação para alcançar resultados chamou a atenção da professora, Maiza Tempesta. “A Myra sempre foi muito dedicada e persistente. Ficava ensaiando até conseguir”, ela lembra, “agora ela é uma estrela do teatro musical, com esta voz incrível, mas com a maturidade vai ficar imbatível. Espero em breve vê-la nos palcos da Broadway ou West End! Tem tudo para estar lá”. A atriz, por enquanto, não faz esse tipo de projeção. Está no momento de buscar equilíbrio para levar a carreira de maneira saudável.

– Minha obsessão é boa para o trabalho. Tenho certeza que tudo que tive até hoje foi por causa disso. Minha médica falou isso: “pra quem te contrata, você é maravilhosa, mas a gente precisa começar a cuidar da sua cabeça, né anjo?” (risos) Eu super estou encontrando esse balanço. Comecei a meditar, comecei a praticar yoga, comecei a entender como consigo equilibrar meu trabalho e viver uma vida mais natureba, cuidar da minha alimentação… Estou nesse processo, e virando outra pessoa. Esse processo de voltar a me encontrar, me doar 100% para o que faço, mas também entender que a vida é uma só e que preciso cuidar da minha saúde. – pondera.

Vamos começar do começo

Myra não é a típica artista que sabia desde criança que queria trabalhar com arte. Na infância, dizia que queria ser jornalista ou estilista. “Nunca fui de falar ‘vou ser atriz’. Quando perguntavam, eu dizia ‘jornalista’ por causa dos meus pais”, lembra. Foi a vida que a levou para o teatro. Antes, chegou a se dedicar por anos à ginástica olímpica. Sua característica obsessiva pela perfeição já se manifestava nesta época. “Eu era viciada, treinava todo dia”. O ballet veio em seguida, também com uma rotina rígida, e a apresentou aos palcos com “Mary Poppins”. Pronto, era a dica do destino.

TEATRO EM CENA – Como foi sua infância?
MYRA RUIZ –
Foi incrível. Meus pais são maravilhosos. Minha mãe é uma pessoa foda, então eu lembro muito de ficar com minha família no Tatuapé, um bairro super italianão de São Paulo onde minha avó mora. A gente brincava muito por lá. Eu ficava muito com minha avó. Minha mãe me teve muito cedo – com 21 anos – e trabalhava, então minha avó ajudou pra caramba nesse processo. Tenho muita lembrança também de quando fui morar em Washington, quando era pequena e tinha 8/9 anos. Foi muito marcante na minha vida isso.

Você sofreu essa mudança?
Cara, não sofri. Foi muito legal. Eu nunca tinha saído do Brasil, não falava inglês, nenhuma palavra. Cheguei fazendo umas microaulinhas. Meus pais foram trabalhar lá – meu pai, meu padrasto – e aí eu já estava falando inglês perfeito em um mês, porque criança pega muito rápido. Não sofri. Fui superabraçada. Estudei em um escola incrível, pública. Era bem “Desperate Housewives”. Bem parecido com aquele bairro de “Desperate Housewives”, bem subúrbio. Fiquei um ano e meio, aí minha mãe e eu voltamos. Tenho muita lembrança disso. Foi uma época muito boa.

Seus pais são separados?
Sim. Ih, as histórias dos meus pais são meio doidas.

Como foi essa separação para você?
É que nem é separação, na verdade… Bom, vou explicar. Não conheço meu pai biológico. Mas não sei o quanto falando isso em uma entrevista… [se interrompe] É zero um problema. Zeeeero! Zero uma questão na minha vida. Mas as pessoas podem estranhar.

Quando você fala “pai”, então, se refere ao padrasto?
Cada vez eu falo de um. Já explico. Vou registrar o seguinte. Eu não conheço meu pai biológico, mas fui criada por quem eu chamo de pai, que é quem ficou com minha mãe quando eu era pequena, que é o Ulisses. Mas, depois disso, teve outra pessoa na vida dela, que eu cresci com ele, e acabo também chamando de pai, que é o Fernando. Agora ela não está mais com o Fernando, mas eu mantenho com ele uma relação de pai e filha. Agora ela tem o Renato, com quem é casada, e também é meu pai. Quase a Sophie, de “Mamma Mia”.

Isso nunca foi uma questão para você?
Não. Sempre tive uma figura paterna ali. Nunca foi um mistério, sempre foi normal.

E você nunca quis ir atrás do pai biológico?
Não. Nunca tive curiosidade. Talvez porque eu tive uma figura – até muitas – que chamo de pai.

(Foto: Reprodução / Instagram)

Você começou a fazer ballet com quantos anos?
Eu comecei a fazer ballet com uns 10. Fazia ginástica olímpica já há anos e, quando fui para Washington, cheguei a entrar no time da escola. Eles acharam que eu tinha muito talento para isso. Quando voltei para o Brasil, fui para a Yacht, que é um clube super legal, onde a Daniele Hipólito também treinou. Mas chegou um dia que fiquei com uma dor muito forte no ombro, uma tendinite, e o médico falou: “vida de atleta vai ser isso. Se você continuar assim, vai ter que operar… É isso que você quer da vida?”. Aí eu percebi que seria uma coisa complicada. Ele falou “tenta outra coisa, faz ballet” e eu pensei “olha pra minha cara de quem vai fazer ballet”. Mas fui fazer. (risos) No primeiro dia de aula, cheguei lá, collant azul, meinha rosa… Eu sempre fui mais madura, meio moleca, fazia escola de esportes, corria e tal. Fui para o ballet e pensei “o que que é isso?”. Só que no segundo dia eu estava completamente apaixonada. Entendi o desafio que era e nunca mais parei. Comecei a fazer ballet todos os dias depois de uns anos. Muito apaixonada. Obviamente, subestimei muito o quão maravilhoso e difícil é dançar. Eu me apaixonei pela dança. Tem um DVD de “O Quebra Nozes”, da Royal, que eu assistia quase todo dia. Era muito obcecada.

O que você traz do ballet?
A disciplina, com certeza. É uma disciplina que não tem igual. Eu sempre fui muito disciplinada, mas o ballet me ensinou essa prontidão nos ensaios – de estar aqui prestando atenção no que está acontecendo. Dedicação, também. Qualquer coisa que eu vou fazer é uma coisa de repetição e repetição e repetição… seja uma cena, seja tudo. O ballet me deu uma base muito boa de disciplina para meu trabalho.

Quando o teatro e o canto entraram na sua vida?
Juntos. Eu estava fazendo ballet e, todo final de ano, tinha a apresentação da escola, a Cisne Negro. Um dia, a dona da escola chamou a Maiza Tempesta, do [curso] TeenBroadway, para montar “Mary Poppins” no fim do ano. As alunas ficaram tipo “não! não! Que merda! Quero fazer ballet de repertório! Vou fazer Mary Poppins?!”. Eu meio que não entendia muito, mas já meio que conhecia musicais desde pequena, porque minha mãe me botou para ver “Grease”, “Hair”, que ela amava… Eu curtia musical, mas era uma coisa meio distante, era filme. Aí montaram o tal do “Mary Poppins” e eu fazia a pinguim. Eu também já descobri o mundo dos musicais ali através da Maiza e me apaixonei na hora. Foi afunilando: a ginástica olímpica me levou para o ballet e o ballet me levou para o teatro musical. “Mano, encontrei Jesus!”. Foi muito legal.

Os primeiros passos no teatro musical

A mãe de Myra viu o quanto ela gostou da experiência com “Mary Poppins” e a matriculou no curso de férias do TeenBroadway, escola de teatro musical que serviu de celeiro para vários nomes da nova geração. “Fui fazer o curso e, meu, encontrei minha galera, minha turma”. No ano seguinte, montaram “Mary Poppins” de novo no ballet e Myra teve um upgrade. “Não fiz mais o pinguim. Eu pedi para fazer a coreografia do limpador de chaminé. Eu me lembro disso, porque era um nível acima do meu, mas eu queria muito. Era uma coreografia de jazz. Não era ballet. Não sei dizer a sensação. Eu dançava no último lugar do fundo e era a pessoa mais feliz do mundo. Uma sensação muito louca de estar cantando e dançando”, ela diz e rapidamente completementa, “a gente cantava tudo cagado, mas cantava. Eu me apaixonei”. Sua entrega à coreografia foi tanta que, no fim da semana de apresentações, teve que ir ao médico por conta de uma dor no calcanhar. Descobriu que o pé estava quase quebrado. “Todo rachadinho, de tanta empolgação que eu dancei. Tanto impacto”. Ela, nesta altura, estava com 15 anos. Um ano antes de se mudar para Nova York.

– Eu sei o quão privilegiada eu sou de ter tido essa oportunidade. Eu fiz o TeenBroadway e estava chegando a época do ano em que todo mundo no meu colégio fazia intercâmbio para aprender inglês. Geralmente, no segundo semestre do segundo colegial. Rolava isso nas escolas que eu estudava. Aí meu pai Fernando, que é jornalista, estava morando em Nova York e eu vi essa oportunidade de ir lá fazer um curso de musical. Mas a ideia era igual do TeenBroadway: vou lá, estudo, faço uns cursos, vejo os musicais… a gente foi com essa ideia. Pesquisando escolas – porque eles botam você na escola pública baseado em que bairro você mora – eu por acaso achei essa Professional Performing Arts, que é tipo a escola do “Fame”. É um colegial com conservatório de dança, teatro ou teatro musical. Você estuda normal até o meio-dia e à tarde tem o conservatório disso. Eu olhei na Internet e a Britney Spears estudou lá, a Alicia Keys estudou lá, um monte de criança artista estudou lá. É uma escola que tem tolerância com o ator e entende que as crianças trabalham – vão fazer filme em L.A., etc. Eles fazem de um jeito que caiba a criança ser artista também. Mas, assim, você tem que fazer audição para passar. É o sonho de todo mundo. É uma puta escola restrita. Eu lembro de olhar no computador e falar “mãe, olha essa escola, que foda! Imagina estudar lá”. Eu lembro dessa cena. Aí me mudei para Nova York, me matriculei nas minhas aulas de canto e, na hora de escolher a escola, eu perguntei para a mulher lá: “e essa escola aqui?”. Ela disse “ah, essa é super difícil, só entra com audição. Posso tentar conseguir uma audição para você, mas é muito difícil”. Resumindo, ela conseguiu.

A então adolescente fez o teste, “se cagando de medo”, e cantou “On My Own” de “Les Miserábles”. O diretor do colégio tocou piano para ela, o que a impressionou. “Eu falei ‘você quer a partitura?’, mas ele sabia de cor. O diretor da escola sabia tocar de cor ‘On My Own’, não é um sonho?! (risos)”. Ela cantou, apresentou um monólogo e recebeu a resposta positiva. “Essa foi a primeira audição que tinha alguma coisa em jogo. Eu lembro que a gente desceu e ele falou ‘I see you, as aulas começam daqui a uma semana’. Meu pai estava me esperando. Foi muito louco. Eu pensava ‘nunca! Eu tô indo fazer só para brincar…’ e ele me falou maior de boa que eu tinha passado. Eu chorava tanto! Muito feliz! Fiquei meio sem entender: ‘será que eu passei mesmo?’. Ele falou tão de boa”, conta. Mas era sério, claro. O interessante é que a aprovação não encorajou Myra. Tímida, ela passou um bom tempo matando as aulas de canto, inibida de cantar na frente dos outros alunos, que eram mais experientes.

(Foto: Julia Rodrigues)

TEATRO EM CENA – Você já disse que era insegura com seu canto. Quando você ganhou confiança com sua voz?
MYRA RUIZ – Nunca! (risos) Mentira. Não teve um momento, acho que você vai ganhando. Eu ainda sou insegura com a minha voz. Sou insegura com tudo, na verdade, mas óbvio que não é igual era antes. Eu agora não penso tanto sobre “gostar da minha voz cantada”, mas penso que ela é meu instrumento de trabalho, então cuido dela, estudo e desenvolvo meu trabalho com ela.

Você gosta de se assistir e de se ouvir?
Cara, não gosto, mas é bom. Me dá muita aflição. Não vou ouvir minha voz e falar assim “ai que delícia esse som dos anjos…” (risos). Quando você ouve os outros, acha tudo lindo, mas quando me ouço, é com olhar muito crítico, né? Quando me ouço, são dez vezes: as primeiras cinco são me criticando, aí a sexta é tipo “hum, okay”, e começo a ver as coisas boas depois de um tempo. Sou meio perfeccionista. Se eu puder não ver, não vejo, mas às vezes é bom até para corrigir. Você aprende coisas sobre você se assistindo.

Tinha alguma questão ser a brasileira no colégio?
(pensa) Não. Em Nova York, eles são muito abertos. Era uma escola só de artistas. Por isso que eu amo muito Nova York: é um lugar que você pode ser o que quiser. Não sei se cheguei a sofrer algum preconceito. Hoje em dia, olho pra trás e me vejo muito bem recebida. Óbvio que americano é muito fechado… Mas foi a primeira vez que eu vi jovens muito livres para ser quem queriam ser… Eu era muito amiga de um menino que era quase trans. Ele estava nesse processo. Hoje em dia, sei que foi o que aconteceu. Ele usava maquiagem para ir a escola! As meninas usavam saltão! Eu antes estudava em uma escola onde todo mundo queria ser igual e eu queria só ficar no meio da galera sem ser percebida, sabe? Aí entrei nessa escola. Era muito “Fame”. Sabe o início de “Fame”? Era aquilo. “Que gente foda!” Além de serem muito talentosos. Eram bizarros.

Quanto tempo você ficou?
Um ano e meio também. Aí eu voltei para terminar o colegial aqui.

É verdade que você ficou barrada na imigração uma vez?
(risos!) Várias vezes eu fiquei! Não sei se foi dessa vez. Eu sempre fico barrada na imigração! (risos) Acho que dessa vez, não. Mas as vezes seguintes… Aliás, toda vez que vou para Nova York agora, eles me barram, porque… não sei. Acho que veem que vou muito e eles acham que… sei lá. Toda vez me levam para uma salinha alternativa, dão uma olhada melhor, me fazem umas perguntas… Sei lá o que eu fiz e o que eles têm sobre mim naquele computador!

Myra Ruiz em “Fame” (2012), seu segundo musical: época em que lembra de ter sido barrada na imigração nos Estados Unidos (Foto: Reprodução)

Eles devem ter a informação que você morou lá duas vezes, e deve levantar a suspeita.
Como sou uma pessoa que vai muito… Sei lá! Eu lembro uma vez, inclusive, que eu fazia “Fame”. Acho que era intervalo do “Fame”, algo assim. Eu falei “não, moço, eu tenho que voltar, porque trabalho, faço musical”. Aí ele “hã, que musical? Tem prova?”. “Tenho”. Tive que pegar meu computador e mostrar foto minha de Carmen, em cima do táxi, para o cara da imigração! (risos) Juro! Eu lembro. Em cima do táxi.

Como foi ser uma adolescente em Nova York?
Foda, muito foda. Sou muito apaixonada por Nova York. Eu aprendi um pouquinho sobre como é possível você ser livre para ser quem você é. Aprendi médio, porque não consegui botar em prática, mas pelo menos entrei em contato com essa galera que é muito livre. Eu sempre fui muito tímida e muito tensa com o que vão pensar de mim. Cada vez mais isso melhora, e em Nova York vivi uma vida… Eu ficava muito tempo sozinha, porque meu pai trabalhava e me deixava muito livre. Eu era mais madura do que a galera da escola, que era muito mais cuidada pelos pais. Eu meio que morava sozinha, porque meu pai trabalhava pra caramba. Eu ia e voltava da escola sozinha. Era muito uma vida dos sonhos. Eu lembro com muita saudade. Minha escola era na Times Square, então todos os dias eu estava na Times Square 6h da manhã. Ela vazia, eu chegava ouvindo música e pensava “que privilégio estar aqui”, sabe? Todo dia, eu passava na frente de “Hair”. Estava passando o revival. Eu era obcecada. Ainda sou. Eu assistia direto. Ficava pensando “só mais uma vez…”. Bem fã de musical, sabe? Eu ia várias vezes. “Não tenho dinheiro, foda-se, só mais uma vez…”.

Você lembra o primeiro musical que você assistiu na Broadway?
Está entre “Mary Poppins” e “A Pequena Sereia”. Provavelmente já respondi diferente em entrevistas, mas acho que foi “A Pequena Sereia”.

I have a dream, a song to sing

Depois dessa experiência, voltou ao Brasil para terminar o colégio, pensando em fazer faculdade de Jornalismo. “Estudei teatro musical em Nova York, mas viver disso? Era bizarro. Não fazia sentido para mim. Era muito distante!”. Ela se lembra bem: retornou a São Paulo em janeiro e estava rolando a segunda etapa das audições do musical “Mamma Mia”, uma superprodução da Time For Fun. Ela foi ao local para acompanhar uma amiga. Chegando lá, pediu para fazer o teste também. “Eles me acharam super louca. ‘Quem é você?’ Ainda mais a Time For Fun, uma mega empresa, superorganizada… Não é uma coisa meio ‘chega aí'”, conta. Ela até cercou o diretor na porta do banheiro, mas isso… não deu certo. Era a realidade, e não a cena de um musical, afinal. Foi uma produtora que, com pena, entregou uma senha para ela entrar na sala de teste. Com uma partitura emprestada, Myra cantou “My Strongest Suit” do “Aida” e recebeu dez páginas para estudar para o teste da protagonista no dia seguinte. Resultado: Myra passou para cover de Sophie, a personagem de Amanda Seyfried da adaptação cinematográfica.

TEATRO EM CENA – Sua amiga passou?
MYRA RUIZ – Não (risos).

Sempre quis saber isso! (risos)
(risos) Nenhuma das duas que me ajudaram. Sorry, amigas!

Como foi estrear já em uma produção tão grande?
Eu tentava não estar deslumbrada, mas era uma fã de musicais trabalhando com pessoas que eu era fã, num lugar que eu só imaginava trabalhar nos meus sonhos, e fazendo uma megaprodução gringa. Ainda bem que eu tenho uma cara de que acha tudo de boa, porque por dentro eu estava muito deslumbrada, achando tudo o máximo. Eu dei o meu máximo. No primeiro dia, todo mundo recebeu uma partitura e eu não sabia o que fazer com aquilo. Eu ficava olhando a Paula Capovilla para ver o que ela estava fazendo com a partitura e ela grifava, obviamente, a linha vocal dela. Eu grifei a letra… Não sabia o que tinha que fazer com a partitura. Fui aprendendo, óbvio. E o processo de ser cover da Sophie foi o maior aprendizado, porque é uma bucha. Um teatro de 1.500 lugares, abre a cortina e está lá você sozinha no palco. Nossa! Sei lá! Tadinha de mim, maluca.

Myra Ruiz no palco de “Mamma Mia”, seu primeiro trabalho, ao lado de Kiara Sasso (Foto: Divulgação)

Mas ali você entendeu que era isso que você ia fazer da vida?
Ainda não! (risos) De novo, eu ainda achava “beleza, só passei nesse aqui”. Eu passei no teste para “Mamma Mia” no início do ano e a gente começou a ensaiar no final do ano, então nem fui na formatura do colégio – não teve esse momento – porque eu já estava ensaiando. Mas eu pensava “sei lá, vamos ver o que é, vamos fazer isso aí”. Logo depois, passei no “Fame” também e pensei “talvez isso possa me levar para algum lugar”.

Eu li uma entrevista sua na qual você diz que seu primeiro teste foi horrível e que saiu chorando pela rua. Mas não consigo encaixar isso na sua história. O primeiro teste não foi esse para “Mamma Mia”?
Não, acho que foi do “Hairspray”. Primeirão da vida mesmo! Foi antes de tudo, na época do TeenBroadway ainda, antes de eu ir para Nova York. Foi bizarro. Todo mundo cantava na frente um do outro. Era “One Night Only” e ele modulava às vezes “one night only, one night only, one night onlyyy” para ver até onde você chegava. Estava toda a galera do meio. Eu não conhecia muito ninguém. Estava com a galera do curso. Mas foi bem ruim. Saí de lá tipo “socorro”.

Já ouviu muitos “não”?
Já. Pra caramba. Muito mais não do que sim, na verdade.

Olhando seu currículo, mal ou bem você foi emendando trabalhos ano a ano.
É verdade isso. É por isso também que uma hora eu aprendi a não ficar tensa sobre qual vai ser o próximo trabalho. Tem dado certo. Está meio entregue nas mãos de Deus. Tem que acreditar que vai dar certo. Tem dado, sempre deu, e eu aprendi isso. Mas, no meio disso, teve muito não. Antes da Saraghina, foi uma época muito foda, porque eu estava muito mal – não passei em nada. Fiz uns cinco testes e tudo muito “quase vai”. Foi depois de “In the Heights”, minha primeira protagonista, aí falei “top, agora só sucesso, agora vai” (risos). E nunca vai, né? Fui chamada para umas coisas muito legais, fiz os testes e só não, não, não. Aí eu vim fazer um curso aqui no Rio, fiquei um tempo meio parada e pensei “acho que é melhor eu procurar outra coisa para fazer”. Foi um período de seis meses, que é muito normal para a gente. Todo mundo passa. Mas logo depois veio a Saraghina para me dizer que se você continuar se dedicando, estudando, relaxa. [corrige-se] Relaxa, não. Mas se você acreditar o suficiente vai dar tudo certo. Não adianta ficar se desesperando. Quanto mais você se desespera, mais você fecha sua energia e mais as coisas dão errado, né?

Como você lida com o “não”?
(suspira) Eu não lido tão mal assim. Eu não fico arrasada. Acho que teve um teste que eu fiquei bem mal, porque eu não passei. Não vou falar qual é…

Talvez eu pergunte mais a frente (risos).
(risos) Teve um teste que fiquei muito mal, porque eu queria muito fazer, mas de resto… (pausa) É porque, na verdade, os que eu queria muito, muito, muito, graças a Deus eu consegui. Acho que isso diz alguma coisa. Acho que quando você quer de verdade… Sei lá, não sei se é papo, mas nas vezes em que eu quis muito, tem aquele lugar lá no fundo no qual você acredita e coloca suas energias para isso, que não tem muito como dar errado, eu acho.

(Foto: Rafael Jacinto)

Em “Mamma Mia”, você conheceu o maestro Paulo Nogueira, com quem acabou se casando. Quanto tempo ficaram juntos?
Sim. A gente ficou seis anos. A gente começou a ficar um tempo depois. Nessa época, a gente teve uma conexão muito forte até de mestre. Ele começou a me ensinar muito. Ele foi uma das pessoas que mais me ensinou em “Mamma Mia”, e que mais me deu a mão quando eu era uma menina perdida. Eu lembro de um dia chorar porque errei tudo em um [ensaio] “corrido” de cover. Estava muito nervosa, era muita coisa, muita marca, tinha que tocar violão, eu ainda por cima cantei desafinado. Sentei ali na plateia do Renault, e chorei. O Paulo sentou comigo e falou “você tem talento”. Ele foi a primeira pessoa que me falou isso desse jeito: “você precisa entender isso, você tem um puta talento e precisa acreditar”. Ele me incentivou pra caramba. Uma coisa que eu nem sabia que tinha dentro de mim. Durante todos esses anos, eu não sei o que teria feito sem ele, porque foram anos muito difíceis. E vão ser ainda. Ainda mais para mim, que sou muito obcecada pelo meu trabalho. Ele foi meu porto seguro nessa época.

Você casou super cedo. Era um sonho?
Não. “Casou” pra mim é tipo morar junto, porque não tenho muito essa coisa. Foi muito natural. Era mais uma coisa de convivência. “Vamos estar junto, pô, a vida é muito curta para a gente ficar mendigando amor”.

Não teve muitos namorados então, né?
Não, não. (risos) Tipo dois.

Uma cantora e um maestro. No que atrapalha e no que ajuda os dois serem do mesmo meio?
Ai. Cara, o que atrapalha, acho que nada. Só atrapalha quando a gente estava em casa e ele estava me dirigindo e eu respondia de igual para igual e não como atriz falando com o maestro, sabe? Não que eu não pudesse responder, mas é o trabalho dele me puxar e ser firme. Às vezes, eu estava muito irritada e só queria ouvir que estava linda, maravilhosa e perfeita, e ele nunca falava isso. Falava “hum, tal coisa podia estar melhor”. Ele foi muito duro neste sentido, mas fez uma puta diferença na minha vida. Sou muito grata à nossa parceria.

Você está solteira atualmente?
(risinho) Tô.

Procurando?
(gargalha) Hummm… Procurando, não. Tô bem. Trabalhando, focada no trabalho… mas sempre aberta ao amor! (risos)

A construção da carreira

Myra se levanta e sobe em uma cadeira. “Deixa eu levantar o ar-condicionado, senão vou pegar uma gripe”. É o tipo de cuidado que tem uma atriz de musical, e ela aprendeu isso rápido. Na prática. Na esteira da montagem de “Mamma Mia!” (2010), vieram os musicais “Fame” (2012) e “Shrek, o Musical” (2013), verdadeiras escolas para ela. Com 20 anos, a atriz estava em turnê pelo o Brasil, apresentando-se como Fiona, coincidentemente uma princesa verde.

TEATRO EM CENA – Esses dois musicais foram bastante criticados. O que você tirou dessas experiências?
MYRA RUIZ – Experiência, pra começar, e tudo de bom que você tira de um trabalho. No “Fame”, eu cobria três personagens, um puta desafio. Mas é engraçado, porque eu já estava muito mais tranquila do que no “Mamma Mia”. Fui crescendo. A vida foi meio que me forçando a crescer. Tipo, não tive muito tempo… Até vi uma entrevista hoje da Laura Benanti falando isso, que ela gostaria de ter tido tempo de fazer uma faculdade de teatro musical para poder fracassar em um ambiente de curso. Ela não teve e eu sinto que eu também não. Minha faculdade foi meio a vida, então aprendi vivendo, o que é muito difícil, porque quando você erra é no trabalho e tem pessoas esperando coisas de você. Ao mesmo tempo, é muito bom, porque te dá maturidade. Eu aprendi trabalhando ali, “tem que fazer”. No fim de semana seguinte à estreia de “Fame”, eu era cover da Giulia [Nadruz], que é uma puta amiga minha, e ela ficou sem voz. Tive que entrar no susto, com ela na coxia apontando “vem pra cá, vai pra lá”. Então eu fui ganhando essa experiência, além das amizades que fiz e das pessoas incríveis que conheci. No “Shrek”, eu pude assumir o papel da Fiona na turnê. Pô, mó legal, uma princesa. Então, se é controverso ou não é, para mim fica só a parte boa de um trabalho, da experiência.

Depois veio “Nas Alturas” (2014), com menos visibilidade, mas elogios. Como foi ser dirigida por André Dias?
Uma delícia! Eu não aproveitei nem 1/3 do processo como deveria, porque estava completamente obcecada por fazer um trabalho perfeito. A Myra daquele tempo só queria fazer tudo muito perfeito, mas é normal: era minha primeira protagonista. Aquilo era minha vida. “In The Heights” foi um dos meus musicais favoritos de longe, durante muito tempo, porque agora eu não tenho mais favoritos. Era meu sonho fazer essa personagem. Eu cantei “Breathe” todos os dias na aula de canto durante todos os anos até fazer “In the Heights”, que foi em 2013 e eu estudava desde 2009. Eu trabalhei com o Paulo incansavelmente. Foi a primeira vez que eu falei “eu quero, eu quero, eu quero e vou conseguir”. Foi um teste difícil, mas rolou, então quando eu passei aquilo era minha vida. O André foi muito compreensivo neste sentido. Deixou a gente muito livre, foi muito querido.

A atriz em “Shrek, o Musical” (Foto: Arquivo Pessoal)
“Nas Alturas”, a primeira protagonista (Foto: Divulgação)

Seu grande momento veio mesmo com Saraghina de “Nine” (2015), que foi destacada por todos os críticos. É uma única cena, mas memorável. Nos ensaios, você já sabia que ia roubar a cena? Porque era um elenco grande com mulheres da TV e de musicais, e você era a desconhecida, mas só se falou de você no fim das contas.
(risos) Não, não é assim! Para! (risos) Eu não tinha a menor ideia. Sou bem obcecadinha pela perfeição e, de novo, só estava ali pensando em como fazer o número da melhor forma possível e cantar a música perfeitamente. Eu queria achar a melhor forma do que o Charles e o Claudio queriam. Eu toda hora ficava perguntando ao Charles: “tá bom? Tá bom? Mas o que eu posso fazer para melhorar?” Mas também estava super feliz de estar ali do lado de mulheres que eu admirava – a Totia [Meireles], a Malu [Rodrigues] – e mesmo as meninas que não eram dali, porque a gente estava todo mundo tentando descobrir tudo junto. Mas eu não imaginava que seria o que foi. Era muito divertido de fazer. Mas eu era muito obcecada. Não aproveitava as coisas, sabe? Acabava a sessão e, todos os dias, eu nunca saía. Tudo bem que isso não mudou nada (risos). Eu dei uma mini relaxada. Eu tinha um número, mas eu vivia para aquele momento, para fazer aquilo da melhor maneira possível.

Foi difícil entrar no elenco? Charles Möeller e Claudio Botelho costumam trabalhar com as mesmas pessoas.
Eu tinha feito um outro teste para eles, que a Marcela Altberg (Alô, Marcela! Uma pessoa superfofa, que sempre acreditou muito em mim) tinha me botado para fazer. Esse teste não rolou, mas o Charles falou: “a gente ainda vai trabalhar junto”. Eles são muito acolhedores. (pausa) Mas eu também pensei “pode ser papo”, vai que… sei lá. Mas aí rolou “Nine”, o Paulo estava envolvido, e eles me chamaram para fazer parte do coro. Legal! Mas eu pensei “e Saraghina? Quem será que vai fazer?”. Fui tentando entender, tentando descobrir e o Paulo me indicou para eles. Resumindo, ele pediu para deixar mandar um vídeo meu cantando, aí eles decidiam. Aí eu gravei esse vídeo com o Paulo tocando. Cantei em inglês ainda, e eles responderam: “vai rolar”. E eu “caralho, que legal, que foda!”. Foi assim. Eu corri atrás. “E a Saraghina? Quem vai fazer? Me ouve!”.

Durante “Nine”, pintaram os testes para “Wicked” e essa história já foi contada mil vezes. Durante o processo, você estava confiante?
Durante o processo de audições? Não. Acho que fiquei confiante no meio do caminho, quando uma das gringas veio falar comigo “acredita, você tem potencial para fazer o papel”. O Charles também falou pra mim: “você vai pegar”. E eu “tá”. Eu estava no Rio com a temporada do “Nine” e ensaiava no apartamento o dia inteiro para os testes. O apartamento era no mesmo prédio do Charles e ele mandava mensagem “estou ouvindo você ensaiar” (risos). Eu fiquei trabalhando as músicas que nem uma louca com o Paulo. Eu não estava confiante, só estava querendo fazer os testes bem. Do primeiro teste que fiz, saí chorando. Fui muito mal. Não tinha nem gringo ainda.

Você foi mal ou achou que foi mal? Afinal, você foi aprovada para a etapa seguinte.
Fui mal. Foi ruim. Eu saí chorando. Ok, vai, um ruim que provavelmente não é uma coisa bizarra. Mas eu voltei, fiz o callback para a primeira gringa, que não era a diretora. Era a gringa que veio fazer uma pré-seleção com a gente, antes da diretora mesmo. Eu estava só indo lá fazer meu melhor. Eu sonhava com aquilo, mas era um sonho distante. “É a Elphaba, pô”. E um dia ela levantou da banca, me abraçou e me acompanhou com palavras de incentivo tipo “acredita em você”. E ali eu pensei “caralho, ela está me considerando de verdade”. Eu não devia precisar ouvir isso para me sentir confiante, mas óbvio que acontece. A partir dali, voltei com mais vontade ainda. Os testes foram rolando e comecei a ficar meio quietinha. Quanto mais eu percebia que tinha chances, mais quietinha eu ficava e menos falava sobre o assunto. Estava um enorme buzz e eu ficava na minha. Você tem que se fechar, se guardar, porque era uma coisa que eu queria muito. Muita gente estava tentando Elphaba ainda. Um dia, alguém me falou: “Myra, estou sabendo de um negócio, acho que você tem muita, muita chance de ser uma terceira cover”. Eu olhei assim… Eu já sabia que a gringa gostava de mim e estava na frente o suficiente para saber que tinha muito mais chances do que isso. Mas óbvio que, quando a pessoa fala isso, você fica tipo “por quê? Você acha que eu não posso…?”. Eu só olhei assim [engolindo em seco]. Esse comentário ficou marcado na minha cabeça.

A pessoa foi te assistir depois?
Foi! É uma pessoa que me ama. É uma pessoa super querida. Ela não falou querendo me botar pra baixo. Foi tipo “acredita! Você tem muita chance de ser uma terceira cover”. Ela ainda completou: “porque a Elphaba vai ser…”. Sei lá. Nem lembro quem a pessoa falou. Só sei que foi engraçado.

Defying gravity

Com “Wicked”, Myra Ruiz viu seu número de seguidores crescer nas redes sociais – assim como a quantidade de fãs no fim das apresentações no Teatro Renault. Ela levava 30 minutos para colocar e 30 minutos para tirar a maquiagem verde: processo necessário para suas três horas de glória no palco. Elphaba fica em cena, literalmente, quase o espetáculo inteiro. Era exaustivo – seis sessões de quinta a domingo, e às vezes mais uma na quarta-feira – mas ela amava. Já disse, inclusive, que aceitaria fazer de novo, em uma eventual remontagem. Os fãs que conquistou torcem para isso. Miguel Falabella, que a conheceu nesta época, e depois a dirigiu no show “Desafiando a Amizade”, é só elogios quando perguntado sobre o trabalho dela: “ela é uma ótima profissional. Uma pessoa querida, talentosíssima, uma voz rara, um timbre lindo, e uma colega deliciosa de se trabalhar. Nós praticamente fomos apresentados em cena, e ela foi encantadora, me ajudou, me deu o maior apoio. Ela é muito bacana. Ela é uma estrela”.

TEATRO EM CENA – Você passou no teste para a Elphaba com 22 anos, muito mais nova do que a Idina Menzel quando estreou o musical. É um posto de imenso destaque e exige, além da ralação, maturidade emocional. Você deslumbrou um pouco?
MYRA RUIZ – Deslumbrar de me sentir melhor do que alguém? O que seria deslumbrar?

Você se achar o máximo.
Eu me acho e me achei o máximo pelo tamanho da dedicação que aquilo exigia e por ter conseguido dar conta. Mas não me deslumbrei no sentido de me achar melhor do que ninguém. Eu sou muito pé no chão, eu acho que eu sou. Pode ser que eu tenha feito ou falado coisas que soaram de alguma forma para alguma pessoa, porque aí cada um ouve do jeito que quiser, né? Mas eu sempre fui muito bem pé no chão com relação a isso. Eu acho que a vida se encarrega de baixar nossa bola. Foi um papel. Já foi. Passou. Mas eu tenho muito orgulho sim de ter feito o que eu fiz. Eu e Fabi [Bang, a Glinda], a gente montou um negócio ali, que só a gente sabe, então não é motivo também para fazer a linha de “imagina, tô nem aí, foi só mais um papel”. Lógico que foi foda.

Foi um ano de trabalho intenso. Do que você teve que abdicar na sua vida pessoal para dar conta de “Wicked”?
De tudo. De tudo mesmo.

“Wicked” (Foto: Divulgação)

Mas o que lhe foi caro?
Ah, tem uma coisa sim. É uma coisa que até… (pensa) Com tudo isso, vem uma coisa da imagem, que a gente trabalha. Foi uma hora que eu achei que era muito mais madura mais do que eu era. De novo, me identifiquei muito com o que a Laura Benanti falou nessa entrevista. Quero te mostrar exatamente o que ela disse, porque eu li isso hoje e lembrei “sou eu no Wicked”. [pega o celular e lê a fala de Laura] “Eu me achava adulta, mas eu não era de verdade. Eu estava fingindo ser adulta, então parecia que por muito tempo eu sabia quem eu era, mas me levou muito tempo para entender quem eu sou, porque eu estava muito ocupada tentando ser quem os outros queriam que eu fosse”. Isso resume muito o que é o “Wicked”, e isso inclui saúde. Meu problema com distúrbio de imagem. Você vai tentando se adequar a um padrão que foi imposto… Eu achava que isso era papo, e eu me vi caindo nesse caminho também sem perceber. Agora estou resgatando minha estrutura, e é muito bom a gente começar a entender e amadurecer esse lugar de ir contra a esses padrões mesmo, porque eles pegam até quando a gente não imagina. A gente está sendo bombardeado por isso o dia inteiro nas redes sociais, por isso também que eu dei uma pausada. Parei de seguir tudo que não fazia eu me sentir bem – na vida e nas redes sociais. Se não te faz bem, não te dá luz, não te acrescenta, foge, porque vai sugar uma energia sua. E a gente não merece. Espero ser um exemplo para isso. Do mesmo jeito que eu seguia pessoas que me davam ansiedade de querer ser do jeito que não sou – às vezes sem querer – eu espero e batalho para, dentro de tudo isso que sou, ser também uma voz para as pessoas entenderem que amor próprio é real e a gente precisa correr atrás disso. É a base de tudo para nossa vida.

O Rio de Janeiro te ajuda nessa busca por equilíbrio?
Ajuda, porque é outro ritmo. A galera aqui é mais tranquila e esse contato com a natureza te traz de volta para a Terra. Mas a verdade foi isso: quando cheguei em um lugar que queria profissionalmente e sempre sonhei, foi também quando entraram questões internas de “tá, mas e aí? Tem mais do que isso na vida”. Sabe aquelas crises que homem tem aos 40 anos? Acho que eu tive com 25 (risos) e foi bom para eu entender e me resgatar no meio disso tudo. Voltei a encontrar quem eu sou. Faz sentido?

Faz, claro. Ouvi dizer que no início você não queria abrir mão de nenhuma das sessões de “Wicked”, por mais que houvesse a cover. É verdade?
Não, isso é boato.

Tem vários boatos sobre você.
É, lógico. Por isso também que eu me perdi muito nos últimos tempos. Eu nunca consegui ser uma pessoa que sabe o quanto estão falando da minha vida e fica de boa com isso. Eu deveria. Agora, eu consigo melhor, mas naquela época… de repente era muita gente falando sobre mim. Eu sei que o certo é dizer “foda-se, tô nem aí, sou mais eu”, mas eu não tinha essa maturidade. Foi muito duro. O Paulo esteve muito do meu lado, o Diego [Montez], a Fabi e minha mãe obviamente. Foram pessoas que me ajudaram muito. Querendo ou não, foi punk pra mim neste sentido. Mas nunca houve isso. Foi pedido para mim pela gringa. Óbvio que a substituta está lá e é maravilhosa, mega importante, mas eles me pediram porque querem o elenco original sempre. Eles botam essa pressão. (se corrige) Não é pressão. É o trabalho deles, também. Mas eu também tinha essa pressão interna de querer fazer, porque gostava de fazer. Nunca foi uma questão de não abrir mão para não deixar alguém fazer, inclusive abri.

Você ficou decepcionada por perder o Prêmio Bibi Ferreira?
(risos) Não! Zero! Imagina! Zero, zero, zero. Fiquei muito feliz que a Fabi ganhou. Acho super merecido. Não sou nada apegada a essas coisas. Fiquei muito feliz que “Wicked” ganhou tudo que ganhou. Isso foi zero uma questão.

Você e a Fabi Bang viraram amigas de verdade, fizeram outros projetos e você foi convidada para ser madrinha da filha dela. Teve um momento que marcou a virada de colegas de trabalho para amigas pessoais?
Foi realmente uma coisa muito gradual. Em “Wicked”, a gente fala que criou uma relação que é além de amizade. Era muito louco. Não sei o que era. Não sei explicar o que a gente criou ali. Foi dar a mão mesmo. Dois soldados da guerra, não como uma coisa negativa, mas na coisa de se ajudar mesmo. Foi indo, foi indo, foi indo e a gente viajou para Nova York. A gente passou a madrugada inteira no avião conversando. A viagem tinha nove horas e a gente passou cinco horas acordadas, conversando o tempo inteiro. Eu lembro disso como um dia em que a gente se conectou bem. Mas depois foi muita convivência e tem coisa que só o tempo vai te dando. Passando por momentos difíceis, se ajudando… foi gradual, foi o tempo.

Vocês foram para Nova York depois de tudo. Chegaram a ver “Wicked”?
Sim. A gente viu. Fomos juntas e a gente até fez um vlog sobre isso. Foi muito legal, muito especial. Ainda era meio pós-“Wicked”, então a gente assistiu com um olhar de alívio – “nossa, que difícil que foi”. O maior sentimento foi de gratidão.

Fabi Bang e Myra Ruiz: parceria profissional e amizade fora dos palcos (Foto: Divulgação)

Há algum tempo, você postou um texto importante sobre sororidade feminina. Você sente que isso existe na prática no meio artístico ou ainda é uma postura de poucas?
Eu acho que existe uma tentativa, no mínimo geral, de isso acontecer. É… Ultimamente, eu tenho só lidado com coisas muito boas neste sentido. Posso falar pelo trabalho que estou fazendo agora: as meninas do elenco são superunidas umas com as outras, torcem umas pelas outras, falam coisas lindas umas para as outras. Ultimamente, acho que as mulheres entre si não querem brigar, quem quer ver é a galera, mas também nem sei se tem muito isso mais. Cada vez mais a gente fala sobre sororidade e sinto que está mudando, que as mulheres estão entendendo que a gente tem que se unir, que a gente é mais forte junto.

O meio artístico envolve muito ego e competição. Em “Meu Destino É Ser Star”, até tem uma personagem que personifica esse clima. Como você lida com isso?
Eu sou competitiva comigo mesma. Não penso “vou lá para acabar com…”. Não é nesse lugar que eu vibro, sabe? Não penso “preciso ser melhor do que tal pessoa”. Não. As minhas loucuras são todas eu comigo mesma. Quando você vai para um teste com uma energia de ser melhor do que outra pessoa – não que você não queira ser – não funciona muito, não compensa para ninguém. Acho que tem que ser uma energia de “quero ser o melhor que eu posso ser”, e aí o diretor vê o que ele quer.

Pós-“Wicked”

Ela ainda está se maquiando para subir no palco de “Meu Destino É Ser Star”. Na frente do espelho, há uma foto dela com Diego Montez – colega de cena e amigo pessoal. Ele, para além da disciplina a qual todos se referem, pode falar um pouco mais sobre ela. “Myra é a pessoa mais generosa, humana e sábia que conheço. Desde quando éramos pré-adolescentes, ela já era muito mais madura. Uma mulher que sabe lidar com suas questões e nunca fugir delas. Meu espelho e grande inspiração no mercado. O que ela quer, ela consegue: se organiza, se doa por completo e de forma apaixonada”, conta ao Teatro em Cena. Eles atuaram juntos em “Wicked”, “Rent” (2017) e agora “Meu Destino É Ser Star”.

Como se pode ver, Myra emendou trabalhos desde que se despediu de Elphaba. Na última semana da temporada, estreou em outro teatro como Maureen, outra personagem famosa do teatro musical. Na sequência, fez “O Musical da Bossa Nova” (2017) e “Chaplin, o Musical” (2018), além de dois shows com Fabi Bang e uma série de TV. Não tem faltado trabalho.

TEATRO EM CENA – Muita gente se perguntou “o que Myra poderá fazer depois da Elphaba?”. Esse tipo de pensamento passou por sua cabeça – como se você tivesse vivido seu auge precocemente?
MYRA RUIZ –Hããã… não. Chegaram a perguntar “você fez a Elphaba tão jovem e agora? Não tem o que fazer de mais legal e tal”. Tipo “acabou para você, você fez o maior papel que existe, e agora?”. Mas não tem nada a ver. Tem muitas coisas que me instigam e me fazem querer trabalhar. Não tive muito esse problema. Também não deu muito para pensar, porque veio a Maureen logo depois da Elphaba. Eu estreei [“Rent”] na semana em que acabei o “Wicked”. Nunca parei para pensar “e agora?”. Foi indo de forma natural – os papéis, os trabalhos, os shows – então nunca parei para pensar sobre isso.

Nesse período, ouvi dizer que você ficou muito frustrada por não passar na audição para “Les Miserábles”.
Ué, claro, né? (risinho) Fiquei chateada. Mas frustrada em que sentido?

Falaram “vibe depressão”.
Quê? As pessoas são muito loucas! Eu fiquei muito mal, queria muito fazer. Eu amo “Les Mis”, acho foda. Mas vibe depressão, não.

Ao invés de “Les Mis”, você foi fazer “Rent” com uma produção alternativa, o extremo oposto da superprodução de “Wicked”. Você saiu de um ótimo cachê para um trabalho pouco rentável, com divisão de bilheteria. O que te motivou a emendar os espetáculos ao invés de descansar?
Eu não queria descansar, não. Queria trabalhar.

Mas você fala no seu canal no Youtube que terminou “Wicked” exausta e que precisava descansar.
Verdade. Maluca… maluca! A Carol Botelho falou outro dia: “Myra, você foi muito louca”. Mas é que era uma personagem muito legal. Eu queria muito fazer, queria muito contar essa história, acredito muito no “Rent”. Tive um tempinho para descansar. Depois da estreia, tive uma semaninha para descansar e tirar férias. Sim, eu estava exausta, mas a vontade de contar essa história falou muito mais alto.

Você não queria dizer não para Maureen.
Não. Acho importante falar sobre isso. Queria muito contar essa história.

Qual sua relação com o dinheiro?
Amo! (risos) Sou capricorniana. Ué, gosto. Estou tentando aprender a planejar melhor o que fazer com meu dinheiro, mas também não tenho muito sobrando, não, para ter o que falar sobre isso. Gosto, quero, e não acho um problema isso.

Myra como Maureen em “Rent” (Foto: Caio Gallucci)

Você foi anunciada para o “Tick Tick Boom” e não fez. O que houve?
O que houve? (se pergunta) Cara, nem lembro mais. (pensa) Foi a turnê do Chaplin? Ah, não! Foi aqui! Eu já tinha passado aqui. Ia bater eu estar no Rio e ter que voltar para São Paulo. Seria supercomplicado. Infelizmente, a gente ficou muito mal. Cheguei a ensaiar um tempão e os meninos [Bruno Narchi e Thiago Machado] falaram “vamos ter que dar um jeito, acho que vai ser complicado…”. De fato, seria bem complicado de conciliar. Eu estava fazendo teste aqui há um tempo, e a gente acabou decidindo de eu não fazer. Mas somos todos melhores amigos, então foi super tranquilo. Botaram a Giu[lia Nadruz], que é maravilhosa. Foi tudo entre amigos.

Você já está com alguns anos de trabalho…
Ai que pessoa idosa!

Com quais pessoas você mais gostou ou gosta de trabalhar?
Difícil isso, porque todo mundo tem muita coisa para ensinar. Eu gosto de trabalhar com meus amigos, então o “Rent” é uma lembrança muito boa que vem à minha mente. Eu tenho lembranças muito maravilhosas dos trabalhos que estou com meus amigos. O Diego [Montez] também. Ele é meu irmão e, toda vez que ele está em um trabalho comigo, eu me sinto muito amparada.

E com quem ainda não trabalhou mas gostaria?
Muita gente! Eu tenho vontade de fazer novela, então gostaria de trabalhar com uns diretores legais, apesar de não ser muito desse meio e não conhecer todo mundo. Em musical… (pensa) Ah! Uma pessoa que eu admiro muito e que eu nunca trabalhei é a Tânia Nardini. Ouço muito falar sobre a conduta de trabalho dela e admiro só de saber tudo que ela passa, sabe? Eu adoraria trabalhar com ela.

Meu Destino É Ser Star

O camarim tem três cadeiras diante da bancada com o espelho. Myra está sentada na sua, e o repórter se senta na cadeira de Marina Palha, ao lado. Lá para o meio da entrevista, Marina chega. Myra puxa a cadeira de Helga Nemeczyk para o jornalista. 15 minutos depois, Helga também chega. O repórter diz que pode ficar em pé, mas Myra já está lá fora buscando outra cadeira para ele. A dança das cadeiras revela sua proatividade.

TEATRO EM CENA – Em “Meu Destino É Ser Star”, vocês mostram os bastidores da criação de um espetáculo. Você tem semelhanças com sua personagem, a Myra?
(pensa) Tenho, com certeza. Uma coisa legal que a gente fala aqui é desmistificar essa imagem da diva absoluta. Não que eu seja essa imagem, mas mostra para qualquer pessoa, que possa fazer alguma imagem de uma atriz ser a diva absoluta, que isso não existe. Mostra os fracassos, como eles são totalmente presentes, e tira um pouquinho o glamour. É só uma vida de trabalho. Está todo mundo na luta, sabe? Não tem um lugar em que você fica “cheguei lá, sou absoluto, passo em tudo”, então gosto e me identifico com esse lugar de desmistificar essa imagem.

A personagem perdoa uma traição do marido. Qual sua opinião sobre a monogamia e a fidelidade?
Eu acho que é muito individual de cada casal, de cada relacionamento. Eu tive poucos relacionamentos para ter uma opinião tão formada sobre tudo isso, mas acho que isso está mudando muito. Eu era uma pessoa que falava “traição de jeito nenhum, jamais perdoaria em toda minha vida”, e hoje em dia estou entendendo que não é assim. As coisas funcionam de outras formas. As pessoas passam pela vida uma das outras, e uma traição não necessariamente quer dizer o que ela quer dizer. Acho que estou aprendendo ainda.

Você perdoaria então?
Depende do caso. Acho que sim.

Myra Ruiz e Gabriel Falcão: par romântico em “Meu Destino É Ser Star” (Foto: Caio Gallucci)

Você se tornou um nome conhecido e respeitado no teatro musical brasileiro, mas isso ainda tem um alcance de nicho no Brasil. No ano passado, você estreou em uma série de TV. Gostou da experiência?
Total. Tenho muito interesse por fazer mais televisão. A experiência que tive na série superou muito as minhas expectativas. Eu me descobri em um lugar que não achei que fosse gostar tanto assim. Eu sabia que ia gostar, mas me tocou muito em um lugar muito profundo de como que é a parte da atuação para a câmera. Tenho muito interesse em fazer audiovisual.

Com “Wicked”, não surgiram convites?
Surgiram alguns testes, mas eu também não parei muito depois de tudo isso. Mas o segundo teste que eu fiz foi esse da série, que rolou. Foi bem legal.

Quais suas ambições atuais como artista?
O que estou louca para fazer – para continuar fazendo, na verdade, porque acho que tenho feito isso, inclusive aqui em “Meu Destino É Ser Star” – é justamente isso que você falou, ser artista. Ter uma voz ativa não apenas para contar uma história. Ou que, em toda história que eu optar em contar, eu possa estar também trazendo alguma imagem que possa tornar o mundo melhor, seja falando sobre amor, política, sei lá. Eu gosto da gente estar levantando uma bandeira. Acho que tem que levantar. Eu levanto, sempre levantei, e acho que não é o momento da gente ficar quieta com relação ao que a gente acredita e quer lutar.

O teatro musical consome muito da vida de vocês, em termos de tempo, por conta dos cursos, dos ensaios e das apresentações. Mas quais são seus outros interesses na vida?
(risos) Err… nada. Mentira. Além do meu trabalho, a minha família, o meu irmão, o Tom. Quando ele entrou na nossa vida, mudou. Eu sou obcecada pelo meu trabalho, mas hoje em dia, querendo ou não, tudo que eu faço é pensando nele. Tudo pensando em poder juntar grana para dar uma vida melhor para ele. Tenho interesse por minha família, por viajar, sou muito apaixonada por cinema, então gosto de assistir a filmes. E agora estou muito obcecada por uma outra coisa, que acho que pela primeira vez eu pensei “trabalharia com isso”, que é saúde de uma forma geral. Desde que comecei a tentar me reencontrar, eu descobri a yoga e me apaixonei muito por isso e por esse estilo de vida holístico, voltar aos back to basics, voltar à nossa essência. Eu acho que a yoga te ajuda a fazer isso com saúde, e me interessei pra caramba por esse assunto nos últimos tempos. Estou também meio obcecadinha por isso! (risos)

Você faz planos a longo prazo? Como se imagina aos 30 anos, que ainda é uma idade marcante?
É, mas está chegando! (pausa) Sabe que não? Hoje em dia, eu não faço planos. Tento viver o presente da melhor forma possível, porque sou muito ansiosa. Se começo a pensar muito, só me vêm questões, então não planejo. Não tenho isso de “quando tiver 30, quero estar em tal lugar”, porque isso só vai te gerar decepção. Você provavelmente não vai estar exatamente onde pensou. A vida vai te levar para lugares que você nem pode imaginar. Hoje em dia, só quero ser uma atriz que trabalha e se sustenta, que no meio do caminho se relaciona com pessoas legais, e tentar alimentar o máximo o presente, sem pensar muito no futuro. Talvez meu pai não concorde, porque financeiramente esse não é o melhor pensamento.

(Foto: Reprodução / Divulgação)

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