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“Ator negro”: o perfil limitador e excludente nas artes cênicas

(Fotos: Divulgação)

(Fotos: Divulgação)

Essa era para ser uma matéria sobre o bom momento dos atores negros no teatro brasileiro. O público deleita-se semanalmente com Karin Hills em “Mudança de Hábito”, em São Paulo, e com Ícaro Silva em “S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal”, no Rio de Janeiro. São duas superproduções com artistas negros em papeis principais, assinadas respectivamente pelas empresas Time For Fun e pela Planmusic. Parecia ser algo para se comemorar. Mas uma troca de e-mails rápida com a atriz Maria Bia, parte do elenco de “Noite Infeliz – A Comédia Musical das Maldades”, fez essa reportagem tomar outro rumo: o tal do perfil.

– Não acredito que seja uma abertura de mercado, porque os dois estão dentro de um perfil exigido. Tanto o Simonal quanto a Deloris são negros. Não é por acaso que eles estão ali. A abertura de mercado vai acontecer quando eu estiver fazendo testes para papéis que não tenham a descrição “atriz negra”. Quando eu puder ser uma psicopata, assassina, mocinha, vilã e qualquer outra papel que eu esteja qualificada para fazer como atriz independente da cor da minha pele. – Maria Bia chamou a atenção, via e-mail. Faz sentido, não faz?

Por contrato, Woopi Goldberg, a produtora do “Mudança de Hábito” na Broadway, exige que todas as montagens internacionais sejam protagonizadas por atrizes negras. Então, não tinha como ser diferente, assim como no caso do Wilson Simonal. Ícaro foi escolhido entre outros 100 atores, mas todos dentro do “perfil”. A pré-descrição do personagem barra muito ator de antemão, antes mesmo do teste. 127 anos após a abolição da escravidão no Brasil, não é exagero dizer que os artistas negros ainda são escravos de papeis pré-determinados para eles, em muitos casos. Não todos. A própria Maria Bia está em cartaz como uma vedete em “Noite Infeliz” – uma personagem que não tinha que ser necessariamente negra.

Maria Bia em "Noite Infeliz" (Foto: Divulgação)

Maria Bia em “Noite Infeliz” (Foto: Divulgação)

– Eu não deixo ninguém me diminuir por causa da cor da minha pele. Não é qualquer um que abala a minha autoestima não. E olha que tentam, viu! Eu me acho uma negra linda e capaz de tudo. Mesmo quando eu vou a algum teste e dizem ‘ah, mas não tem o seu perfil’, penso comigo ‘vou fazer um teste tão bom, que se não tiver meu perfil, eles vão criar’. Posso dizer? Isso já aconteceu e aconteceu muito. Já peguei muito papel em teste que me falaram que não teria vaga para mim porque sou negra. Meu primeiro trabalho artístico profissional foi no musical “Miss Saigon”. Quer dizer… era eu e as japonesas.

É um avanço, claro. Entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, a atriz e cantora lírica Joaquina Maria Conceição da Lapa tinha que usar cosméticos para clarear sua pele para subir no palco. O público não aceitava uma negra em posição de destaque – apesar do seu talento e carisma. Ela só conseguiu alcançar o sucesso porque cedeu ao preconceito e se passou por “branca”, enganando os espectadores. Mesmo assim, não é lembrada, e há poucos registros sobre sua trajetória. Essa história é contada no musical “Lapinha”, idealizado e protagonizado pela atriz Isabel Fillardis.

Isabel Fillardis em "Lapinha" (Foto: Divulgação)

Isabel Fillardis em “Lapinha” (Foto: Divulgação)

– Claro que em 1800 a gente tinha o preconceito à flor da pele e a coisa era dita diretamente, o que às vezes eu acho que é melhor porque você sabe com quem e com o que você está lidando. Hoje, você não sabe com quem está lidando e o que a pessoa realmente pensa. – Isabel pondera ao Teatro em Cena – Depende do diretor ou produtor que está encabeçando o trabalho, e aí você está falando de pessoas e não de um projeto em si. É bem complicado. O que transparece para gente é sempre que “você não é o perfil”. Mas qual é o perfil? Não é dito. A gente não tem acesso. É quase desleal essa disputa.

O perfil limitador e excludente para os negros não é uma questão só teatral, obviamente. Ele se repete também na TV e no cinema. Nos EUA, por exemplo, não houve nenhum ator ou atriz negro indicado ao Oscar deste ano. Foi uma ausência sentida pela imprensa americana e muitos veículos especializados questionaram se David Oyelowo não merecia uma nomeação pelo papel de Martin Luther King Jr. em “Selma”, o filme que conta a história da marcha até Montgomery para assegurar o direito ao voto para os afro-americanos. A Academia só minou as acusações de preconceito quando premiou a música “Glory” (de John Legend e Common) na categoria Melhor Canção Original. A faixa, composta especialmente para “Selma”, serviu de gancho para um discurso contra o preconceito no palco do Hollywood & Highland Center. Na televisão, também não é diferente. Uma matéria do IG do ano passado mostrou que “atores negros ainda vivem personagens pobres e sofredores na TV”. As únicas exceções aconteciam na novela “Geração Brasil”, na qual Luis Miranda, Lázaro Ramos e Taís Araújo faziam personagens bem sucedidos. A série “Sexo e as Nega”, por exemplo, causou polêmica antes mesmo de estrear, só por causa do título. E, atualmente, Camila Pitanga protagoniza a novela “Babilônia” com uma personagem constantemente chamada de favelada. É quando entra o perfil e os pré-conceitos embutidos em sua formação.

Nando Cunha (Foto: Divulgação)

Nando Cunha (Foto: Divulgação)

O ator Nando Cunha chegou a reclamar publicamente quando a TV Globo o dispensou após o sucesso na novela “Salve Jorge”. Ele disse que “se tivesse olho azul, fosse loiro, branquinho, seria muito mais fácil”. Nando acredita que um branco, em sua posição de destaque, teria sido reaproveitado em outras tramas rapidamente e não ficaria desempregado. “Sempre ouvi: ‘esse papel não é para o seu perfil’. Mas quando me dizem um ‘não’, tenho uma força maior. Sonho que no futuro seja mais fácil, que eu não precise me esforçar tanto”.

Mesmo quando o perfil diz “ator negro” ou “atriz negra”, sente-se algum desconforto – como se os artistas não pudessem querer nada além daquilo. Maria Bia conta que às vezes fica constrangida de encaminhar material para o perfil “atriz negra”. Ela sempre pergunta se pode tentar para outros papeis também.

– É que na minha cabeça todo mundo é igual mesmo. Não consigo achar eu ninguém é melhor ou pior do que eu por causa da cor da pele. Isso é loucura! Então eu sou nega metida sim. Me deixa fazer teste para vilã da novela das nove. Me deixa fazer teste para psicopata da série da Glória Perez. Me deixa fazer teste pra mocinha da novela do Walcyr Carrasco. Porque não? Alguém se habilita em me explicar? – ela questiona, em conclusão – Na verdade era isso que eu queria: que chegasse esse dia que a cor da pele não fosse mais tão importante, porque todo mundo ia ser igual. Todo mundo é igual.

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