Blank: Caio Blat se põe à prova no Festival de Curitiba – Teatro em Cena
Especial Festival de Curitiba

Blank: Caio Blat se põe à prova no Festival de Curitiba

(Foto: Lisa Sumizono)

Um dos destaques da 26ª edição do Festival de Curitiba, que está com mais de 350 atrações neste ano, é “Blank”, espetáculo performativo do iraniano Nassim Soleimanpour. A cada noite, um ator diferente sobe no palco sem nunca ter ensaiado ou sequer lido o texto. Diante da plateia, lê a peça experimental pela primeira vez, com a missão de preencher os espaços em branco – daí o título. Eduardo Moscovis (de “Um Bonde Chamado Desejo”) e Débora Bloch (de “Os Realistas”) aceitaram o desafio nas primeiras noites. Camila Pitanga (de “O Duelo”) cumprirá a proposta no dia 7, Julia Lemmertz (de “A Tragédia Latino-Americana”) no dia 8 e Gregorio Duvivier (de “Portátil”) no dia 9, sempre no Teatro Bom Jesus. O Teatro em Cena assistiu à sessão conduzida por Caio Blat (de “A Tragédia Latino-Americana”) em um domingo (2/4) com pessoas na porta em busca de ingressos sobressalentes.

Dentro da sala, ninguém sabe o que vai acontecer: nem o ator, que não leu o texto; nem o público, que tem uma sinopse vaga que não dá conta do que é; e nem mesmo a produção, que não sabe como aquilo se desenrolará naquela noite. “Obrigado por terem vindo, mesmo sem ter a menor noção do que vai acontecer aqui”, diz Caio antes de começar a ler o texto que tem em mãos, “o pior pesadelo do ator é dar branco, então esse é um desafio”. Depois que começa a leitura, ele tem que dizer “isso fui eu que incluí” sempre que fala algo que não está escrito. Para aquecer, “Blank” propõe um jogo à plateia: um espectador voluntário tem direito a três tiros no ator – cada tiro é uma palavra, que Caio tem que dizer o que vem à mente.

Felicidade? “É uma ilusão”
Paixão? “Já passou”
Família? “É uma felicidade possível”

(Foto: Lisa Sumizono)

Seguindo as instruções dos papéis que tem em mãos, Caio Blat preenche lacunas, revelando um pouco de si, até que descobre que não é ele o autor da noite de “Blank”, e sim o público. Juntos, os espectadores gritam palavras e informações para montar uma biografia fictícia de um dramaturgo e, depois, alguém é convidado a subir no palco para “virar personagem”. Atentos, todos – o espectador no palco e os outros nas poltronas – trabalham juntos de Caio para que o espetáculo aconteça, sem saber o que será proposto na próxima página. São várias páginas. Caio, meio tímido sem um texto decorado, ganha suporte do espectador, extrovertido e com piadas afiadas. Parecem formar a dupla perfeita. “Por que vocês vieram essa noite? Por que eu vim, sem saber o que fazer? Porque essa é uma história de vida, e na vida não existe ensaio”, a dramaturgia filosofa. “Nós todos estamos presentes aqui”, completa Caio, “e isso é raro. Isso fui eu que incluí”. Todos riem.

Nassim Soleimanpour, o autor iraniano, escreveu essa peça de lacunas em branco quando entendeu que as melhores histórias eram as dos outros, e não as suas. Decidiu usar o espaço que tinha no teatro para dar luz a essa diversidade de biografias ricas, que se escondem sob a luz apagada na plateia. Em “Blank”, a cada noite, tudo muda, e novas histórias são contadas. Teatro se aproxima da performance ao se apoiar no imprevisível e no risco.

(Foto: Lisa Sumizono)

TEATRO EM CENA – Como você se sentiu com essa experiência?
CAIO BLAT – Eu fiquei muito inseguro o tempo inteiro, me julgando, porque você se sente responsável por fazer acontecer a coisa, por divertir as pessoas e por tirar o melhor do texto que está conhecendo na hora. É uma situação difícil, mas eu me diverti muito também. O público me ajudou muito, e encontrei personagens excelentes no meio da plateia, que salvaram a noite (risos).

Quando recebeu o convite, o que te levou a aceitá-lo?
Acho que o desafio mesmo, a brincadeira, o jogo, estar presente. Em toda peça que você faz, fica buscando mecanismos para estar sempre presente e, nesta, não tem outro jeito: você tem que estar disponível.

Agora que terminou, ficou algum aprendizado?
É uma experiência única a que acontece em uma noite dessas. Nunca vai se repetir. Nunca se repete o ator, nem a plateia. Acho que é isso que o autor quis mostrar: que cada noite é única, e que a dramaturgia está sempre em aberto, em branco.

“Blank” você não pode mais fazer. Mas tem outros projetos no teatro?
Estou em cartaz com a Cia. Ultralíricos, do Felipe Hirsch. A gente tem viajado com “A Tragédia Latino-Americana” e “A Comédia Latino-Americana”. A gente acabou de ganhar o Prêmio Shell e o Prêmio Bravo, então deve continuar viajando muito ainda. A gente tem o “Puzzle” também, e projetos para fazer outras peças.

*O Teatro em Cena viajou a convite da produção do festival.

(Foto: Lisa Sumizono)

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