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Cidade Correria “mexe com a própria ideia de teatro político”, diz diretora

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Não é história, é invasão. Transbordamento das urgências cotidianas. Contradições. Alegrias. Delírios. Feridas. Potências. Cidade inventada. Cidade maravilhosa. Cidade impedida. Cidade Carnaval. Cidade invenção. Cidade revolução. Esses são alguns dos termos que os diretores utilizam para definir o espetáculo que chega ao Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, no próximo sábado (7/5): “Cidade Correria”, do novíssimo Coletivo Bonobando, formado por artistas de diversas partes da cidade. O elenco é todo de “territórios populares”, como Brás de Pina e Vigário Geral, em resumo, de locais fora da Zona Sul. “Dos 10 atores, só dois são brancos, o que por si só já é interessante. Eles não querem ocupar o lugar do ‘ator negro’. Querem ser reconhecidos como atores e fazer quaisquer papéis. Na peça, é isso. É o teatro contemporâneo”, diz Adriana Schneider, que divide a direção artística com Lucas Oradovschi, Ricardo Cotrim, Mariana Mordente e Cátia Costa. “O Espaço Sérgio Porto é um lugar nobre, o maior espaço para experimentação e teatro de pesquisa na cidade. Estamos muito felizes de levar esse trabalho para lá e poder dialogar com um novo público”.

Para entender melhor o “Cidade Correria”, é necessário dar alguns passos para trás e ir à raiz do projeto. Ele é fruto de uma residência artística de dois anos na Arena Carioca Dicró, que é gerida pelo Observatório das Favelas, na Penha. Fundador do Grupo Teatro na Laje, formado por alunos e ex-alunos do complexo de favelas da região, o pernambucano Antonio Veríssimo Junior convocou a colaboração dos outros diretores para o processo e, juntos, chegaram ao elenco, com atores do entorno e de outras partes da cidade. A residência significou encontros diários, com workshops, aulas e treinamentos diversos – como de máscaras balinesas, que, apesar de não estarem em cena, foram um dispositivo de criação importante. Com gente se deslocando diariamente de todos os cantos do Rio para esses encontros, falar da cidade foi uma escolha natural. Fazia sentido – e precisava ser feito. Assim nasce o espetáculo, fruto de trabalho coletivo, a partir de experiências próprias dos artistas, filmes, contos de Mia Couto e João do Rio, imagens e situações cotidianas.

(Foto: Maíra Barillo)

(Foto: Maíra Barillo)

Em março, quando parte da classe artística organizou o evento Teatro Pela Democracia (contra o impeachment), na Fundição Progresso, Adriana Schneider – representante do movimento Reage, Artista – foi uma das convidadas para discursar. Na sua vez, improvisou e cedeu o microfone para o professor Antonio Veríssimo, com a justificativa de “que é uma voz importante, por estar atuando em outras áreas da cidade”. E o evento levou uma sacudida. Em sua fala, Veríssimo chamou a atenção para a falta de representatividade da periferia naquela reflexão política na Lapa: “a cena carioca é bem maior do que isso que está aqui, bem mais plural, bem mais diversa”. “Cidade Correria” é a síntese dessa afirmação, trabalhando com a subjetividade das favelas em um mix de artistas de diversas realidades, e levando outra perspectiva para a cena teatral. “Esse espetáculo mexe com o própria ideia de teatro político”, observa Adriana.

As entrevistas e o maior espaço para divulgação vieram agora, com a temporada no Espaço Sérgio Porto, mas o espetáculo existe desde o ano passado. Estreou na Arena Carioca Dicró, com o público do Vigário Geral enchendo o local, e percorreu todas as outras arenas municipais. A resposta dos espectadores foi ótima, mas, por estar “fora do eixo”, não foi muito noticiado pela mídia – o que atesta a desatenção com a produção periférica. Ir para a Zona Sul tem também esse gostinho de poder ser visto e democratizar o espaço. “Da mesma maneira que os espetáculos criados a partir de uma mentalidade da Zona Sul vão para as arenas e lonas, um espetáculo criado na arena também vem para o Sérgio Porto. É importante que as pessoas vejam”, comenta a diretora artística. “Ele agrada criança, jovem, velho, todo mundo. São reflexões importantes, mas tem muito humor. A gente fez questão de fazer algo compreensível para quem não tem o hábito de ir ao teatro, e também artístico para o público de artistas, de pessoas que frequentam teatro, estudantes, universitários, intelectuais, etc”. Durante o processo de construção e de ensaios, alunos da rede pública foram convidados para assistir e compartilhar suas observações. Um comentário que marcou Adriana Schneider foi de um adolescente, que associou a linguagem cênica fragmentada, não-linear, com as redes sociais: “Parece Facebook”. Melhor assimilação não poderia haver.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Para discutir a cena contemporânea, o Coletivo Bonobando – que, além dos diretores, é integrado pelos atores Daniela Joyce, Hugo Bernardo, Igor da Silva, Jardila Baptista, Karla Suarez, Livia Laso, Marcelo Magano, Patrick Sonata, Thiago Rosa e Vanessa Rocha – propõe uma série de atividades. Além da temporada do espetáculo, o Espaço Sérgio Porto terá seu muro grafitado e receberá uma exposição de artes visuais sobre o direito à cidade e ao uso de seus espaços. A programação também inclui um intercâmbio entre coletivos e grupos formados por jovens da região metropolitana e a mesa “Comicidade na Cidade”, com Leonardo Lanna (do site Sensacionalista) e Georgiana Góes (do programa “Tá no Ar”). Tudo com entrada franca. De fato, não será uma história: será uma invasão.

SERVIÇO – Ocupação Cidade Correria

  • Apresentações “Cidade Correria”: sábados e segundas de maio (às 21h) e domingos às 20h. De 07 a 30 de Maio.
  • Exposição “Na Correria” e inauguração da grafitagem: abertura 7 de maio às 19h. Visitação de Quarta a Segunda, das 14h às 22h.
  • Música “Vertin no show Para voz”: 12 de maio às 20h30.
  • Sarau “Palco de Gala”: 13 de maio às 20h.
  • Intercâmbio “Trocas Coletivas”: 18,19 e 20 de maio (qua e qui de 15h às 19h e sex de 15h às 22h).
  • Mesa “Comicidade na Cidade”: 27 de maio às 20h.

Ingressos

  • Espetáculo e Música (show): R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia).
  • Exposição, Sarau, Intercâmbio e Mesa: entrada gratuita.

Classificação: 12 anos / Exposição e show de música: livre

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Espaço Sergio Porto: Rua Humaitá, 163 – Humaitá. Tel: 2535-3846.

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