+ TeatroColuna Social

Claudio Botelho publica carta aberta com pedido de desculpas: “errei”

Três dias após a interrupção de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” em Belo Horizonte, o ator e diretor musical Claudio Botelho reativou seu perfil no Facebook e publicou uma carta aberta com um pedido de desculpas. Ele lamenta a divulgação do áudio de sua discussão com a atriz Soraya Ravenle no camarim (“um ato criminoso”, ressalta), mas se desculpa com todos que se ofenderam com o conteúdo, ouvido mais de 270 mil vezes em 24 horas. Parte da carta é direcionada especificamente ao Chico Buarque.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

O compositor retirou a concessão de direitos para uso de suas músicas para Möeller e Botelho, logo após o incidente. No palco do Sesc Palladium, em Belo Horizonte, Claudio chamou Lula de ladrão e Dilma Rousseff de ladra à beira do impeachment. Chico, como se sabe, é contra o impeachment e fiel apoiador do governo do PT. Inicialmente, foi esse confronto de ideias que gerou furor em parte da plateia e depois com militantes na Internet. “Errei. Erro muito. Sou humano, mas isso não me desculpa. Aos 51 anos, sendo também autor e sendo um homem de história longa no teatro, eu tinha por obrigação preservar o autor e sua obra, não permitir que nada partindo de mim resvalasse nele, seja da forma que fosse”, diz Claudio.

Repercussão: leia o que os artistas estão falando

Nos últimos dias, o diretor vem sendo alvo de duras críticas de militantes, fãs de Chico e de outros artistas – acima de tudo pelo que foi interpretado como racismo no áudio vazado. Elisa Lucinda (de “Parem de Falar Mal da Rotina”), por exemplo, leu um texto inteiro contra Claudio no ato político “Teatro Pela Democracia”, diante de mais de mil pessoas, com transmissão ao vivo pela Internet. No mesmo evento, o diretor Amir Haddad, do Teatro Oficina, também atacou o diretor, dizendo que ele estava contaminado pelo “zika vírus social”.

Leia na íntegra a carta aberta do diretor, publicada no Facebook nesta terça (22/3):

UM PEDIDO DE DESCULPAS
Os incidentes do último sábado em Belo Horizonte durante a sessão do musical TODOS OS MUSICAIS DE CHICO BUARQUE EM 90 MINUTOS são do conhecimento de todos, eu suponho. Emiti uma opinião pessoal que causou reação negativa de uma parte da plateia. Mais do que isso, o espetáculo foi interrompido e a sessão não chegou ao final.

Deste acontecimento infeliz que me tem causado enorme desgosto desde então (ameaças à minha integridade física pelo Facebook, telefone, trotes, acusações diversas sobre meu caráter e minha honra, insinuações sobre meu pensamento a respeito de temas delicados como racismo, autoritarismo, censura, entre outros) – desde aquele momento, apenas sofro, penso e repenso, estou muito triste. Porém minha tristeza é o que menos interessa neste momento.

Mas há algo fundamental e definitivo: peço desculpas a Chico Buarque. Nada do que vier de mim, nenhuma palavra, gesto ou pensamento, poderá jamais servir para desagradá-lo. Ele é o autor, o compositor, e estou trabalhando com sua obra. Desta forma, reconheço sua soberania a respeito de tudo que envolva seu nome e sua criação. O simples fato de mencionar qualquer assunto ligado a Chico (citei em entrevistas, equivocadamente, o histórico atentado à peça RODA VIVA nos anos 1960, que não têm qualquer semelhança com o fato do último sábado; citei episódios de repressão pelos quais ele passou, assuntos que não são de minha alçada e que não têm qualquer ligação com o incidente de sábado passado) é inaceitável, não tenho nenhum direito de inferir, pressupor, fazer ilações com nada que se refira ao autor, seja Chico ou qualquer outro artista que me autorize a trabalhar com sua obra. Minha obrigação – por ética e respeito – é ser cuidadoso, reverente, e em nenhuma hipótese atingir a história, o pensamento, a identidade de quem me permite generosamente colocar em cena suas obras. Este é meu dever como diretor, ator, e produtor.

Errei. Erro muito. Sou humano, mas isso não me desculpa. Aos 51 anos, sendo também autor e sendo um homem de história longa no teatro, eu tinha por obrigação preservar o autor e sua obra, não permitir que nada partindo de mim resvalasse nele, seja da forma que fosse. Por ser um admirador apaixonado e mais que isso, um pretenso “buarquiano” de carteirinha, minha responsabilidade é ainda maior. Dirigi e produzi ÓPERA DO MALANDRO, SUBURBANO CORAÇÃO, OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES (peça e filme que acaba de ser realizado com minha direção musical), NA BAGUNÇA DO TEU CORAÇÃO, ÓPERA DO MALANDRO EM CONCERTO, e idealizei TODOS OS MUSICAIS DE CHICO EM 90 MINUTOS como uma maneira de reverenciar o artista, o compositor, o autor. Mas falhei com minha responsabilidade, com Chico, falhei com o teatro e com a música.

Um áudio clandestino, gravado em meu camarim, me flagra num momento de enorme nervosismo, de destempero, de raiva. Nada justifica que invadam minha privacidade, considero a gravação um ato criminoso e a divulgação dela pelas mídias sociais é uma agressão à minha intimidade. Portanto, isto está sendo tratado em esfera policial e jurídica. Mas mesmo assim, por ter sido duro, descortês, arrogante e destemperado (o momento era muito inflamado), peço desculpas a todos que ouviram aquele Claudio Botelho sem compostura. E, se atingi alguém, mesmo tendo sido violada minha privacidade, peço novamente desculpas.

Minha exaltação e qualquer menção à obra do autor naquele dia são motivo de vergonha para mim neste momento. De qualquer forma, ouso crer que, por mais desastroso que tenha sido o acontecimento, o teatro ainda é um espaço que pode levantar debates nacionais de extrema relevância e repercussão. O teatro é sagrado e será sempre um espaço livre, de troca de ideias e de respeito às diferenças. Assim espero e por isso torço.

Envergonhado por ferir um estatuto sagrado do Teatro – respeitar o autor e público –, tenho obrigação de invocar novamente a única palavra que me parece oportuna neste momento: perdão.

Sinceramente,
Claudio Botelho

Comentários

comments