Papo de Artista

As tartarugas e eu – Por Bárbara Sut


(Foto: Divulgação)

Após tantos acontecimentos relevantes no Brasil e no mundo nesse conturbado inicio de 2019, o pelo da minha cachorra, Nanel, deu nós. Marquei banho e tosa para o dia seguinte no primeiro horário. Chegamos cedo demais, uns 10 minutos antes da hora marcada, pois Nanel se recusou a ir andando no chão ainda molhado da ultima chuva no Rio de Janeiro e assim, no meu colo, conseguimos um ritmo mais rápido que o previsto.

Esperar 10 minutos em um pet shop. 10 minutos em um pet shop que vende tudo para gatos, cachorros, pássaros, peixes, hamsters e tartarugas. Em um pet shop que tem bichos de todas essas espécies pra doação e à venda. Nanel ficou animadíssima. Me puxou de um lado pro outro cheirando tudo, olhando com grande curiosidade esses brinquedos, animais, pedrinhas para aquário, etc. A curiosidade durou uns 3 minutos. Eu ainda tinha outros 7 minutos pela frente, pensando que o núcleo de tosa e banho seria pontual. Olhei uma fantasia de palhaço que ficaria uma graça na Nanel, mas achei muito cara, então perdi o interesse.

Dei uma olhada nos preços de peixe, pois nunca parei pra pensar em qual seria o valor de um peixe. Bom, caso mais alguém tenha essa curiosidade, encontrei aquários com um grande número de peixes de 3 reais, todos muito pequenininhos e apressados; e ao lado, um aquário com poucos peixes de 345 reais, maiores e mais lentos. Achei que devia ter algum erro. Perguntei ao vendedor “esses peixes são 342 reais mais caros que os outros?”, ele respondeu que sim com a cabeça. Tentei novamente “é por que eles vivem mais?” e como um eco, ouvi do vendedor “é porque eles vivem mais”. Achei esquisito. Acho esquisito todo esse mercado de venda de animais.

Fiquei parada no meio da loja algum tempo pensando que talvez pudessem receber a Nanel alguns minutos antes, até que reparei um aquário com tartarugas. Tartarugas minúsculas. Seriam filhotes ou uma especie 342 reais mais barata que outra de tartarugas maiores e mais lentas? Não perguntei. Me abaixei pra olhá-las nos minutos que me restavam.

O que me chamou a atenção é que enquanto algumas tartarugas ficavam paradas em uma parte mais alta com areia, em poses que lembravam pessoas tomando sol na praia, uma outra estava na água nadando com grande vivacidade em direção ao vidro do aquário. Ela parava pra respirar e se voltava novamente contra o vidro nadando muito rápido com a cabecinha minúscula encostando nisso que a impedia de nadar. Primeiro, pensei que ela devia estar estressada. Depois, que talvez ela não tivesse consciência do que é um vidro e que isso a impedia de sair do lugar. Descartei essa hipótese, pois ela nadava afobada como alguém que sabe que está enfrentando uma resistência e, de qualquer forma, eu não entendo sobre o sistema nervoso de tartarugas, mas acho difícil que ela não sentisse sua cabeça enfiada no vidro.

Percebi que outra tartaruga começou a fazer o mesmo que essa primeira. Pouco depois ela desistiu e nadou para o fundo cansada, o que me deixou ainda mais intrigada com a tenacidade da primeira tartaruga em nadar contra o vidro. Reparei que, enquanto as outras tartarugas continuavam imóveis com a cabeça meio levantada como se tomassem sol, outras duas que estavam mais próximas de mim começaram a se agitar e se pisotear para tentar alcançar a parte do aquário com agua. Esse ballet ou luta, me deixou bastante preocupada com os olhos dessas tartarugas, pois eu não sabia e, não sei se mais alguém sabe, mas as tartarugas tem o que eu chamaria de unhas bastante pontudas.

Foi então que pensei em como essas tartarugas se apresentavam pra mim naquele aquário/caixa cênica como uma pequena alegoria da nossa sociedade. Quantas são as barreiras invisíveis que sentimos esmagando nossas caras e contra as quais precisamos nadar diariamente, cada vez mais afobados sem – aparentemente – sair do lugar? Quantas vezes precisamos parar de nadar pra tomar ar e voltar com mais fôlego? Quantas são as pessoas que vendo nosso empenho, tentam nadar um pouco, mas desistem, aceitam que essas barreiras são intransponíveis e nadam cada vez mais pro fundo? Quantas criaturas se batem e lutam umas contra as outras sem chegar a lugar nenhum, sendo que com diálogo seria mais fácil que ambas chegassem à agua juntas, se ajudando – acho que estou exigindo demais das tartarugas, mas não de um ser humano. E quantas são essas figuras imóveis que na parte elevada do aquário ficam em posições patéticas, alheias a todas essas fantásticos acontecimentos? Bom, esse encontro entre as tartarugas e eu não me saia da cabeça. Ja tinha deixado o pet shop e continuava perplexa pensando na tragédia das tartarugas, na impossibilidade de mudança. E realmente não conseguia entender o que no vidro deixava esse grupo de tartarugas tão inquieto.

No fim da tarde, me veio a grande revelação: o que as intrigava não era o vidro em si, mas o que ele permitia ver fora do aquário. No caso, eu. Acontece que, finalmente, no encontro entre as tartarugas e eu, eu ocupava uma posição realmente excepcional: era parte e ao mesmo tempo estava fora. Eu também era parte da alegoria.

Em toda sociedade existe alguém que mesmo sendo parte, se distancia. Observa. E da observação gera alguma mudança. Tem-se o poder de, apesar de qualquer barreira que se estabeleça entre indivíduos, como o vidro entre as tartarugas e eu, dar energia, ânimo, para que aja movimento – movimento que por muitos será visto como irrelevante, mas que na minha opinião, é sem dúvidas essencial.

Fico pensando se eu me interessei pelo aquário, porque vi aquela minúscula tartaruga nadando contra o vidro; ou se ela começou a nadar contra o vidro, porque me viu parada em frente ao aquário esperando pra ser atendida. Acho que pode ser os dois. Nos motivamos mutuamente. Mas como me senti importante por ter sido notada por aquelas tartarugas, por ter sido parte. 10 minutos no pet shop que me fizeram sentir mais artista. Mais consciente. Mais tartaruga. A lição está aprendida e independente do aquário, não tardarei em nadar em direção ao vidro e um dia, por que não, atravessá-lo.

Bárbara Sut é atriz.

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