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A Santa Joana dos Matadouros é simplesmente imperdível

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Sobre “A Santa Joana dos Matadouros”: é muito boa, e você deveria correr para ver enquanto é tempo. Escrita originalmente por Bertolt Brecht (1898-1956), a peça ganha tradução de Roberto Schwarz e nova versão de Diogo Liberano (de “Concreto Armado”), que assina a direção com Marina Vianna (de “Apropriação”, como assistente de Marcos Lesqueves), idealizadora da montagem, após trabalhar com a obra do dramaturgo alemão em sua tese de doutorado “Ensaios Sobre a Dimensão Estética da Política: A Morte de Danton, A Santa Joana dos Maradouros e A Missão”, na UNIRIO. O espetáculo trata de uma crise econômica que assolou o mercado de carne enlatada, deixando centenas de trabalhadores desempregados e sem dinheiro nem para comer. Miséria humana, corrupção, capitalismo e moral flexível são alguns dos temas tratados, a partir da jornada da protagonista Joana, uma missionária religiosa que distribui sopa para os pobres e decide enfrentar o grande empresário que prejudicou a vida de tanta gente. A história acompanha a perda de ingenuidade dela, descobrindo o funcionamento da máquina capitalista, as diferentes perspectivas e as fragilidades de quem domina e quem é dominado. Os Soldados de Cristo, grupo do qual faz parte, é o primeiro a se corromper, por causa do aluguel atrasado. Desligada deles, então, parte nessa luta solitária, enfrentando o inverno rigoroso de Chicago.

(Foto: Ricardo Brajterman)

(Foto: Ricardo Brajterman)

Trata-se certamente de “teatro político”, e dialoga diretamente com o panorama nacional, com a abertura de um processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, apoiado por parte da sociedade muito em parte pela insatisfação com a má administração da economia. O texto de Brecht, escrito durante a Crise de 29, quando a Bolsa de Nova York quebrou, mostra exatamente como tudo muda em um quadro de decadência. Em uma das cenas, a esposa de um proletário vai ao matadouro, foco da história, exigir explicações sobre seu marido, que não volta para casa há dois dias. Ela não sabe, mas desconfia, que ele morreu triturado durante o manuseio de uma das máquinas. Para calá-la, um executivo lhe oferece 20 dias de almoço grátis e, esfomeada, ela aceita. Manipula-se e corrompe-se por meio da necessidade alheia. É o primeiro baque nas convicções de Santa Joana, brilhantemente interpretada por Luisa Arraes (de “Vianninha Conta o Último Combate do Homem Comum”). Que atriz! É um caso de texto e personagens perfeitos para a atriz ideal. Assisti-la é como sentir que está fazendo parte do nascimento de uma grande estrela nacional.

O elenco da montagem é ótimo: João Velho (de “Edypop”), Sávio Moll (de “A Visita da Velha Senhora”), Adassa Martins (“Para os Que Estão em Casa”), Leandro Santanna (de “Favela”), Gunnar Borges (“Concreto Armado”), Leonardo Netto (de “Conselho de Classe”) e Vilma Melo (de “Quando a Gente Ama”), esses últimos especialmente elogiáveis. A cena em que a personagem de Vilma descobre que se tornou viúva é desesperadora, e linda de se ver – com créditos também para a iluminação de Paulo César Medeiros e a direção musical de Rodrigo Marçal e Arthur Braganti. A estética do espetáculo, aliás, é um dos seus vários trunfos: a direção de arte de Bia Junqueira e a direção de movimento de Laura Samy deixam de boca aberta logo na primeira cena. Os atores entram tirando camisas de malha do corpo, uma a uma, e formam um tapete delas em todo o cenário (é interessante como o palco do Glaucio Gill parece maior nesse espetáculo). A maneira performática como tiram uma camisa e há outra embaixo, ad infinitum, faz o espectador sentir que está em um sonho, porque é uma experiência muito onírica mesmo. A montagem consegue dar vida à peça com requinte, mas sem glamorizar a miséria, mas com soluções cênicas bem estruturadas.

Luisa Arraes é a protagonista (Foto: Ricardo Brajterman)

Luisa Arraes é a protagonista (Foto: Ricardo Brajterman)

Além disso, a maneira como exploradores e explorados querem, todos, defender a própria carne é um processo de entendimento difícil para digestão da Joana, e também do público. Inspirado na mártir francesa Joana D’Arc (1412-1431), O texto de Brecht quebra com a dialética simplista de coitados bonzinhos x poderosos malvados. Quem é vítima não é uma pessoa melhor por sua condição de inferioridade, e pode se aproveitar ou prejudicar os demais para subir um mísero degrau. Não há espaço para inocência no capitalismo, basicamente, o que faz do texto de Brecht atualíssimo, mais de 80 anos após sua escrita. “A Santa Joana dos Matadouros” é uma aula de economia política, no melhor sentido, sem didatismo. O fato de ser apresentada para uma plateia de 102 pessoas torna a experiência ainda mais especial.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a seg, 20h. R$ 40. 120 min. Classificação: 16 anos. Até 21 de dezembro. Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde, s/n – Copacabana. Tel: 2332-7904.

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