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Artistas ocupam Castelinho do Flamengo em protesto contra censura

(Foto: Reprodução / Rodrigo Agrellos)

A suspensão da programação de conteúdo LGBTQ no espaço municipal Castelinho do Flamengo, no dia da estreia, não passou em branco. Artistas se organizaram pelas redes sociais e realizaram um protesto contra censura na frente do local na noite de sexta (6/10), que culminou com a ocupação do espaço e a presença da polícia. O jornalista, produtor e ativista Bruno Monteiro divulgou uma nota pública no Facebook, juntamente com um vídeo em que faz a leitura na íntegra na página da Mídia Ninja.

No texto, os artistas expressam a desconfiança com relação ao motivo alegado para o cancelamento dos espetáculos “Bicha Oca” e “Nascituros” e da exposição de artes visuais “Curto-Circuito”, com fotografias de nu artístico. A Secretaria de Cultura diz que o Castelinho do Flamengo sofreu uma pane elétrica e por isso está interditado: só voltará a funcionar após um laudo técnico. Na nota oficial, a ocupação dá uma série de indícios de que a informação não procede e exige que os laudos da Light e da Defesa Civil sejam apresentados, assim como as obras da exposição. A palavra censura é usada três vezes no texto. Leia na íntegra e assista ao vídeo:

“A arte é o exercício experimental da liberdade”
– Mario Pedrosa, 1968
Nós, artistas, ativistas e militantes culturais que ocupamos democraticamente o Castelinho do Flamengo nesta sexta-feira (06/10/2017), expressamos, por meio desta, as motivações deste ato.
Na última semana, de forma absolutamente arbitrária e sem explicações convincentes, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro informou por meio de nota oficial que o Castelinho está interditado por conta de uma pane elétrica. As peças Bicha Oca e Nascituros, bem como a exposição Curto-Circuito, integrantes da programação do “Outubro pela Diversidade”, previstas para estrearem neste espaço, ontem e hoje, foram impedidas. Após o cancelamento, novos lugares de exibição foram impostos, sem qualquer diálogo e ignorando que trabalhos culturais como estes são projetados a partir de um detalhado estudo do local.
Prova do açoitamento da interdição, é que a notícia do cancelamento ocorreu no momento em que a produção estava no espaço organizando sua montagem. Mesmo com uma placa de interdição afixada no portão, não houve qualquer impedimento para que a produção ingressasse no Castelinho. Ora, se havia riscos para a segurança humana, como permitir que pessoas adentrassem no local? Isso revela que procuram uma causa pra tentar dar ares de legalidade ao arbítrio censor.
Salta os olhos a informação que, diante da notícia da interdição por questões elétricas, um dos integrantes da produção da exposição telefonou para a Light que veio até o local. No entanto, foi impedida pelos próprios seguranças do Castelinho de entrar e realizar vistoria.
Outro fato que merece ser destacado é que após a notícia da interdição, os produtores perceberam que algumas obras sumiram. Justamente as obras que destacam a temática LGBT, o debate sobre drogas e cenas de nudez humana. Isso não é uma coincidência.
É importante ressaltar ainda que estes eventos artísticos para acontecerem neste espaço partiram de convite da Secretaria Municipal da Cultura há mais de três meses, demandaram um complexo processo de produção com o uso de recursos públicos e dos trabalhadores e trabalhadoras da cultura envolvidos. A interrupção abrupta fere a todas e todos.
O destino dos trabalhos a serem expostos no Castelinho e projetadas para exibição neste espaço, no entanto, até agora não foi divulgado. E o local sugerido pela Prefeitura, por meio de uma rede social, para exibição da peça Bicha Oca foi a Casa Nem, ocupação que serve como abrigo para LGBTs e não é um aparelho do município. Vale destacar que isso não foi negociado com a Casa Nem. Revela ainda que a intenção da Prefeitura é que a pauta LGBT não ocupe os espaços públicos, como é o Castelinho, mas fique reduzida a guetos. Essa segregação é inadmissível.
Não por coincidência, esta súbita interdição de um espaço público da maior importância para a cultura carioca, ocorre na mesma semana em que o Prefeito Marcelo Crivella publicou um vídeo atacando a exposição QueerMuseu e expressando, de forma inequívoca, que coloca suas convicções religiosas acima do interesse público da população do Rio de Janeiro.
Este movimento, que hoje ocupou o Castelinho e que pretende manifestar-se em outros espaços da cidade, reafirma que não aceita a censura às artes que tem ocorrido de forma sistemática no país, afetando a cultura livre e divulgando uma série de mentiras e absurdos para criar preconceitos e disseminar o ódio.
Neste sentido, após cinco horas de ocupação pacífica, democrática e organizada da área externa do Castelinho, saímos do local, mas expressamos a nossa pauta de lutas, que nos manterá mobilizados de forma crescente.
Exigimos que a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro apresente:
1. Os laudos da Light e da Defesa Civil que indicam eminentes riscos no local;
2. Divulgue imediatamente onde estão as obras da exposição Curto-Circuito;
3. Informe oficialmente qual foi a classificação para retirada de algumas obras;
4. Apresente o último laudo de vistoria do Castelinho, emitido pela Defesa Civil;
5. Torne público um plano de reforma e data de reabertura do espaço; e
6. Assegure a manutenção dos aparelhos de cultura da cidade, assim como a liberdade de expressão imprescindível à democracia.
Esperamos estas respostas, e falamos em alto e bom som, que esta mobilização continua e crescerá enquanto esta onda fascista seguir nos perseguindo, propagando o ódio e a intolerância.
Seguiremos com o nosso compromisso de lutar pela liberdade e pela diversidade.
Somos indestrutíveis! Censura nunca mais!
Rio de Janeiro, 6 de outubro de 2017.
#342artes
#CensuraNuncaMais
#DifamaçãoNão

Por meio da página do Castelinho do Flamengo no Facebook, a Secretaria de Cultura emitiu um comunicado reafirmando que 16 espetáculos com a temática LGBTQIA se apresentam em equipamentos culturais do município como parte da programação especial “outubro da diversidade”. “O adiamento de parte desta programação ocorreu apenas em um de seus centros culturais. Diante disso, reafirmamos que a programação no Castelinho do Flamengo foi adiada tão somente devido a problemas nas instalações elétricas. O conserto está em andamento e, caso realizado em tempo hábil, a programação será retomada no próprio espaço”, diz o texto. A Secretaria de Cultura não menciona, no entanto, que a administração do Castelinho já havia demonstrado desconforto com “o teor das obras”, solicitando inclusive que uma cena fosse cortada de “Bicha Oca”.

Para a produção deesse espetáculo, que viajou de São Paulo para o Rio de Janeiro a convite da Secretaria, foi oferecido o espaço da Casa Nem, no Centro, que não é um local administrado pela Prefeitura do Rio. “Bicha Oca” fará apresentações lá no sábado e no domingo, às 18h. Já “Nascituros”, montagem carioca, segue sem destino. A administração da Casa de Baco, um espaço privado na Lapa, anunciou que está aberta para receber ambas as montagens. A questão vai além da realocação das temporadas, no entanto…

(Foto: Reprodução / Fábio Carvalho)

(Foto: Reprodução / Rodrigo Agrellos)

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