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Antes de estrear, Leandro Melo gera debate sobre racismo e “blackface”

O ator Leandro Melo, um Dzi Croquette contemporâneo, aparentemente não tinha ideia da polêmica que estava prestes a enfrentar quando bateu o martelo quanto à foto de divulgação do seu novo espetáculo, “Satã, um Show Para Madame”, com estreia marcada só para o dia 6 de novembro, no Sesc Tijuca. Assim que a imagem se tornou pública, aqui no Teatro em Cena, deu início a uma discussão sobre o uso do “blackface” – artifício historicamente racista, de uso condenado por manifestantes contra o preconceito, por razões mais aprofundadas adiante. O assunto dividiu as pessoas, com amigos e parte da classe artística saindo em defesa de Leandro, contra as críticas do movimento negro. Incomodado com as acusações de racismo, Leandro Melo afirmou que não é racista, que tampouco é branco (disse ser “brasileiro”), e que buscaria as medidas cabíveis para se defender dos ataques: “o que vocês estão fazendo comigo é justamente o preconceito que mais repudiam!”. Ele também fez questão de esclarecer que não faz uso do “blackface” em cena. A foto de divulgação, que o traz com metade do rosto pintado de negro, é uma referência ao desejo do seu personagem de ser Madame Satã: “pessoal, não se trata de ‘black face’! O cartaz da peça faz alusão a quem contará a história de um lado e quem será contado do outro! E existe um porquê de ser uma pessoa não necessariamente negra!”. A declaração não amenizou e, pelas redes sociais, era possível ver internautas combinando boicotes e protestos na porta do teatro. É hora de falar sobre isso.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Qual o problema de pintar o rosto de negro, afinal? A verdade é que muita gente não sabe. O chamado “blackface” – quando um branco se pinta de negro para interpretar um personagem de etnia diferente – volta e meia aparece na mídia, em variados contextos de gafe e/ou escárnio. Houve o caso das torcedoras dos Jogos Universitários de Medicina (Jumed), do personagem Africano (Eduardo Sterblitch) do “Pânico na Band”, e da peça teatral “A Mulher do Trem”, da Cia. Os Fofos Encenam, em São Paulo. Mas é outro episódio que melhor resume o “blackface” em um panorama geral: Michel Teló. O cantor sertanejo postou uma foto com o rosto pintado de preto com o intuito de apoiar uma campanha contra o racismo. Obviamente, viu seu Instagram tomado por críticas. Com uma boa assessoria de imprensa, deletou a imagem, publicou um rápido pedido de desculpas e assumiu: “acredito que alguns conheçam o ‘blackface’, mas acredito também que a maioria, assim como eu, não tinha conhecimento”. É uma matéria do Diário do Centro Mundo que melhor sintetiza a questão: “a blackface de Teló é fruto de nossa ignorância sobre o racismo”. Há falta de informação, e possivelmente interesse, sobre a luta pela dignidade negra.

Blackface, como escravidão, é uma realidade histórica. Surgiu no século XIX, quando homens brancos se pintavam de tinta preta para ridicularizar os negros com personagens caricatos, tidos como cômicos, em apresentações voltadas para aristocracia branca. A prática envolve dois pontos: primeiramente, reforça estereótipos e geralmente faz escárnio de toda uma etnia, e, além disso, impede que atores negros interpretem personagens negros, ou seja, excluindo-os da cena. Para melhor compreensão, um exemplo claro: o primeiro filme falado, “O Cantor de Jazz” (1927), conta a história de um personagem negro, mas quem o interpreta é um branco, Al Jolson (1886-1950), com o rosto pintado. No auge do racismo declarado americano, não havia abertura para artistas negros no cinema. Mas não é preciso ir tão longe. No Rio de Janeiro, em 1948, o Theatro Municipal não permitiu que Abdias Nascimento (1914-2011), negro, contracenasse com uma loira no palco. O papel de Ismael, criado especialmente para ele por Nelson Rodrigues (1912-1980) em “O Anjo Negro”, foi, então, interpretado por um ator branco usando “blackface”. É essa carga histórica que pesa, principalmente. A leitura sobre o “blackface” nos dias atuais pede esse retrospecto para entendimento do quão ofensiva é sua utilização.

O caso de Al Jolson e a gafe do Michel Teló (Fotos: Reprodução)

O caso de Al Jolson e a gafe do Michel Teló (Fotos: Reprodução)

Leandro Melo foi acusado de se apropriar culturalmente de um personagem negro, Madame Satã (interpretado por Lázaro Ramos no cinema), ícone da Lapa e da boemia carioca, o que, na verdade, foi um mal entendido. O título da matéria – “Leandro Melo vai ser Madame Satã em monólogo musical” (posteriormente mudado para “homenageia Madame Satã”) – induzia ao erro. Muitas críticas questionaram o porquê de escalarem um não-negro (o ator não se considera branco) para o papel, ignorando completamente o conteúdo da matéria, pois ninguém o escalou. “Satã, um Show Para Madame”, como explica a reportagem, é um projeto do próprio artista, idealizado por ele. O atenuante é que, em cena, Leandro interpreta um homem apaixonado pela figura de Madame Satã, investigando-a e mergulhando em seu universo, realmente querendo ser essa figura lendária, mas sem ser. Esse é um ponto: ele garante que não vai usar “blackface” em cena e não está interpretando o personagem negro, tampouco. O ator também defende a posição que não usa “blackface” na foto de divulgação – apesar das opiniões contrárias.

– Não acho que cabe ao ator em questão definir o que é ou não racismo. – diz Stephanie Ribeiro, do Blogueiras Negras, que ajudou a denunciar o uso do “blackface” na peça da Cia. Os Fofos Encenam – O meio cultural e artístico racista ainda tem dificuldades de dar papéis de destaque a pessoas negras. É absurdo pensar que atores negros não foram chamados para esse papel, porém estão sendo convocados para [a instalação performática do artista sul-africano Brett Bailey] EXHIBIT-B, onde terão que voltar há anos e anos atrás, quando eramos vistos como objetos, e ficarem expostos nessa instalação. Esses dois exemplos mostram como, no Brasil, a visão do lugar do negro é ainda super colonial. Servimos para sermos expostos em verdadeiros zoológicos humanos, contudo não para sermos atores principais de trajetórias reconhecidas. É lamentável que num meio onde se costumava quebrar tantos paradigmas, o contexto de artes cênicas nacionais, ainda persista a dificuldade para se escutar, ler e dialogar com nós negros. Essa peça, assim como o caso dos Fofos, mostra mais uma vez isso.

Imagem postada pelo ator no Instagram (Foto: Reprodução)

Imagem postada pelo ator no Instagram (Foto: Reprodução)

A página do Facebook NegroÉ, uma das que colocou Leandro Melo na berlinda, escreveu que “a cultura do embranquecimento não para”. Em determinada parte do texto publicado, lê-se: “se ele quisesse fazer ‘homenagem’ faria a produção com um ator negro. Ajudaria a inserir no mercado cultural pessoas mais escuras, que são marginalizadas e silenciadas da cena. Na representação, não vale tudo, não, (…) e um artista com leitura sobre a sociedade jamais cometeria um erro desses ou faria desculpismos como estamos vendo (sic)”. A mesma publicação atraiu comentários em apoio ao Leandro – o diretor Raphael Alvarez (“você me representa independente de raça, sexualidade, religião, partido político ou qualquer definição”), o ator Dennis Pinheiro (“ainda nem realizou o trabalho e já tem gente se coçando, imagina quando ele abrir a boca e começar a dançar”), o produtor João Luiz Azevedo (“adorando tudo isso… antes de estrear, já está criando polêmica! Suce$$o!”) e a atriz Ingrid Gaigher (“agora é isso? Atores negros só interpretam negros e brancos só interpretam brancos? Racistas são vocês, limitados são vocês”). Com uma longa réplica, a página ressalta que essa não deveria ser uma disputa de discurso e que “não é sobre quem tem razão”. “A maioria das pessoas no país reproduz racismo ou por ignorância ou por perversidade, reforçado pela educação racista que temos. Estamos em um sistema racista. (…) Negros e brancos estão numa disputa por narrativa, porque a história do povo negro é sempre contada pela ótica dos vencedores, que são homens e brancos”, escreveram.

(Foto: Alex e John Santana)

(Foto: Alex e John Santana)

Um dado interessante é que “Satã, um Show Para Madame” tem direção de Édio Nunes. Além de ser negro, o artista dirigiu “Lapinha”, espetáculo sobre uma cantora lírica negra que tinha que se pintar de branco para poder se apresentar no fim do século XVIII e início do século XIX. Não permitiam negros no palco, por maior que fosse seu talento. Coincidência? Interessante, no mínimo. Em entrevista ao Teatro em Cena, Édio, sem saber o buzz que estava para surgir, acabou defendendo bastante o protagonismo do Leandro no projeto: “Madame Satã está sendo relembrado e ao mesmo tempo homenageado, trazendo para cena esse ícone. O espetáculo parte do princípio desse ator, que entra nesse sótão, nesse submundo, nesse perigo, nessas vielas da Lapa, e essa história o chama. Eu acho que o Leandro estava interessado nessa história, mas a história também estava interessada nele. Às vezes o personagem nos quer muito”.

O Teatro em Cena fez questão de entrar em contato com a assessoria do espetáculo para um parecer oficial. A produção reafirma que não será utilizado o blackface “como estão acusando o Leandro”. Segue a nota:

Para ele, “não há preconceito em reconhecer o papel histórico cultural de um negro, pelo contrário, isso mostra, ainda mais, a força que pessoas negras tem e suas histórias de vida que merecem ser contadas”. O espetáculo é sobre um personagem que ambiciona se tornar Madame Satã. E não o próprio em cena. Ou seja, não há um discurso preconceituoso ou leviano por trás da história, pelo contrário, a peça é uma homenagem para Satã – que ironicamente, em vida, também foi acusado muitas vezes erroneamente. Já a arte de divulgação da peça é na verdade uma mistura da sensualidade com a crença do personagem numa mesma foto, um exu.

O debate instiga. Como bem falou a página NegroÉ, a discussão não é sobre quem tem razão, mas sobre práticas de racismo na estética cênica. O caso do Leandro, justo ou injusto, dependendo de quem vê e quem argumenta, serve para uma reflexão em perspectiva mais ampla. Por outro lado, o monólogo do ator ainda nem estreou, e qualquer análise resulta por si só precoce. O Teatro em Cena não costuma abrir espaço para links de fora do site, mas aqui cabe uma exceção. Eliane Brum assinou um artigo competente sobre o cancelamento da peça “A Mulher do Trem”, da Cia. Os Fofos Encenam, narrando o debate que aconteceu no Itaú Cultural, em São Paulo, diante do protesto contra o uso da “blackface”. Leitura recomendada: clique aqui.

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SERVIÇO: sex a dom, 20h. R$ 20 (ou R$ 5 para sócios do Sesc). 70 min. De 6 até 29 de novembro. Sesc Tijuca – Rua Barão de Mesquita, 539. Tel: 3238-2139.

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