Bilac Vê Estrelas põe plateia para cantar músicas brasileiras inéditas – Teatro em Cena
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Bilac Vê Estrelas põe plateia para cantar músicas brasileiras inéditas

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A adaptação para o teatro musical do livro “Bilac Vê Estrelas”, de Ruy Castro, resulta em um espetáculo extremamente original e brasileiro. Ele alcança uma linguagem própria dentro deste segmento que, nos últimos anos, se tornou a galinha dos ovos de ouro das grandes salas de teatro. O texto é 100% nacional e as músicas são todas inéditas, passando por xotes, lundus, maxixes e até uma canção com potencial para marchinha de carnaval. Bem intencionada, a peça vai além de sua encenação, cumprindo uma missão artística: incentivar outros dramaturgos a escreverem espetáculos autorais e criativos (lê-se não biográficos) para o teatro musical brasileiro.

(Foto: Leo Aversa / Divulgação)

(Foto: Leo Aversa / Divulgação)

Em “Bilac Vê Estrelas”, a missão coube às dramaturgas Heloisa Seixas e Julia Romeu e ao diretor João Fonseca, que, juntos, já haviam montado outra adaptação de Ruy Castro nos palcos: “Era No Tempo do Rei”. O resultado diverte. Na história, ambientada no início do século XX no Rio de Janeiro, o poeta Olavo Bilac e seu amigo José do Patrocínio têm que enfrentar a cobiça de uma espiã portuguesa e a inveja do Padre Maximiliano. Aliados, eles querem roubar um projeto de dirigível criado por Patrocínio e vendê-lo por uma fortuna para os irmãos Wright. O programa da peça diz que “se fosse um filme, seria uma chanchada, uma comédia pastelão”. Mas é possível esperar bem menos (ou bem mais). O humor é ingênuo (refletindo nas coreografias de Sueli Guerra), quase provinciano, e o resultado não é uma plateia às gargalhadas, como pede um pastelão. É uma risadinha aqui, outra acolá, nada sobressaltado. Apesar de apoiado na comédia, o musical não possui cenas extremamente engraçadas que matem de rir. São pequenos momentos dentro de situações e conflitos maiores. Diria que é um musical bem humorado.

O que chama atenção mesmo são as composições, com letra e música de Nei Lopes. São todas extremamente criativas e divertidas, realmente cheias de brasilidade, e com refrões, como se diz, “chiclete”. É fácil o público se pegar cantando junto músicas que acabou de conhecer. No número de “Canção Cigana”, a atriz Alice Borges (de “Timon de Atenas”), que interpreta a cartomante Madame Labiche, de fato incita a plateia para cantar – e é bonito vê-la colocando por terra os argumentos de quem diz que “o público não está preparado para um espetáculo com 100% de músicas autorais”. Outros bons momentos são “Sassaricos na Porta da Colombo”, “Solilóquio de Eduarda” (solo de Izabella Bicalho, de “Era No Tempo do Rei”) e “O Poeta e a Palavra” (belamente encenado por Reiner Tenente, de “O Grande Circo Místico”). Há um número, no entanto, bastante equivocado, quando a espiã e o padre interpretam uma música que nada mais é do que a versão cantada da cena falada que acabaram de fazer. Não justifica.

André Dias é Olavo Bilac (Foto: Leo Aversa / Divulgação)

André Dias é Olavo Bilac (Foto: Leo Aversa / Divulgação)

Fora isso, há a interpretação do protagonista André Dias (que também esteve em “Era No Tempo do Rei”), acertando em mais um trabalho. Ele ganha nos detalhes: trejeitos, postura, olhares (o personagem é zarolho) e, claro, na interpretação de cada música. Quem tem a oportunidade de vê-lo também em “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical” (também de João Fonseca) comprova sua versatilidade.

Os cenários de Nello Marrese são simples, mas dignos. Cabem aos figurinos de Carol Lobato e à luz de Daniela Sanchez a função de caracterizarem cada ambiente e momento da história: missão cumprida.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sex a dom, 19h. Apresentações extras às 16h: 24/1, 31/1, 7/2 e 21/2. R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). 100 min. Classificação: 12 anos. Até 22 de fevereiro (com recesso no Carnaval). Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.

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