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Andança – Beth Carvalho, o Musical contagia pela energia do elenco

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Comemorando 50 anos de carreira, a sambista Beth Carvalho virou tema de uma peça de teatro: “Andança – Beth Carvalho, o Musical”. A homenagem em vida, aprovada pela cantora, reúne 59 músicas do seu repertório e se propõe a contar sua história desde a infância até os dias atuais. O produtor Rildo Hora, que foi importante em sua carreira e é um dos personagens secundários da trama, é o diretor musical do espetáculo, que pode ser definido como um musical samba biográfico. Separado em dois atos, o tributo pode ainda ser dividido em três fases, seguindo as três atrizes que interpretam Beth: Jamilly Mariano (de “Rei Leão”), na infância; Stephanie Serrat (de “Chacrinha – O Musical”), na juventude; e Eduarda Fadini (de “Agnaldo Rayol – A Alma do Brasil”), na maturidade. Cabe ainda uma licença poética que permite que a atriz mirim negra cresça e se torne uma mulher branca e ruiva. Em algumas entrevistas, o diretor Ernesto Piccolo (de “Doidas e Santas”) explicou que não selecionou o trio protagonista por causa de um perfil específico, e sim pelo talento – o que as três, de fato, apresentam em cena, de modo que as discrepâncias físicas são perdoadas com facilidade.

(Foto: Fernanda Sabença)

(Foto: Fernanda Sabença)

Dramaturgicamente, o espetáculo não traz novidades em relação ao que se vê por aí. A biografia segue a ordem cronológica, com saltos de tempo, pontuando os momentos mais especiais da vida e carreira da artista, como a relação com a família e os maridos, os encontros musicais e as gravações dos maiores sucessos. Há também alguns excessos, com uma cena enfadonha detalhando tudo que ela ouvia na rádio na infância. As 59 canções anunciadas não entram como diálogo dos personagens, e estão sempre inseridas como shows, apresentações, festejos e afins. O grande diferencial do texto de Rômulo Rodrigues (de “Favela”) é a inserção de uma fã como personagem, que acompanha Beth desde a primeira aparição na TV e vai envelhecendo com o ídolo, comentando tudo que acontece com ela e marcando a passagem de tempo. Interpretada carismaticamente por Ana Berttines (de “Favela”), a fã traz frescor e dinamismo à peça. É um dos grandes acertos.

Quanto ao elenco, composto por 23 atores, destacam-se Rebeca Jamir (de “Um Amigo Diferente?”) como Maria Bethânia e Andre Muato como Milton Nascimento. São deles, ironicamente, os números mais fortes do musical, respectivamente “Carcará” e “Travessia”, que aparecem como dois momentos de encantamento artístico de Beth Carvalho. Késia Estácio (do “The Voice Brasil”), como a enfermeira do hospital, e Douglas Vergueiro, como Zeca Pagodinho, também se sobressaem, pela comicidade. Todo o elenco está bem. As três protagonistas são fortes em cena, em conjunto. A pequena, pela graciosidade; Stephanie, pela musicalidade, e a mudança de timbre em aproximação com o da homenageada; e Eduarda, pelos detalhes da interpretação expansiva, facilmente associados à Beth. Juntas, as três constroem uma condução linear para quem vê – crédito também do diretor.

(Foto: Fernanda Sabença)

(Foto: Fernanda Sabença)

Algumas escolhas da direção, entretanto, são questionáveis. Marcações de atores passando atrás do painel de metalon, que é a estrutura fixa do cenário, ou descendo as escadas do palco para cruzar a primeira fileira, sem objetivo aparentemente, são esquisitas. Além disso, o número final do primeiro ato não é significativo em termos de conclusão de um capítulo, e não contribui para que o espetáculo não pareça drasticamente cortado ao acaso. É uma apresentação sem força – tanto coreograficamente quanto musicalmente ou dramaturgicamente. O público canta junto e bate palmas ritmadas em várias partes da peça, e nessa especifica demora a captar a conclusão do ato. Falta um tchan.

A propósito das palmas, é importante ressaltar a energia que os nove músicos e os atores são capazes de passar. O cenário de Clívia Cohen e os figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal não são muito elaborados, então “Andança” não é exatamente um espetáculo para encher os olhos (a luz de Djalma Amaral, às vezes, tenta). Mas enche a alma, de alguma forma, e você não precisa sequer gostar de Beth Carvalho para se sentir contagiado ou se emocionar aqui e acolá. Todos demonstram muita vontade de estar ali contando aquela história, e isso chega ao espectador de forma genuína. Tratando-se da história de uma famosa intérprete, é ótimo que os profissionais envolvidos captem essa essência.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h; dom, 18h. R$ 90 (qui e sex) e R$ 100 (sáb e dom). 110 min. Classificação: livre. Até 31 de janeiro. Teatro Maison de France – Avenida Presidente Antonio Carlos, 58 – Centro. Tel: 2544-2533.

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