CríticaOpinião

Cock – Briga de Galo diverte e incita a reflexão de paradigmas

“Cock – Briga de Galo” é um texto genuinamente contemporâneo – um grande acerto do dramaturgo inglês Mike Bartlett (de “King Charles III”), premiado por este trabalho. Antenado, o ator e produtor Felipe Lima (de “Fonchito e a Lua”) adquiriu os direitos e está apresentando a montagem brasileira no Teatro Poeira, em Botafogo. Também um tiro no alvo. Na peça, ele dá vida ao protagonista John: um cara com histórico gay, que se apaixona e transa com uma mulher pela primeira vez, e fica dividido entre ela e seu parceiro de sete anos. O espetáculo se propõe a discutir rótulos que supostamente não cabem mais.

“Quem nunca gostou de duas pessoas ao mesmo tempo?”, questiona Felipe Lima
O roteiro é não-linear e repleto de quebras bruscas para os atores darem conta. É como a filmagem de um filme, com cenas rodadas fora de sequência. Logo no primeiro bloco, Felipe e Marcio Machado (de “Maravilhoso”) mostram competência para as variações de humor e sentimentos de seus personagens, pontuadas por sons que marcam a mudança de cena. Com humor ácido e tiradas inteligentes, o texto revela os preconceitos mais simplórios da sociedade, divertindo e instigando a reflexão. Marcio desempenha papel especial no tom cômico-irônico do espetáculo.

Felipe Lima e Debora Lamm em "Cock - Briga de Galo". (Foto: André Nicolau)

Felipe Lima e Debora Lamm em “Cock – Briga de Galo”. (Foto: André Nicolau)

A atriz Débora Lamm completa o triângulo amoroso, e é a mais natural em cena – talvez por sua parceria produtiva com a diretora Inez Viana, com quem trabalhou em “Os Mamutes” e “Maravilhoso”. Ela mergulha profundamente no drama de sua personagem solitária. Débora faz um trabalho impressionante e chega a derramar lágrimas no palco, tão próxima do público, que causa a impressão que o espectador pode esticar o braço e secá-las. Há esse detalhe: os assentos foram distribuídos em formato de arena, cercando os atores em um quadrado.

Destaca-se o trabalho do elenco, porque esse é um espetáculo de atores. Não há cenário, nem trocas de figurino ou truques de iluminação. O minimalismo cênico é mais uma alavanca do que um déficit para a peça, que fica em cartaz até 24 de junho no teatro, com sessões de terças a quintas, às 21h, e ingressos a R$ 40.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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