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Armando Babaioff: múltiplo em Tom

Ator, produtor, tradutor: Armando Babaioff fala sobre experiência múltipla em peça

(Foto: Renato Mangolin)

“Tom na Fazenda”, em cartaz no Oi Futuro Flamengo, é um projeto de Armando Babaioff (de “Na Solidão dos Campos de Algodão”). O ator não apenas protagoniza o espetáculo, que vem recebendo boas críticas, como também foi o responsável pela compra dos direitos, pela tradução e pela produção. “Quando produzo algo é por que me bate uma outra necessidade, a minha necessidade de dizer ao mundo o que eu penso do mundo. É o que me inquieta. Se eu não produzisse essa peça, quem iria fazer? Quem iria me convidar para fazer ‘Tom na Fazenda’? Nessa hora entra o ator produtor. E eu gosto demais de fazer isso”, o artista conta ao Teatro em Cena. Foram dois anos desde a aquisição dos direitos até a conquista do patrocínio e o início do processo de criação. “Apesar de toda dor de cabeça, eu faria tudo de novo”.

Importada do Canadá, a peça conta a história de um homem que descobre, no velório de seu namorado, que a sogra desconhecia o relacionamento dos dois e nem sabia que o filho era gay. Preso em uma fazenda distante, onde mora a família do falecido, ele vive um jogo masoquista com o cunhado, que sabe das mentiras do irmão, e cria uma estranha dependência com aquelas pessoas homofóbicas, que nunca havia visto antes. “O que mais me instigou nesse texto foi a possibilidade de levantar questões mais do que respondê-las, de falar sobre a fragilidade de valores e conceitos que a nossa sociedade ainda se baseia, falar sobre a inabilidade do ser humano diante do incompreensível”, sublinha Babaioff, “a peça fala sobre homofobia, mas também fala de amor, de coragem, da covardia, sobre a verdade e a mentira de ser quem somos”

A dramaturgia, assinada por Michel Marc Bouchard, autor inédito no Brasil, já foi traduzida e montada em vários países. Estreada em 2011, em Montreal, a peça também foi adaptada para o cinema em 2013, com direção do cineasta indie Xavier Dolan. “No sábado retrasado, descontando os fusos horários, a mesma peça acontecia em Kiev, Berlim, Brasil e Venezuela. Para nós, é a confirmação de que precisamos falar sobre isso”, diz o ator, que se viu diante da missão de uma tradução pela primeira vez. Indicado por um amigo, Babaioff leu a peça em inglês e queria mostrar para o diretor Rodrigo Portella (de “Antes da Chuva”), que não domina o idioma. Então, o ator começou a traduzir, especialmente para ele, despretensiosamente.

Em cena com Kelzy Ecard (Foto: Ricardo Brajterman)

– Era um mês de dezembro, eu estava sem trabalho, fui traduzindo bem devagar, escolhendo as palavras e me diverti muito escolhendo os equivalentes em português, os sinônimos e também realizando a adaptação que tive que fazer para retirar referências québécoises. Nesse momento, eu percebi que começava a aparecer algo de autoral, quando tive que decidir sobre o lugar onde a peça se passava. – lembra o artista – Eu traduzi essa peça como ator. Eu lia os diálogos em voz alta, e se gostasse da maneira como a frase era dita eu mantinha. Quando não gostava, eu me debruçava nela até encontrar a melhor maneira de se dizer aquela frase. Ah, e nessas adaptações, eu fiz algumas referências à minha infância e lógico a minha mãe.

Se o trabalho de tradução foi tranquilo e prazeroso, cheio de descobertas criativas, Armando Babaioff não pode dizer o mesmo de produzir e atuar junto. A dobradinha foi um grande desafio. “No meio desse processo eu prometi a mim mesmo nunca mais fazer isso, principalmente por que o Tom me exigia demais – fisicamente e emocionalmente”, desabafa o ator, indicado duas vezes ao Prêmio APTR. Tom é um dos personagens mais complexos de sua carreira. Como o texto, o personagem tem várias camadas e ora fala para si, ora para o namorado morto, ora em diálogo com os vivos e, em muitos casos, tudo isso junto.

– Foi um trabalho de marcenaria, filigrana. O maior desafio foi entender que o Tom existia nos ensaios a medida que o Gustavo Vaz e a Kelzy Ecard descobriam os personagens deles, e isso foi uma das coisas mais bonitas que vivi na minha vida. Como o Tom reage muito a tudo que acontece a sua volta, a cada descoberta dos dois eu crescia junto na descoberta do meu personagem. Foi um processo de criação coletivo. Eu não teria conseguido criar sem eles. São dois dos mais generosos atores com quem trabalhei na vida. – detalha o ator – Num projeto como esse, eu tive a oportunidade de pensar essa ficha técnica que é a mesma de dois anos atrás, e isso é raro. Todo mundo que está nesse projeto foi muito desejado: todos amigos, pessoas que estudaram comigo na Martins Penna e na UNIRIO e que hoje são operários do fazer teatral. Quando li essa peça pela primeira vez, eu lia e os meus personagens se pareciam com a Kelzy Ecard, o Gustavo Vaz e a Camila Nhary. Essa peça não é um projeto apenas, é a concretização de algo há muito desejado.

Armando Babaioff e Gustavo Vaz: parceiros em cena e na produção (Foto: Ricardo Brajterman)

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 15. 110 min. Classificação: 18 anos. Até 14 de maio. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.

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