Comportamento

Clareamento de Dona Ivone Lara em musical gera polêmica antes da estreia

Fabiana Cozza vai dar vida a Dona Ivone Lara em musical (Fotos: Kriz Knack / Wilton Montenegro)

Depois da Bahia sem negros da novela da Globo “Segundo Sol”, a indústria cultural dá mais uma prova de que não está em sintonia com as discussões acerca da representatividade, perdendo chances de avançar. A Fato Produções Artísticas anunciou nesta semana o nome da artista escolhida para protagonizar o musical biográfico de Dona Ivone Lara no teatro: Fabiana Cozza (foto acima). Com isso, o espetáculo está recebendo críticas antes mesmo da estreia. A página do musical no Facebook está cheia de avaliações negativas (veja aqui). O motivo: o clareamento de Dona Ivone Lara. Detalhe: o espetáculo se chama “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”. A estreia ocorrerá em 22 de março de 2019 no Teatro Sérgio Cardoso em São Paulo, com previsão de temporada no Rio de Janeiro depois.

A página “Gente Preta”, que luta contra o racismo, escreveu: “Dona Ivone Lara, MULHER PRETA, enfermeira que lutou contra o racismo nos manicômios, MULHER PRETA, cantora, sambista, sempre presença de exemplo para mulheres pretas na luta contra o machismo e racismo vai ser interpretada por uma branca/beje no teatro! A branquitude não toma vergonha na cara nunca?”. Na mesma linha, o site Comunicação Colorida postou um artigo intitulado “Corpus pretos: a higienização chegou aos palcos dos musicais”, no qual ressalta: “não precisamos criticar a atriz selecionada para interpretar Dona Ivone Lara. Não sejam cruéis e patéticos. Nosso alvo é outro. O patriarcado racista merece ser questionado e confrontado”.

Fabiana Cozza é uma cantora com cinco álbuns lançados, e já cantou e gravou com a própria Dona Ivone Lara (vídeo acima). Também recebeu o prêmio de melhor cantora de samba na 23ª edição do Prêmio da Música Brasileira, o que foi entendido como mérito para o papel, apesar de não corresponder ao perfil. Ao jornal Extra, Fabiana disse: “sempre fui uma pessoa muito ligada ao repertório negro, sou uma pesquisadora da área e tem quem não me veja como mulher negra. Mas a questão do racismo não é só fenótipo, é também estrutural”. De acordo com a publicação, a caracterização não pretende “aproximar tons de pele”. Ela vai dar vida à homenageada, que morreu em abril, na fase adulta – durante todo o segundo ato.

De acordo com a própria produção, Fabiana foi convidada para o elenco. Foi uma indicação da nora de Dona Ivone Lara. Não teve que fazer teste. As audições estão acontecendo nesta semana para seleção do restante do elenco. Nomes como Adriana Lessa (de “Musical Popular Brasileiro”), Isabel Fillardis (de “Lapinha”), Maria Ceiça (da novela “Os Dez Mandamentos”) e Ludmillah Anjos (de “Ghost”) participaram dos testes e aparecem em fotos divulgadas pela fanpage do espetáculo, idealizado por Jô Santana, com texto e direção de Elísio Lopes Jr. (de “A volta de Tia Má com a Língua Solta”) e direção musical de Rildo Hora (de “Andança – Beth Carvalho, o Musical”).

(Foto: Bruno Lemos)

(Foto: Bruno Lemos)

(Foto: Bruno Lemos)

(Foto: Bruno Lemos)

OUTROS CASOS

Não é a primeira vez que “clareamentos” em obras artísticas chamam a atenção do público. Em 2015, o ator Leandro Melo foi alvo de críticas por fazer um espetáculo sobre Madame Satã, negro, e usar “blackface” em uma foto de divulgação. Na mesma época, a novela “Os Dez Mandamentos” retratou o Egito Antigo com atores brancos ou de pele clara, seguindo um estereótipo criado por Hollywood. Um ano antes, o filme “Êxodo: Deuses e Reis” teve o inglês Christian Bale como Moisés e o australiano Joel Edgerton como Ramsés. Mas, na hora de escalar os figurantes para os papéis de guardas, a produção optou por negros.

Em 2016, o mesmo debate cercou o filme “Nina”, sobre Nina Simone, interpretada pela atriz Zoe Saldana, que teve que usar prótese no nariz e maquiagem para escurecer a pele. Nesses caso, como o de Dona Ivone Lara, a discussão fica mais fervorosa por se tratar de uma pessoa que realmente existiu, e não um personagem fictício. Na ocasião, o presidente do estúdio disse: “a coisa mais importante é que a criatividade ou qualidade da performance nunca deve ser julgada em termos de cor, etnia, ou aparência física”.

Zoe Saldana caracterizada no filme “Nina” (Foto: Reprodução)

Parece um momento importante para pesquisar termos como blackface, racismo, whitewashing, colorismo e representatividade. Vai fazer bem para todo mundo.

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