Entrevista

André Loddi, enfim, protagonista

(Foto: João Caldas Filho)

Quem gosta de teatro musical com certeza já viu André Loddi no palco em algum momento. Foram oito espetáculos nos últimos oito anos – todos grandes. Ele viveu o Georg de “O Despertar da Primavera”, o Bud de “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força” e o Fiyero de “Wicked”, por exemplo. Mas é desde o ano passado que o ator paulista de 26 anos tem seu maior papel: Sam Wheat de “Ghost”, uma importação do West End, que faz pré-estreias no Teatro Bradesco Rio (no Village Mall na Barra da Tijuca) neste feriadão e cumpre temporada a partir do dia 15 de setembro. É o primeiro protagonista de sua carreira e em uma situação peculiar: o personagem, o fantasma interpretado por Patrick Swayze (1952-2009) no cinema, fica no palco em tempo integral. A visibilidade de um papel principal é, desse jeito, levada ao extremo.

– É um trabalho de atleta praticamente. É muito engraçado, porque do “Despertar” até a novela “I love Paraisópolis”, eu vinha fazendo o desengoçando, o destrambelhado. Do “Wicked” para cá, comecei a fazer o galã. É difícil fazer galã, porque é um personagem que geralmente é cinza, marrom, não tem muita cor, não tem muitas curvas dramáticas, então eu tô cada vez mais aprendendo a trabalhar a simplicidade e secar o meu corpo. Não literalmente no sentido de malhar. Secar no sentido de limpar o meu corpo e deixá-lo mais disponível em cena, mais bonito, para entender como é fazer um galã. É difícil, muito difícil. – diz ao Teatro em Cena.

A entrevista, aliás, aconteceu a caminho da academia no fim de uma manhã de quarta-feira. O físico de 1,87m ele mostra para seus 30 mil seguidores no Instagram, que curtem e comentam as diversas fotos de tanquinho que ele posta. Quem não gosta? “Tenho uma vida fitness”, conta, “cada vez mais eu tenho entendido a responsabilidade que é estar em cena fazendo um musical, a responsabilidade que é protagonizar um musical. Não basta só colocar o figurino e entrar em cena”. Além da rotina de treinos, ele também aposta em aulas de canto. Diz que, por conta das temporadas, não pode beber nem fumar. “Não estou falando que eu sou a Sandy, mas a gente tem que se reservar às vezes, pelo bem maior de uma peça”. Nas horas vagas, gosta de ir à praia, fazer trilha e se enfiar no meio do mato, o que também dá para comprovar em seu Instagram. Música, claro, faz parte: ele toca violão, piano e guitarra. Ultimamente, tem se rendido ao pop e baixou Lady Gaga e Sia para ouvir. “É engraçado, porque sempre reneguei o pop. Sempre fui mais do jazz e da música alternativa. Mas, ouvindo essas grandes divas pop, você vê que é de qualidade mesmo”.

Veja André tocando violão e cantando “Unchained Melody”:

Música faz parte da formação básica de André Loddi. Embora seja filho de um administrador e uma matemática (além de irmão de um engenheiro!), o paulista iniciou seus estudos musicais aos seis anos – idade em que geralmente se dá a alfabetização. “Partiu deles, mas era minha vontade também. Eles me incentivaram desde o início. Sempre gostaram de música e me levavam ao teatro”, lembra. À Broadway, ele conta que já foi quatro vezes. Garoto, também estudou no famoso Centro de Pesquisa Teatral do Antunes Filho, o CPTzinho, e participou de várias práticas de montagem na Casa de Artes OperÁria. O primeiro trabalho, “O Despertar da Primavera”, veio quando ele estava se formando no colégio, com 17 anos.

– Olha que engraçado: enquanto todos meus amigos estudavam para passar no vestibular, eu estudava para entrar em um musical. Considero o “Despertar” como se fosse meu vestibular, porque terminei o colégio e entrei na peça, enquanto estava todo mundo entrando na faculdade. Eu vinha estudando desde pequeno e passei a adolescência inteira me especializando até passar para o “Despertar”. Era meu maior foco. Nunca desviei do meu maior foco que era fazer musical.

Depois da aprovação no teste para o queridinho “Spring Awakening” – do qual ele era superfã – nunca mais parou. Só com Charles Möeller e Claudio Botelho, foram cinco espetáculos, nos quais ele atuou com nomes como Soraya Ravenle e José Mayer (ambos em “Um Violinista no Telhado”), Luis Fernando Guimarães, Gottsha e Kelzy Ecard (os três em “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força”), e o próprio Claudio (em “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”). Por Bud de “Como Vencer…”, foi indicado aos prêmios Cesgranrio e APTR. Perdeu respectivamente para Emílio Dantas (com “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”) e George Sauma (com “A Importância de Ser Perfeito”), mas ganhou convites para TV e estreou em 2015 na novela “I Love Paraisópolis”, chamando a atenção pela semelhança com Mateus Solano. Finda a novela, ele conseguiu o principal papel masculino em “Wicked”, musical que teve audições disputadíssimas. No meio da temporada, no entanto, ele abandonou o trabalho, causando um enorme burburinho entre os fãs e na própria classe. Ninguém sabia ainda, mas o diretor José Possi Neto havia o escolhido para ser Sam de “Ghost”, contracenando com Giulia Nadruz (a Molly).

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– Fiz a escolha meio que sem olhar para trás. Por mais que eu tivesse meu espaço em “Wicked”, eu tinha meu espaço como alternante. Chegou um momento em que tive a oportunidade de protagonizar um musical. Eu nunca tinha sido o protagonista. Vi nisso uma grande oportunidade, mas obviamente fiquei meio assim, porque “Wicked” é uma fórmula de sucesso, montada no mundo inteiro. O “Ghost” ia ser uma coisa a partir do zero, uma produção brasileira, mas olhando de lá para cá, fiz a escolha certíssima. Só colhi frutos por causa do “Ghost”.

Ter que escolher entre dois trabalhos grandes, afinal, é um problema ótimo para se ter na vida. “É muito engraçado, porque às vezes você está sem trabalho, não vem trabalho nenhum, e de repente aparecem três de uma vez. É a lei de Murphy”, diz. Recentemente, ele passou por algo parecido. Houve um grande hiato entre o fim da temporada paulista e o início da temporada carioca de “Ghost”: tempo que ele ocupou fazendo “O Homem de La Mancha”, dirigido por Miguel Falabella, em São Paulo. Quando estava prestes a voltar a encarnar Sam, foi convidado por Miguel para outro trabalho. Para completar o cenário, também chegou um convite da Aventura Entretenimento. Eita prosperidade! “Já aconteceu muito de ter que escolher, de não saber para onde ir”, conta o ator, “você acaba colocando na balança os prós e os contras: a questão financeira, a visibilidade… O Sam é um papel muito icônico, que não teria como recusar”.

Em “Ghost” (Foto: Caio Gallucci)

Você nunca trabalhou com outra coisa, né? Quando conquistou sua independência financeira?
É muito engraçada essa pergunta, porque independência financeira a gente tem, mas é muito instável ainda. A gente depende muito do produtor. Em um trabalho, a gente ganha muito dinheiro, aí no próximo já não ganha tanto dinheiro. Eu acho que um dos objetivos do artista é saber lidar com suas economias e juntar dinheiro, porque nosso trabalho é praticamente um freela. A gente não tem contratos muito duradouros. Mas desde os meus 18 anos que eu já tenho minha liberdade financeira.

De lá para cá, você emendou trabalhos e nunca ficou um ano fora de cartaz. Dá para dizer que foi relativamente fácil pra você?
Huuum… não, não. Até porque a gente lida muito com não nessa profissão. Com a reprovação. De cinco testes que a gente faz, dois a gente passa. Sempre bate aquela incerteza de “será que vai dar certo?”. Eu descobri, através da meditação, maneiras de viver o presente e ser grato pelo que tenho no momento, para não ficar pensando no futuro… Acho que isso que faz o artista pirar: esse não saber o que virá.

Em qual audição que você foi reprovado – chegou perto, mas não ficou com o papel?
Olha, de musical.. Quando eu vou fazer audição para um musical, é porque quero muito fazer, e eu passo. Estou sempre muito focado para fazer a peça. Mas televisão, pô, eu fiz uma novela há dois anos e fiz uns oito testes até passar para essa novela. Depois da novela, ainda tenho feito teste, então é perseverança total, ainda mais nesse meio. Mas, de musical, não me lembro de um que eu quisesse muito fazer e não tenha passado. Graças a Deus, todos que eu foquei, eu consegui.

Em sala de ensaio com Charles Möeller (Foto: Leo Ladeira)

Você fez cinco trabalhos com Charles Möeller e Botelho. Eles são uma espécie de padrinhos?
Com certeza. Eu falo que são o Charles, o Claudio e a Marcela Altberg, a produtora de elenco que sempre trabalhou com eles. No “Despertar”, eu não era ninguém, eles não me conheciam, e foram me dando oportunidade atrás de oportunidade. Aprendi muito com eles. Sou muito grato por tudo que me proporcionaram nos últimos anos.

Qual foi mais gostoso de fazer?
Pergunta difícil. Os três mais legais foram “O Despertar” [da Primavera], que o elenco era muito unido, tinha uma coisa muito jovial e eu era muito fã da peça desde adolescente; “Um Violinista no Telhado” também; mas o personagem que mais me deu prestígio no meio artístico – e até por ele que acabei fazendo novela – foi “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força”. Eu fazia o sobrinho do Luis Fernando Guimarães. Foi esse papel que me deu um clique e eu fui visto. Eu não diria que foi a melhor peça: “Um Violinsta…” e “O Despertar” são textos mais elaborados, mas em termos de personagem foi o que mais me destacou.

No “Como Vencer na Vida…”, você foi indicado a prêmios importantes e tinha só 22 anos. Essa profissão mexe com o ego e a vaidade. Ficou se sentindo?
Ah… me sentindo um pouquinho, porque eu estava muito inseguro nesse processo. Fui colocado para fazer uma grande comédia, só com Gregorio Duvivier e Luis Fernando Guimarães, que são gênios da comédia. Eu não tinha feito comédia assim até então. “Um Violinista” era cômico, mas era simples. Logo no começo do processo, eu tinha uma insegurança muito grande, então ter conquistado esse espaço foi uma grande batalha. Mas não subiu à cabeça, não. Eu não fui para o prêmio esperando ganhar. Só de ter sido indicado já foi um prêmio.

(Foto: Rodrigo Negrini)

E quando a crítica é negativa?
Depende de como ela chega. Tem críticas construtivas e críticas destrutivas, que você prefere não dar ouvido para aquilo porque… eu acho que o trabalho do crítico hoje em dia é muito relativo. Tudo é muito relativo. A normalidade para uma aranha é uma calamidade para a mosca. Um acha que é bom, outro acha que é ruim. Obviamente, se forem pessoas que entendem de teatro – um Macksen Luiz ou até a Barbara [Heliodora], que faleceu – você lê e tenta absorver o que tem de bom. Mas nunca deixar aquilo influenciar sua autoestima, enfim.

Depois de todos esses trabalhos com Moeller e Botelho, você foi fazer novela. Como foi a experiência com TV?
Foi muito bacana. Existe um preconceito com “ator de televisão”, mas a TV te dá a coisa de você ser ligeiro, pegar um texto, decorar e gravar. Você não tem tempo de construção, preparação. A obra é aberta, então amanhã seu personagem pode ser um vilão e até ontem não era. Você fica muito na mão do autor, e isso é muito interessante, diferente do teatro, que você já trabalha em cima da obra, do espaço cênico. E a quantidade de cenas que você grava em uma novela acaba sendo uma grande oficina, porque você está todo dia lá gravando, com atores experientes. Eu cresci muito, principalmente na parte de decorar. Hoje eu consigo decorar qualquer coisa em minutos.

Você pretende fazer mais televisão?
Ah, com certeza. Tenho feito alguns testes, aqui e ali, mas é muito difícil, né? É muito restrito. Mas, se Deus quiser, em breve vai rolar alguma coisa.

Seus trabalhos anteriores eram todos atuando e cantando. Na TV, você foi apenas ator. Tem interesse de fazer teatro não musical?
Hum, tenho sim, com certeza. Fiz uma peça não musical até hoje: um trabalho experimental. A música acaba sendo uma muleta para o ator de musical, querendo ou não. Tira a música, é ele, o público e o texto, sem musiquinha, então seria um desafio também.

Stephen Schwartz, compositor de “Wicked”, assistiu André Loddi na montagem brasileira,
com Myra Ruiz e Fabi Bang (Foto: Reprodução / Instagram)

No ano passado, você fez o Fiyero em “Wicked” e pela primeira vez foi dirigido por um profissional internacional. É muito diferente?
É um pouquinho, até porque o americano está acostumado com a sonoridade da língua dele e, quando vai dirigir o brasileiro, espera que a sonoridade seja igual a que ele ouve em inglês, mas é praticamente impossível. O inglês é uma língua muito mais direta e certeira. Os americanos são muito práticos e objetivos na direção deles. Mas o americano não entende o que você está falando, ele entende as intenções, então acaba dependendo de uma assistente de direção brasileira para te dirigir. É impossível te dirigir fora de sua língua. E tem até uma grande polêmica, que o Felipe de Carolis falou uma vez no Teatro em Cena, e eu não discordo totalmente dele, mas discordo que a gente não tem espaço de criação em um musical [importado] da Broadway. Eu acho que o grande esquema do teatro franchise é você tornar orgânico aquilo que não criou: como transformar orgânica uma marca que não partiu de você? Acho que é uma forma de fazer também – como se fosse um ballet, uma coreografia. Obviamente, aquilo não vai partir de você, não vai ter uma pesquisa, mas você vai se apropriar daquelas marcas, para o público pensar que está partindo de você na hora. Ainda mais “Wicked”, que acho que é a maior franchise ultimamente.

Você era alternante com o Jonatas Faro. Isso gera uma disputa, ainda que saudável, entre os atores?
Não, não. Nosso espaço era muito bem dividido lá: cada um com sua sessão, cada um com seu ensaio. Não chegou a gerar disputa, não. Tem situações em que o alternante fica sentado tomando nota, mas eu tive espaço para ensaiar, entendeu?

Em “Ghost”, você é dirigido pela primeira vez por José Possi Neto. Como é a direção dele?
O Possi é maravilhoso. Sem demagogia: ele é uma pessoa incrível, um grande amigo. Uma pessoa que tem muita história no meio artístico, da dança, então é uma aula estar com ele.

Par romântico com Giulia Nadruz: protagonistas de “Ghost – O Musical” (Foto: Caio Gallucci)

Nesse meio tempo, você também fez “O Homem de la Mancha” do Miguel Falabella. Charles Möeller, José Possi Neto e Miguel: você passou pelos maiores diretores do teatro musical brasileiro, né? O que aprendeu com cada um?
Boa pergunta. Deixa eu parar para pensar. Com o Charles, foi um momento da vida dele em que ele estava estudando muito o poder do agora, então aprendi muito a questão de viver o presente. O Miguel tem uma coisa muito linda que ele fala: “o grande segredo do ator é admirar o colega em cena”, porque quando você admira o colega em cena naturalmente você cresce e o jogo acontece. Você não fica só no seu devaneio. Você entrega pro outro ator a sua energia. Com o Possi, foi muito engraçado, porque ele me instigou a querer estudar o galã. No meio da temporada do “Ghost”, ele me falou: “André, você tem o físico, mas vai trabalhar sua voz, vai amadurecer”. Logo depois, o Floriano Nogueira, diretor associado do “Ghost”, me botou para fazer “O Homem de la Mancha”, pensando nisso. Eu cheguei a fazer o cover do Homem de la Mancha. Fiz umas seis vezes o Homem de la Mancha. Amadureci muito fazendo o cover desse personagem, porque é um senhor de 60 anos, então tive que trabalhar meu corpo e minha voz para ter esse peso. Eu me sinto agora muito mais amadurecido para fazer o Sam. Parece que o Sam envelheceu uns cinco anos desde a temporada passada.

Quais seus musicais favoritos?
O “Spring Awakening” já foi meu favorito, mas quando você faz a peça, você para de gostar. Você acaba ouvindo tanto aquela obra que… o “Despertar”, depois que fiz, nunca mais parei para ouvir. “Wicked” também. Mas eu fico com meu atual, o “Ghost”. É um musical que tenho muito apreço e carinho. Mas óbvio que sou muito apaixonado por Stephen Sondheim: “Into the Woods”, “Sweeney Todd”… Tem grandes musicais dele que eu gostaria de fazer. Tem “Once”, que eu adoraria fazer, porque toco violão e é um musical com músicos em cena – uma coisa que eu gosto muito.

Qual seria o personagem dos sonhos?
O protagonista do “Once” mesmo.

Você está com 26 anos. Pensando em rumo aos 30, o que mais quer conquistar até lá?
Eu gosto muito da linguagem do cinema. Tive a oportunidade de trabalhar com a Bruna Lombardi em uma série que ela produziu para a HBO, “A Vida Secreta dos Casais”, que vai ao ar agora em outubro. Acho muito interessante a linguagem do cinema – a coisa de você fazer para a câmera, o minimalismo, o realismo. É onde eu queria conquistar mais. O lado do audiovisual.

(Foto: Caio Gallucci)

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GHOST, O MUSICAL: sex e sáb, 21h; dom, 17h30. R$ 50 até R$ 150. 150 min. Classificação: livre. Menores de 14 anos só com responsáveis. Até 5 de novembro. Teatro Bradesco – Shopping Village Mall – Avenida das Américas, 3900 – Barra da Tijuca. Tel: Tel: 3431-0100.

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