CríticaOpinião

A Moça da Cidade homenageia radionovelas dos anos 40

O espetáculo “A Moça da Cidade” é bonito de se ver – assim, como a simplicidade destas palavras. Para emperiquitar, o texto enviado à imprensa afirma se tratar de uma “fábula moderna”, o que é um equívoco, porque, felizmente, não há animais falantes. Também não é uma comédia, nem um drama, apesar do desfecho (não, não chega a ser um spoiler). A peça, escrita pelo mato-grossense Anderson Bosh (de “Aurélio e a Chuva”), tem muitos elementos lúdicos e bastante humor. Se não fosse clichê usar o termo, poderia ser definida como poética. É, ela é poética.

(Foto: Divulgação)

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A trama acompanha a vinda da jovem nordestina Ambrosina (Lu Camy, de “AntiCorpos”) para o Rio de Janeiro, a fim de estudar e arrumar um noivo. Logo, fica claro que ela está mais focada em desencalhar do que em aprender algo na escola (suas notas costumam ser 0). Hospedada na pensão de Dona Rosa (Dida Camero, de “Um Dia Qualquer”), ela desperta o amor do vizinho de quarto Leitinho (Gabriel Delfino Marques, de “Paredes Externas”), mas o despreza. Ambrosina está mais interessada no amor platônico que cultiva por um homem que viu passar na rua e acredita ser médico. Espevitada, passa a persegui-lo. É uma personagem ótima.

A história é dividida em três atos, contada como se fossem três capítulos de uma radionovela do anos 1940 – o que é o grande destaque desse trabalho. No primeiro ato, especificamente, fica muita marcada a narração radiofônica, mostrando os bastidores do que, por motivos óbvios, não se vê no rádio, onde só se escuta. Isso já proporciona uma carga enorme de humor, em parte graças à ótima sonoplastia executada ao vivo e em cena, surpreendendo positivamente a plateia. Merece elogio a direção musical de Marcelo Alonso Neves.

(Foto: Divulgação)

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“A Moça da Cidade” também marca a feliz estreia do ator Rodrigo Pandolfo (de “O Despertar da Primavera”) na direção. O texto ajuda, mas a maneira como ele soube explorá-lo é nada menos que deliciosa, passando sem rupturas do estúdio da estação de rádio para a história contada. O elenco coopera – todos impecáveis – assim como os figurinos de Bruno Perlatto, por si só muito lúdicos; e a iluminação de Tomás Ribas, complementar a tudo.

O cenário de Miguel Pinto Guimarães é eficaz. Poderia haver um painel ou cortina de cor escura cobrindo os tijolos do Teatro Ipanema, mas sua ausência não prejudica. O cenário, e o espetáculo em si, cresce com os dois telões com imagens projetadas simultaneamente, muito funcionais com a interação com os atores. É particularmente interessante o uso da tecnologia para contar uma história pretérita: fica bom. No fim, a peça se revela uma homenagem contemporânea às antigas radionovelas.

A temporada vai até 24 de agosto, com apresentações de sexta a domingo às 20h no Teatro Ipanema. Os ingressos custam R$ 30 e a classificação é livre.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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