Papo de Artista

Abram os Portões – Por Thiago Catarino

(Foto: Divulgação)

Nos últimos tempos, tenho visto surgir em pesquisas de comportamento o assunto “rede social” associado às influências possíveis sobre nossas escolhas. Tentam dar conta de como pelas vias de programação, o Facebook recebe informações dos nossos gostos para nos oferecer produtos. E também de como cada vez menos nossa vida é pensada dissociada de utilitários eletrônicos, e cada vez menos nossa vida é consegue ser pensada offline. É preciso estar atento e forte. Essa viagem sobre a “incorporação” do eletrônico é vasta, e nenhum aparelho foi tão longe nessa ousadia corporal quanto o aparelho celular. Intrínseco. Absoluto. É como olhar para os lados e defrontar, na maioria dos lugares-chave da cidade, com corpos reconstruindo-se em marchas retilíneas, adaptando-se a uma nova categoria de simbiose 4G com o meio ambiente. Definitivamente, celular não é mais um item de bolsa, é claro que não é, já está mais do que compreendido. Celular é um item de mãos, de orelhas, no máximo, de bolsos. Para uma história, um post, um like, um textão, um meme, um tweet, um snap, um áudio, dois áudios, dez áudios, dez minutos de áudio, dez áudios de dez minutos… Pensando em referências positivas e ancestralidade, na esteira destas perguntas dos dias de hoje, tudo o que escrevo a seguir baixa de encontros que vivi.

Como ator e como estudante de teatro, estar em uma rede social global e intrometida como é o Facebook já me desencadeou uma série de “mal-entendidos”. Situações surreais como, em certa vez, quando recebi uma mensagem insuspeitavelmente cortês e profissional naquele polêmico “Outras mensagens” do nosso amado Face. A mensagem soava como o primeiro contato de uma oferta de trabalho, para um trabalho artístico. O perfil era de um homem de meia idade. Aceitar ou recusar? Aceitar, é claro, vamos ver o que é isso… Abrir… Caro Thiago… Tive o prazer de ver seu trabalho… Tenho contatos no teatro… Veja bem, também já tive sua idade… Sugiro um apoio financeiro, uma “moral”… Não se ofenda, veja como uma oportunidade… Entre muitas palavras, descobri um camarada me convidando para ser boy, fazer um serviço ali, íntimo, regular. Falava de salários, orçamentos, encontros, de faltas e atrasos, era como um novo emprego, só que trabalhando de cueca. Eu, obviamente, troquei a maior ideia com o homem- eu não fujo de doido – e disse a ele como seria nosso romance, reclamei por valores mais justos, debati cláusulas contratuais e quando só me faltou, efetivamente, marcar um encontro, eu voltei daquela minha viagem pós-galática de pisciano e sumi. Brincadeira tem limite.

No Facebook, nossas redes são múltiplas, você acaba perdendo o controle para discernir se um suposto amigo chamado Man Tega, é seu primo de doze anos viciado em anime ou aquela amiga antiga de escola que fez transição de gênero. E a pessoa te diz “Oi e ai” numa tarde de terça-feira, do nada. Respondo? Respondo, claro! Peço perdão e digo que realmente estou esquecido… Você esquece quem são as pessoas do Facebook, esquece mesmo. Esquece de eventos, por vezes… Esquece até mesmo de eventos pitorescos, que marcaram a passagem de algumas pessoas na sua vida. Memória seletiva? Sei… O mundo em que vivemos está completamente vinculado a nomes. E é preciso lembrar-se de todes.
E aí está a magia do Instagram. Meu crush do momento. Onde um nome e uma imagem podem fazer toda a diferença. No Instagram, sendo eu um artista para refletir os meus tempos, eu me questiono sobre quem são as minhas referências.

A alcunha de seguidor me faz pensar sobre quais são, hoje, as criaturas que me inspiram a ser melhor em diversos aspectos da vida. Selecionar as figuras que eu desejo acompanhar de perto, saber o que acontece em suas vidas cotidianas em tempo real. Veja quanta intimidade! Não é mesmo para qualquer um. E mais, quando o efeito de buscar referências em uma plataforma estende-se à sua vida social, transforma os lugares que você frequenta, transforma os produtos que você consome, expande a sua realidade de mundo, e tanta outras coisas, torna-se evidente que a nossa liberdade de escolha está condicionada, também às nossas escolhas na rede. Eu sigo religiosamente minhas referências. Minha estrela é do oriente. Ainda muito moleque eu experienciava a primeira grande epifania de artista: a grandiosidade das canções num piano não surgia por um milagre nos dedos. Tinha um estudo. Vendo minha professora de coral reger em uma aula, eu entendi que para ser um músico era necessário conhecer novos códigos. E certamente seria assim também na vida de um ator. Para conhecer os mistérios de seu trabalho seria preciso procurar experiências valiosas antes das conquistas triviais.

Quando, no Emu, nosso grupo teatral, tivemos a oportunidade de conversar com a grande e saudosa Mãe Beata de Iemonjá, lembro-me de tê-la perguntado qual era a mensagem que ela poderia nos passar no sentido de apontar caminhos espirituais para os jovens. Esperava um conselho. Ela deu questionamento. Mãe Beata disse que era de nós que gostaria de ouvir respostas, , afinal, tolo era quem ainda acreditava que os mais novos não teriam algo de bom a dizer. O que nós temos a dizer? Amparado pela sabedoria eterna de Mãe Beata, fico com Rincón Sapiência a bradar “Os preto é chave, abram os portões!”, ainda afirmando piamente que fazer aquilo que se acredita é o que move todo o resto. Dei meu papo.

Thiago Catarino é ator.

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