+ TeatroComportamento

Biografias musicais e experimentações são tema de seminário carioca

(Foto: Leonardo Torres)

(Foto: Leonardo Torres)

O segundo dia do II Seminário Carioca de Teatro Musical, promovido pelo Centro de Estudos e Formação em Teatro Musical (CEFTEM), na quinta (24/7), foi marcado pelo pensamento sobre o trabalho do dramaturgo. A mesa de convidados no Theatro Net Rio, em Copacabana, já apontava algumas problemáticas dessa questão: estavam a experiente Karen Acioly (de “Fedegunda”); os jovens Tiago Rocha e Tauã Delmiro, com textos ainda não montados; Rodrigo Nogueira (de “Rock in Rio – O Musical”) e Patrícia Andrade (de “Elis, a Musical” e “Cássia Eller – O Musical”), de textos encomendados por grandes produtoras. Rodrigo e Patrícia foram convidados para escrever grandes produções, sem experiência prévia. Os dois têm formação em jornalismo, e nenhum deles tinha escrito nenhuma peça antes. Ela veio de biografias bem sucedidas no cinema – “Dois Filhos de Francisco” e “Gonzaga – De Pai Pra Filho” – e ele de trabalhos como ator. O que é esse painel senão indicador de um déficit de dramaturgos especializados em teatro musical?

“Não me considero dramaturga. Nunca escrevi nada autoral para o teatral. Os dois musicais tinham início, meio e fim prontos e conhecidos do público, o que também é difícil de trabalhar. Mas não me considero dramaturga. Estou dando os primeiros passos nisso”, disse Patrícia, com franca sinceridade. Seu próximo trabalho será “Wilson Simonal – O Musical” – outra biografia, que está em fase de seleção de elenco. As divagações sobre biografias musicais, aliás, permearam o evento, que contou ainda com palestras da professora Beatriz Lucci e da pesquisadora Tânia Brandão na segunda parte. “Tanto a Cássia quanto a Elis não eram compositoras. É ainda mais difícil trabalhar com músicas conhecidas, que não podem ficar de fora do espetáculo, mas que não necessariamente tem a ver com a história de vida da artista”, observou a profissional.

Tiago Rocha, Karen Acioly e Tauã Delmiro (Foto: Leonardo Torres)

Tiago Rocha, Karen Acioly e Tauã Delmiro (Foto: Leonardo Torres)

No caso dela, particularmente, deve-se lidar ainda com a aprovação da família. Depois que a produção adquire os direitos e ela escreve o texto, este é submetido à opinião dos parentes dos artistas retratados. Questionada pela plateia, Patrícia explicou porque “Elis, a Musical” pareceu ocultar e maquiar tantos pontos da trajetória da cantora. “A família não proibiu ou interferiu de jeito nenhum, mas há uma questão delicada envolvendo o namorado e o legista. Realmente tivemos cuidado, porque ela não era essa doidona”, defendeu. “No caso da Cássia, ela era aquilo. Na Elis, focamos no fato de que ela só era feliz cantado”.

Biografia musical, coincidência ou não, foi um dos pontos tocados na apresentação de “O Anti-Musical, o Musical”, de Tauã Delmiro. Cada autor levou para o seminário parte do seu elenco para performances de números de suas peças (em breve os vídeos estarão aqui no site). No espetáculo do Tauã, ainda em desenvolvimento, atores têm preconceito com musicais e fazem críticas ao gênero. É o caso do Rodrigo Nogueira, que nunca gostou da linguagem do teatro musical, e passou a trabalhar com ela inesperadamente, a convite do diretor João Fonseca. “Eu achava muito cafona, ridículo. Não entendia como podiam fazer aquilo ainda em 2012”, disse o ator e dramaturgo, que depois do comercial “Rock in Rio” escreveu o experimental “Vida, o Musical”. “Esse é resultado de duas pesquisas, de forma e conteúdo, tentando mesclar o musical com minha experiência em outras vertentes teatrais, como o teatro contemporâneo”.

Rodrigo Nogueira (à direita) com parte do elenco de "Vida, o Musical": Olívia Torres e Léo Bahia (Foto: Leonardo Torres)

Rodrigo Nogueira (à direita) com parte do elenco de “Vida, o Musical”: Olívia Torres e Léo Bahia (Foto: Leonardo Torres)

Giulianna Farias (à esquerda) foi assistir Vinicius Teixeira e Gabi Porto, que mostraram número de "O Anti-Musical, o Musical" (Foto: Leonardo Torres)

Giulianna Farias (à esquerda) foi assistir Vinicius Teixeira e Gabi Porto, que mostraram número de “O Anti-Musical, o Musical” (Foto: Leonardo Torres)

Novas experiências são sempre bem vindas, e é o que Karen Acioly busca fazer há décadas. “Pra mim, é esquisito falar em musical brasileiro agora, porque a gente sempre fez”, opinou a dramaturga, crítica da técnica do belting. “Me dá nervoso aquelas pessoas paradas tentando alcançar a nota. Não se usa mais isso. Sei que muitos descordam, mas eu penso assim”. Sua maior preocupação é o público infantil, para quem gosta de desenvolver espetáculos com temas delicados – às vezes desagradando os pais. “Temos que pensar sobre a infância para formar público, fomentar. Não acredito no teatro demonstrativo, seja no musical ou não”.

As reflexões complementam as do primeiro dia do seminário, com os atores Gustavo Gasparani, Soraya Ravenle, Emilio Dantas e Gabriel Stauffer, além de produtores renomados. Na sexta (25/7), o evento termina, com participação do diretor João Fonseca.

Comentários

comments