Rodrigo Monteiro

Bibi Ferreira lamenta a morte de Eva Sopher, classe artística em luto

PORTO ALEGRE – A cultura gaúcha está de luto, artistas de todo o país enviam suas condolências. Faleceu na noite de ontem a Dona Eva Sopher, guardiã eterna do Theatro São Pedro de Porto Alegre.

“Não conheço ninguém, nesse imenso país, que tenha se dedicado ao teatro com tanto afeto e dignidade como Dona Eva, como costumávamos chamá-la. Fez do Theatro São Pedro o prolongamento do seu próprio lar. Porto Alegre, que sempre a reverenciou, perde uma grande pessoa. E nós, do teatro brasileiro, mais ainda.” (Ary Fontoura, ator)

“Dona Eva fez do Theatro São Pedro uma ilha da utopia teatral, um lugar onde o teatro brasileiro continuava luminoso, como nos seus melhores tempos. Quando digo ‘melhores tempos’, falo da relação do teatro com a sociedade, da sua desimportância crescente para a sociedade, consequência de uma ordem injusta que promove um enorme retrocesso cultural. Por isso, era sempre mágico chegar ao Theatro São Pedro. Nele a comunicação entre a cena e a plateia, entre o teatro e a sociedade era sempre intensa, viva. Um teatro não é só arquitetura. Um teatro tem ou não tem “angel”. E Dona Eva era o “angel” do Theatro São Pedro. Conversar com Dona Eva, subir ao palco com ela antes do ensaio, ver ao lado dela o público chegar… Em cada volta ao São Pedro, reencontrar a grandeza da sua amizade… Dona Eva não era atriz, autora, diretora, mas era uma grande artista de teatro. Uma das maiores do Brasil.” (Aderbal Freire-Filho, diretor teatral)

(Foto: Sandro Lupatini)

Eva Sopher assumiu a direção do Theatro São Pedro de Porto Alegre em 1975 a convite do Governador Sinval Guazzelli, nos anos de chumbo da ditadura. Ela tinha sido antes a grande responsável pelos concertos da PróArte Sociedade de Artes, Ciências e Letras, uma entidade sem fins lucrativos que, reavivada por Sopher nos anos 60, trouxe grandes nomes da música internacional para a capital gaúcha. Valem citar alguns deles: Jean-Pierre Rampal, Pierre Fournier, Narciso Yepes, Mauricio Kagel, o I Musici, a Orquestra de Câmara de Jean François Paillard, Sir John Barbirolli e a Orquestra Hallé, a Orquestra de Câmara de Moscou, e a Orquestra Sinfônica de Israel, regida por Zubin Mehta.

“Adeus, Dona Eva, descanse em paz da vida intensa, rica, profícua e importante que foi a sua. Obrigado eu, obrigados nós todos da cultura gaúcha, da cultura brasileira pelo muito que a senhora fez por nós. Não sei como vou conseguir, na minha próxima ida ao Theatro São Pedro, adentrar no foyer sabendo que nunca mais encontrarei ali, esperando por nós, o seu sorriso, a sua dignidade. Nesse dia triste, nós a perdemos Dona Eva, mas seu legado continuará sempre. Nós o manteremos vivo e forte, pode confiar. Porque faz parte de nós. A senhora faz parte de nós.” (Luís Arthur Nunes, diretor teatral)

“Dona Eva não restaurou somente o Theatro São Pedro, restaurou a dignidade de fazer teatro no sul do Brasil.” (Julio Conte, diretor teatral e dramaturgo)

“Dona Eva Sopher despede se de nós no mesmo dia em que Nico Nicolaiewsky completa quatro anos de sua despedida. A nossa mais profunda reverência e nosso reconhecimento ao seu legado a todas as gerações vindouras. Tanto em nossa histórias pessoais quanto na história de nosso país, será para sempre a Nossa Senhora das Artes.” (Hique Gomez, músico do espetáculo “Tangos e Tragédias”)

O Theatro São Pedro, inaugurado em 27 de junho de 1858, foi palco de inúmeros acontecimentos marcantes na política e na cultura local. Em 1973, foi fechado devido ao péssimo estado de conservação em que o prédio já centenário se encontrava. Não se tratava de uma reforma ou de uma restauração, mas de uma reconstrução. Para ter acesso a mais fundos que favorecem a obra, criou-se a Fundação Theatro São Pedro em 18 de março de 1982, tendo Dona Eva como presidente. A reabertura aconteceu no dia 28 de junho de 1984, com as apresentações Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e com o espetáculo gaúcho “O julgamento do Cupim”, do Grupo Cem Modos. O musical “Piaf”, dirigido por Flávio Ragel e com Bibi Ferreira e grande elenco fez 41 apresentações todas lotadas.

“Uma das principais mulheres de teatro do Brasil, Dona Eva Sopher, nos deixou. Uma guerreira que fará muita falta ao Theatro São Pedro, ao teatro gaúcho e ao teatro brasileiro. Deixou como legado a força e a potência do Theatro São Pedro. Obrigado por tudo que a senhora fez pelo teatro, exemplo de vida e trajetória para o teatro brasileiro.” (Eduardo Barata, presidente da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro)

(Foto: Divulgação)

“Minha escola maior! Uma mulher que lutou muito pra manter viva a arte e um dos maiores templos do nosso país, nosso Theatro São Pedro! Com muito pulso, muita garra e muito amor, deveremos sempre nosso mais sincero muito obrigada! Dia muito triste pois perdemos um ícone da nossa história! (Letícia Vieira, produtora cultural)

De descendência judaica, Eva Margarete Plaut nasceu em 18 de junho de 1923, filha do banqueiro Max e da dona de casa Marie Plaut em Frankfurt no centro-oeste da Alemanha. Com a ascensão de Hitler e do partido nazista ao poder em 1933, os bens da família foram cada vez mais confiscados até que suas vidas começaram a ser postas em perigo. Para fugir da perseguição, os Plauts emigraram para o Brasil, chegando aqui em 1936, radicando-se primeiro em São Paulo e depois no Rio de Janeiro. Em 1943, casou-se com Wolfgang Klaus Sopher, de quem ganhou o novo sobrenome. Com ele e com suas duas filhas, Dona Eva veio morar em Porto Alegre, trazendo do Rio de Janeiro os laços artísticos e culturais feitos através da ProArte.

“Dona Eva foi um pilar fundamental para a cultura brasileira. Deixa um legado extraordinário e de imensa responsabilidade sobretudo para aqueles que a conheceram e tiveram a oportunidade de conviver com sua lucidez, coerência e bravura. Perco uma amiga que me ensinou sobre generosidade, pois sobreviveu à guerra, amou intensamente seus afetos, e ainda foi capaz de reerguer um teatro e dá-lo de presente ao mundo.” (Valencia Losada, produtora cultural e diretora artística do Theatro São Pedro até 2015)

“Tive a oportunidade de conviver com Dona Eva como público, frequentador que sempre fui do São Pedro. Como artista, sempre recebido com sua tradicional gentileza, das vezes em que me apresentei no palco do Theatro. Mas, nos últimos anos como Diretor Artístico, pude ficar mais próximo e testemunhar a sua enorme energia, seu sorriso constante, sua afetuosidade, exemplo para todos nós que com ela privavam. Com a mesma disposição que restaurou o Theatro São Pedro, que estava em péssimas condições, idealizou o projeto do Multipalco e a sua conclusão se dedicava, sem abandonar os cuidados com o Theatro. Esta foi a tarefa que tomou pra si e a perseguia com obstinação. O seu amor à cultura foi testemunhado por várias gerações, outra contribuição superior que certamente ficará gravada no coração e na mente das pessoas de boa vontade. Cabe agora a todos nós, preservar esta memória, com humildade, para que continue dando frutos. Certamente este será o grande combustível para a nossa peleja. Descanse em paz Dona Eva.” (Dilmar Messias, atual diretor artístico do Theatro São Pedro)

Foram muitas as homenagens que Dona Eva recebeu ao longo de sua vida. Podem-se ressaltar os títulos de “Personalidade do Ano” de Porto Alegre e “Cidadã Honorária do Estado” e “Medalha do Mérito Farroupilha” do Rio Grande do Sul. Em 1970, na Alemanha ela foi condecorada pelo presidente daquele país por promover difusão cultural entre Brasil e Alemanha com a Bundesverdienstkreuz Erster Klasse (Cruz de Honra ao Mérito da República Federal da Alemanha, Primeira Classe). Recebeu também a Ordre des Arts et des Lettres em 1978 (Medalha de Letras e Artes na França) e o Prêmio “Preservação da Memória” no Brasil em 1975. Em 2015, foi agraciada com a Medalha Goethe, concedida pelo governo alemão a personalidades que se destacaram de maneira especial na promoção do intercâmbio cultural internacional.

De todos os presentes, talvez aquele de que mais Dona Eva se orgulhava era o fato de que o Theatro São Pedro, desde a reabertura em 1984, jamais foi pichado. Isso mostra o carinho do povo gaúcho pela pérola que Dona Eva salvou da demolição.

(Foto: Adriana Franciosi)

“Dona Eva Sopher, alma do Theatro São Pedro, Porto Alegre, um dos mais bonitos do Brasil. O amor que ela tinha pelos artistas pode ser comprovado nos camarins desse Theatro. Nenhum outro teatro brasileiro tem camarins tão bonitos, práticos e confortáveis. Obrigado, dona Eva, por nos tratar como reis! Descanse em paz!” (Paulo Betti, ator)

Em 2003, iniciaram-se as obras do Multipalco, projeto de com mais de dezoito mil metros quadrados com cinco andares exclusivos para a prática, a pesquisa, a produção e para a realização em artes cênicas (e mais três andares de estacionamento). É maior do que o Lincoln Center em Nova Iorque! Metade da obra já está pronta, tendo sido financiada pelo governo em parceira com a iniciativa privada através de leis de incentivo fiscal. O fim das obras precisa de em torno de 30 milhões de reais, mas Dona Eva, ao falar sobre isso em entrevistas, gostava de lembrar: “O Bradesco, para colocar o nome no teatro em São Paulo, puxou do bolso R$ 40 milhões. Não para fazer o teatro, mas para botar o nome. Em Natal, as Lojas Riachuelo puxaram mais de R$ 50 milhões para dar o nome ao teatro, dentro de um shopping”. O São Pedro e o Multipalco terão os nomes de todos os gaúchos.

Pelo falecimento de Dona Eva Sopher, o Governador José Ivo Sartori decretou luto oficial no Estado do Rio Grande do Sul por três dias. O corpo da grande dama foi velado nesta quinta-feira, 8 de fevereiro, no Theatro São Pedro, com a presença de diversas personalidades importantes. A homenagem artística foi prestada pelo ator e músico Hique Gomez, que recitou um poema e cantou uma linda canção. Ao final da cerimônia, ouviram-se as três batidas de Molière, como um sinal de que, se aqui um lindo espetáculo está acabando, em outro lugar ele há de começar. Foi um momento emocionante.

No Brasil, pelas redes sociais, toda a classe artística mas também o público amante do teatro está manifestando suas condolências à família e à cultura gaúcha. Aqui trouxemos algumas delas. A grande estrela BIBI FERREIRA, que esteve no Theatro São Pedro na reabertura, mas que já conhecia Dona Eva de décadas anteriores, disse-nos com exclusividade algumas palavras, lamentando a morte da amiga:

“Eva sempre foi uma querida amiga de muitos e muitos anos. Embora seu trabalho se concentrasse no Rio Grande do Sul, seu exemplo e sua história a transformaram numa personalidade nacional das nossas artes. Tive o prazer e a honra de estar ao seu lado em muitos momentos do Theatro São Pedro e do Multipalco. Eu e o Paulo Autran, que nos sentíamos padrinhos dos projetos da Eva, sempre falávamos do prazer de estarmos ao lado dela, dos seus importantes e necessários esforços na construção de uma cena cultural de inestimável valor para a cultura rio-grandense e brasileira. Eva deixa um vácuo. Exemplo de luta e perseverança. Saudades.”

Obrigado, Dona Eva! Descanse em paz!

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