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Artista Esperança – Por Malu Rodrigues

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(Foto: Reprodução / Ieda Ribeiro)

(Foto: Reprodução / Ieda Ribeiro)

Meses antes de a novela “Império” começar, a imprensa noticiava que o autor Aguinaldo Silva teria mudado a personagem de Viviane Araújo, pois a inicialmente prevista para ela exigiria uma forte carga dramática, que não correspondia à formação e experiência de Viviane, rotulada pela mesma imprensa de “ex-participante de reality”, “celebridade de carnaval” e, mais recentemente, “fenômeno midiático”.

Verdade ou não, acredito sim em outra matéria na qual Viviane falava sobre o quanto se preparou para o trabalho. E aí está o resultado. Ela e Aílton Graça têm nos emocionado com suas atuações, contando de uma forma linda e singela uma das mais belas histórias de amor já escritas para a televisão brasileira. Pouco importa se esse papel é menor que o outro. Quero um dia um assim para mim.

Esse é o segredo de quem tem a vocação e talento para emocionar pessoas e quer conquistar seu espaço de forma definitiva: preparação, disciplina e trabalho. O ator Paulo José, um dos maiores do mundo, com quase 80 anos e ainda em plena atividade, portador de uma doença terrível – Mal de Parkinson –, ao ser entrevistado por Marília Gabriela, afirmou que ainda participava de cursos como aluno. Provocado pela entrevistadora para citar uma frase que representasse seu momento de vida, o grande ator respondeu:

– Vou citar o ex-jogador Zico quando, ao final de mais um treino, um repórter creditou à sorte o fato de suas cobranças de falta quase sempre resultarem em gols: “É, treino tanto que tenho sorte”.

Como resultado de seu trabalho na novela, Viviane derrubou o preconceito contra ela, o mesmo que já havia feito Grazi Massafera e Juliana Alves, também rotuladas inicialmente de ex-realities. Hoje são reconhecidas como atrizes e também rainhas de carnaval, sem que isso gere qualquer polêmica. Mas preconceito não cai de vez. Ele parece que fica rolando até subir mais adiante.

Quem assistiu ao espetáculo “S’imbora, o Musical — A História de Wilson Simonal” e ao filme “Simonal — Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei”, conheceu a dimensão do preconceito que há 40 anos foi levantado contra um dos maiores ídolos do país, em parte porque seus incontáveis sucessos, muitos deles feitos por Carlos Imperial, eram músicas de qualidade duvidosa. Passado todo esse tempo, qualquer semelhança com cantores de música sertaneja e musas do funk brasileiro não é mera coincidência. Muitas vezes ridicularizados pela crítica, hoje são endeusados e figurinhas repetidas em vários programas de televisão, cantando seus hits.

Vira e mexe, surgem ou ressurgem polêmicas em nossa classe. Por exemplo, já ouvi que ator que nunca subiu num palco não é ator, mesmo consagrado na TV e no cinema. Ou que ator de musical que nunca fez dramaturgia igualmente não é. Também já ouvi que ator de musical é o ator completo. Para botar mais lenha na fogueira, o “Programa do Faustão” criou o quadro “Artista Completão”, no qual colegas apresentavam números musicais.

Já estou prevendo que, em breve, surgirá o preconceito contra ator de musical que só faz peças importadas da Broadway ou West End. E não achem graça, pois produtores, na guerra por patrocínio, também já entraram nessa onda, acirrando discussões sobre o que seria mais importante para nossa cultura: dramaturgia ou musical; dramaturgia ou “stand up”; e, mais recentemente, musical brasileiro ou estrangeiro.

Mas, como eu disse, todos esses preconceitos caem um dia para, infelizmente, levantarem-se anos depois. Vanessa Gerbelli ganhou, em 2012, o Prêmio APTR de melhor atriz pelo musical “Quase Normal”, e Laila Garin, em 2013, tomou de todas o Prêmio Shell, por sua maravilhosa “Elis”. Em 2010, Rodrigo Pandolfo, em seu primeiro musical, “O Despertar da Primavera”, ganhou o Prêmio APTR de ator coadjuvante. Em 2008, havia sido indicado para um Shell de melhor ator por “Cine Teatro Limite”. Esses exemplos, sem contar as incríveis performances de José Mayer, Tiago Abravanel e Emílio Dantas em musicais, só provam que a única diferença que existe é a que separa os profissionais preparados dos não preparados. Preparação que deve durar enquanto tivermos condições de subir num palco ou ficar em frente às câmeras.

Todo aquele que tem vocação e talento para transformar a vida de pessoas ao se apresentar num palco, no cinema, na TV ou na internet, é um artista. Se é para criar um rótulo vamos nos autodenominar de “transformadores”. Transformamos tristeza em alegria e indiferença em inquietude. Amolecemos corações de pedra e provocamos reflexões que mudam a vida de pessoas. Algumas dessas mudanças duram poucos instantes ou horas, outras duram para sempre. Portanto, para o público que nos assiste e para qual devemos reverência, pouco importa se somos rotulados de “cantriz”, atriz/cantora, comediante, clown, funkeira, atriz dramática ou global. O que importa é a transformação que provocamos.

Estes rótulos, criados pela imprensa e até por nós mesmos, provocam discussões às vezes divertidas. Também motivam muitos atores a desconstruí-los, modificando sua preparação e repensando a trajetória de suas carreiras. Mas temos que ter cuidado para que isso não se transforme em preconceito. E nem nos desvie de temas importantes para profissionalizar nossa profissão. Ou todos estão satisfeitos com os termos da lei que regulamenta a profissão de artistas que tem quase 40 anos?

Não me tomem por uma sonhadora. Mas se não desviarmos o foco acredito que possamos produzir um dia um prêmio como o Oscar ou Tony, que seria transmitido para o mundo, mostrando que no Brasil, de fato, a indústria do entretenimento se faz com grande profissionalismo e parceria de produtores e artistas – prefiro chamar de “transformadores”. Sonho em ver amigos apresentando números musicais incríveis. Me recuso a acreditar que o máximo que podemos fazer seria um programa tipo “Artista Esperança”, buscando doações para que o Retiro dos Artistas possa continuar a acolher de forma digna ainda mais companheiros de cena.

Malu Rodrigues é cantora e atriz de teatro, cinema e televisão.

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