A Ilha dos Compositores Esquecidos – Teatro em Cena
Luiz Buarque

A Ilha dos Compositores Esquecidos

A vida de quem pesquisa Teatro Musical é povoada pelos artistas que admiramos e adotamos como modelos, mas também por um bom número de “desconhecidos íntimos”: você sabe da existência deles, leu a “vida e obra” básica na Wikipédia e até decorou a letra de uma ou duas canções, mas ainda não é capaz de formar uma opinião concreta. A única maneira de reduzir a distância é dar um “oi” e aprofundar relações.

O que aconteceu comigo recentemente, quando a remontagem de Once On This Island em cartaz na Broadway me estimulou a conhecer melhor os autores do musical, a dupla Lynn Ahrens (texto e letras) e Stephen Flaherty (música). Pouco tempo depois, fui surpreendido com a feliz notícia de que a mítica história de amor em uma ilha das Antilhas chega ao Brasil no ano que vem como “Era Uma Vez Nessa Ilha”.

Aproveitemos a agradável coincidência para analisar alguns pontos da peculiar trajetória desses artistas e como eles se relacionam com a atual fase do musical brasileiro.

 Sobre Duplas

Em 1982, Lynn Ahrens vinha de uma bem sucedida carreira como publicitária e compositora de programas infantis quando conheceu o jovem Stephen Flaherty, recém-saído de um conservatório, no lendário BMI Musical Theatre Workshop: curso que desde 1961 é responsável por preparar autores, compositores e letristas como Edward Kleban (A Chorus Line), Robert Lopez (The Book of Mormon) e Jeanine Tesori (Fun Home). Nascia ali uma das mais prolíficas e duradouras parcerias do teatro americano.

Mas não necessariamente a mais famosa.

Lynn Ahrens e Stephen Flaherty (Foto: Playbill / Joseph Marzullo)

Pois se desde que ingressei nesse universo estava clara a importância do trabalho de times como Rodgers e Hammerstein ou Kander e Ebb, “Ahrens e Flaherty” permaneceram até pouco tempo um impronunciável mix de consoantes associado a títulos que conhecia por alto. Eu só não imaginava que esse distanciamento poderia ser mais do que uma simples ignorância da minha parte.

Em uma das entrevistas que assisti como pesquisa, uma jornalista comenta que apesar da extensa lista de trabalhos, os compositores permanecem de certa forma obscuros: produções em teatros renomados de todo o globo, uma animação de grande sucesso (Anastasia) e estantes lotadas de prêmios não mudam o fato de que seguem despistando o radar do grande público e intrigando até os fãs de musicais.

A letrista atribui esse peculiar status ao estilo low profile dos dois (evitando as mitológicas histórias de ascensão e queda que a Broadway tanto ama), à tentativa de adequar o tom da escrita à linguagem específica de cada projeto e ao fato de que ela e o parceiro são representantes de uma “geração perdida”.

O Novo Milênio

Na última coluna falamos da “Invasão Britânica” dos anos 1970, quando superproduções inglesas conquistaram a Broadway e o mundo com visuais espetaculares, melodias grandiosas e histórias genéricas o bastante para se encaixarem em qualquer idioma e cultura (Cats e seu pneu voador um exemplo clássico). Seu reinado seria duradouro, mas não eterno, com os anos 1990 trazendo uma geração de compositores determinada a quebrar padrões e restabelecer o musical como veículo de crítica social e inovação artística.

Mas com orçamentos cada vez mais elevados, que produtor iria apostar alguns milhões de dólares em novatos decididos a virar de ponta a cabeça tudo que o público pagante tomava como certeza? O estrondoso sucesso de Rent (1996), marco da década, está mais para exceção do que regra (a morte prematura do autor, Jonathan Larson, corroborando para essa singularidade). O cenário indicava então uma separação crescente e radical entre “artístico” e “comercial”, cabendo a companhias sem fins lucrativos e teatros regionais a missão de gerar alternativas para que esses artistas pudessem aprimorar suas habilidades.

Nossos heróis integram essa corrente, desenvolvendo boa parte de seus trabalhos fora do circuito comercial, mas também encararam orçamentos gigantescos e arrebataram Tony Awards em projetos ambiciosos como Ragtime (análise épica das várias camadas da sociedade americana no início do século XX). E se seus musicais também abordam temas contundentes (o preconceito racial em Island e de orientação sexual em A Man of No Importance), seu estilo é direto e romântico, lembrando mais a “Era de Ouro” de Rodgers e Hammerstein do que a pegada irônica e rock and roll de seus contemporâneos.

Realmente, o duo acabou espremido entre correntes distintas, quase conflitantes, mas talvez seja justamente esse “desajuste” que possibilitou à dupla trazer de volta um pouco da alquimia que o formato (em seus melhores momentos) é capaz de produzir entre “arte/mercado” e “inovação/tradição”.

Ahrens e Flaherty mostram também que escrever musicais é um ofício capaz de ser aprendido e aprimorado: após o início em um dos maiores centros de formação do mundo, retornaram à sala de aula para passar adiante a experiência adquirida nos anos de estrada. Também são cofundadores de um programa em que jovens autores são acompanhados de perto por mentores e profissionais da área por nove meses como forma de aprimorar seus trabalhos e facilitar sua inserção na comunidade.

A dupla com Chisa Hutchinson, umas das jovens autoras participantes do programa que os compositores criaram com o “Dramatists Guild” (Foto: Broadway World)

E o fracasso de empreitadas como Seussical ou o interessante My Favorite Year não os impediu de seguir aprimorando o material. Essencial tanto do ponto de vista artístico quanto prático, já que boa parte da renda de um compositor americano vem da venda dos direitos autorais das peças para montagens amadoras e profissionais, nacionais ou internacionais. A Broadway é ainda um grande foco, mas não mais a única opção.

Essa insistência em manter o lápis afiado colaborou não só na manutenção das mais de três décadas de parceria, mas também criou a onda que hoje surfam os “ilustres desconhecidos”, com dois musicais na Broadway simultaneamente (além do revival de Once On This Island, a adaptação irregular de Anastasia). Tendo inclusive o retorno bem sucedido de Island resultado da junção de esforços dos autores com a equipe criativa da montagem (direção, elenco, designers) na missão de preparar o material para uma nova geração de espectadores.

No Brasil

E assim como a Broadway da década de noventa presenciou uma onda de novos autores disposta a sacudir as coisas, o Brasil de agora assiste ao surgimento de vozes focadas em descobrir como escrever esse tal de “musical brasileiro”. Mas se hoje já listamos com facilidade destaques na atuação, direção e produção do formato no país, a comunidade de autores (compositores, letristas, dramaturgos) está ainda envolta em uma aura de mistério.

É preciso na verdade concretizar essa comunidade. Torná-la a base coletiva para que cada artista possa fazer suas experiências individuais, estudar seu ofício, falar sobre ele, comemorar sucessos e afogar as mágoas: nada pode ser tão reconfortante nesse processo quanto descobrir que tem gente com problemas parecidos com os seus.

Falo por experiência própria: até começar a formar minhas parcerias, a ideia de outros autores era tão abstrata quanto o nome “Ahrens e Flaherty”. Mas assim como hoje tenho a felicidade de trabalhar com colaboradores incríveis, sei que existem muitos outros times pelo Brasil começando (ou prestes a começar) a transformar nosso tão alardeado potencial (ritmos musicais variados, riquezas culturais) em trabalhos teatrais concretos.

E assim como nossos colegas americanos ainda enfrentam obstáculos práticos, somos lembrados diariamente de como produzir teatro no Brasil não é tarefa fácil. Tendo ainda o musical necessidades específicas bastante caras. Mas segue na ordem do dia a luta por uma maneira sustentável de incentivar esse processo criativo. Somar ao patamar alcançado pelas áreas já citadas a concepção de que uma voz autoral forte é essencial para fixar o musical como forma de arte relevante no país.

O musical brasileiro vive um momento animador de sua história. E a “visita” de uma dupla que tanto colabora para borrar distinções entre arte e mercado e prioriza a luta pela manutenção e celebração de seu ofício só pode ser ótima companhia para nossos nascentes musicais originais.

_____
Luiz Buarque é dramaturgo e diretor, escreve musicais e fica feliz com qualquer coisa envolvendo Hammerstein e/ou Sondheim. Também pode ser encontrado em https://leituradramatizada.wordpress.com

Comentários

comments