Internacional

Artistas internacionais comentam atos de censura à arte no Brasil

(Foto: Tarcísio Motta)

“La Bête”. “Queermuseu”. “Curto-circuito”. “Bicha Oca”. “Nascituros”. Censuras. Moralismos. Manipulações. Que momento, hein? A perseguição à arte contemporânea no Brasil está chamando atenção de outros países. A performance de Wagner Schwartz no MAM-SP, gatilho para uma série de cerceamentos às artes, virou notícia em jornais como o New York Times, dos Estados Unidos, o Daily Mail e o The Sun, da Inglaterra. No Rio, a Secretaria de Cultura não dá uma resposta convincente para o cancelamento da programação LGBTQ do Castelinho do Flamengo. Artistas estão alarmados – também fora do Brasil. “Estou muito triste de ler as notícias e entender que a censura está muito ativa aí. Espero que artistas e cidadãos suficientes possam se unir para demonstrar sua oposição à tamanha censura e reverter essa dinãmica”, diz o coreógrafo francês Xavier Le Roy, em contato com o Teatro em Cena por e-mail. Ele esteve no país em 2013 para participação em um festival no Museu de Arte do Rio (MAR) – mesmo lugar onde o prefeito Marcelo Crivella vetou a entrada da exposição de artes plásticas “Queermuseu”, que celebra a diversidade. O bispo licenciado alega que o “Rio não quer exposição de pedofilia e zoofilia”.

– A nudez é associada a códigos morais que gostariam de decidir o que é certo e o que é errado. Ela tem sido descrita e usada por certos grupos como algo que não deveria ser exposto “publicamente”. Como a própria noção de público é uma ameaça forte por causa dos crescentes medos, acho que isso não está facilitando as coisas para a aceitação da nudez como apenas uma outra vestimenta possível para o ser humano. – analisa Le Roy, que também explora o nu artístico em seu trabalho.

O que tem se visto é o uso da arte contemporânea para incitação de uma histeria coletiva. Debate-se na Internet sobre performances, exposições e espetáculos não vistos, em contextos corrompidos. Os comentários são dos mais ofensivos. Por conta disso, um grupo de artistas iniciou o movimento “342 Artes – Contra a Censura e a Difamação”, que se posiciona contra a contaminação da sociedade por um “falso moralismo, oportunista e eleitoreiro” para fortalcer os intereses políticos dos fundamentalistas. Outro grupo prepara um grande ato para o feriado (12/10) na Praça Mauá: “Arte Pela Liberdade #CensuraNuncaMais”. O intuito é “ocupar a praça com cultura” em resposta ao processo de criminalização da arte que tem se assistido recentemente. O nu artístico, tão comum há séculos em pinturas e esculturas, passa a ser tratado como aberração e perigo para o cidadão de bem.

– A história de nossas civilizações mostra um movimento ininterrupto de aceitação para rejeição para aceitação…. O corpo pode ser visto como um barômetro de nossas humanidades, pensando que você pode avaliar o nível de entendimento quanto a nós mesmos. Religiões, políticas, sociedades, economias, para todos elas, o corpo é lugar de especulação. – pontua o coreógrafo francês Olivier Dubois, que já colocou 18 dançarinos nus no palco da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca – O corpo detém o segredo de nossas vidas e, para religiões, sociedades e políticas, esse segredo DEVE ser controlado! E mesmo que nossas sociedades ocidentais hoje em dia nos expliquem o que é bom ou ruim, permitido ou proibido, como pensar corretamente, como agir corretamente, eu lhes digo: os artistas nunca pararão de disparar. O corpo é a arma revolucionária.

Exposição “Curto-Circuito” no Castelinho do Flamengo: nunca aberta ao público (Foto: Julie Brasil)

Comentários

comments

Share: