Plantão

Atriz interpreta travesti no teatro e comenta debate sobre transfake

(Foto: Daniel Lopes / Divulgação)

Poucos meses após o debate acalorado em torno de “Gisberta” e a questão do “transfake”, a atriz Lucilla Diaz, do Grupo Tá Na Rua, entrou em cartaz com “KIM – O Amor É a Tua Cura” no Teatro Municipal Café Pequeno, no Leblon. Ela tem se apresentado de sexta a domingo interpretando uma travesti que opta por se suicidar, em decorrência de toda discriminação e repreensão sofridas. Tecnicamente, o contexto é o mesmo: uma atriz cisgênero em um monólogo sobre uma pessoa trans. Lucilla sabia que estava pisando em território delicado.

– Era meu sonho viver e contar essa história e, nesse sentido, já me sinto realizada, de verdade! Mas depois dessa experiência só voltaria a interpretar uma personagem trans a partir do momento que pessoas trans tenham mais oportunidades. E, claro, se alguma atriz trans me pedir o texto para uma nova montagem, ok, estou aberta a isso. No fundo, a minha sensação já é de missão cumprida. – ela diz ao Teatro em Cena.

Afirmando-se abertos ao diálogo, Lucilla e seu diretor Alessandro Brandão fizeram questão de incluir pessoas trans na ficha técnica. Essa costuma ser uma crítica frequente de ativistas: a exploração de suas narrativas acompanhada de sua exclusão. “Vivemos em um momento no qual se discute muito o transfake. Eu me preocupei muito em não me fechar para essas pessoas pois estamos falando de inclusão, então, nada mais justo que eu inclua essas pessoas que são discriminadas e que ficam orbitando em volta do nosso mercado. Fiz questão de ter uma produtora trans, que é Aurora [Borealis], de ter a Dandara [Vital] dirigindo comigo que é uma travesti, de ter o fotógrafo que é um homem trans, de ter um iluminador que é uma drag queen. Decidimos que todas essas pessoas deveriam estar com a gente, a melhor forma de falar de inclusão é inserindo na realidade essas pessoas que são discriminadas”, enumera Brandão.

(Foto: Divulgação)

“KIM – O Amor É a Tua Cura” é uma livre adaptação de “UNHAS”, texto de Marco Calvani que ela conheceu há oito anos, quando morava em Roma, e que motivou uma grande pesquisa. Com o processo, ela se encantou com as histórias que conheceu, se compadeceu da marginalização sofrida e quis montar o espetáculo em caráter de denúncia. “É quase um grito para a sociedade. O Brasil é o país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo, e esse quadro é cruel e insuportável. Esse é o teatro que eu amo fazer e que acredito seja realmente trans-formador”, sinaliza a atriz, envolvida com esse projeto há cinco anos, “eu quero que a sociedade veja que vem dela a crueldade perante àquelas pessoas, somos nós que impomos que elas precisam ser prostituas, pois eu não vou deixar uma travesti ser professora da escola do meu filho, não quero uma travesti sendo votada e virando vereadora, então a sociedade impõe a travesti esse lugar de exclusão”. O discurso atual de Lucilla é resultado de um laboratório, no qual se aproximou de travestis e mulheres trans e participou do seminário “Transfemininos” para entender a vivência real dessas pessoas. Fugir de estereótipos é uma preocupação contemporânea. Diante de tudo que ouviu, fica impossível para ela se esquivar do tema da representatividade.

– A luta é justa e eu a apoio mas essa luta não é apenas pelos palcos e sim pela inclusão de pessoas trans em projetos que narram vivências trans. É pela inserção nesses espaços e de multi formas. Acredito que o corpo trans tenha que estar presente e, na nossa produção, ele está presente no palco e nos bastidores. Isso é inclusão, e no nosso caso elas são maravilhosas e necessárias. – diz a atriz – Estou aberta ao diálogo, com amor. Eu peço permissão para contar essa história antes de cada apresentação. Tenho muito respeito e amor pela população travestis e trans.

(Foto: Divulgação)

_____
SERVIÇO: sex a dom, 20h. 60 min. Classificação: 16 anos. Até 27 de maio. Teatro Municipal Café Pequeno – Avenida Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon. Tel: 2294-4480.

Comentários

comments

Share: