Entrevista

Com a palavra, Guida Vianna

(Foto: Silvana Marques)

Interpretando uma personagem solitária e agressiva que foi de Meryl Streep no cinema, Guida Vianna se consagrou com o Prêmio Cesgranrio e o Prêmio APTR de melhor atriz neste ano. Até o próximo domingo (3/6), seu desempenho como Violet pode ser visto em “Agosto”, peça de Tracy Letts em cartaz no Teatro Municipal Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. A personagem é a matriarca de uma família desgarrada, que recebe as filhas de volta em casa quando o marido desaparece e é encontrado morto. Embates, não faltam. “Agosto”, texto vencedor do Prêmio Pulitzer de melhor drama e do Tony de melhor peça, marca um grande momento na carreira de Guida, que completou 40 anos de palcos.

A atriz começou sua trajetória artística aos 16 anos estudando n’O Tablado, onde mais tarde ocupou o cargo de professora por 30 anos. Já representou textos de Brecht, Arrabal, Shakespeare, Albee, Beckett, Pinter, Tennessee Williams, Schnitzler, Sheridam e Visniec. Foram mais de 30 espetáculos, incluindo “Nada de Pânico”, que lhe rendeu o Prêmio Shell de melhor atriz há 15 anos. Além disso, atuou em seis novelas, e está reservada para a próxima das 21h na Globo, “O Sétimo Guardião”. É muita história para contar. Uma aula para dar. Pensando nisso, o Teatro em Cena convidou 40 jovens atrizes para fazerem perguntas para Guida Vianna, em celebração ao seu 40º aniversário de carreira. Cada artista fez uma, revelando sua maior curiosidade com relação à veterana. E ela respondeu todas! Confira essa entrevista diferente:

1. Carolina Ferman, da novela “Deus Salve o Rei” e do espetáculo “ABAS”
Guida, qual o maior ensinamento que o teatro de deu até hoje?
Guida Vianna – O teatro me ensinou a viver. Acho que o teatro e a dramaturgia ensinam muito a gente como se posicionar diante da vida. Cada texto que a gente lê traz pessoas diferentes, afetos diferentes, emoções diferentes, e isso é o que a gente encontra ao longo da vida. No teatro, a cada peça que a gente pega, a gente recomeça do zero. Quando a gente traz isso para a vida, é muito positivo: vai dando uma força de sobrevivência na selva que a vida se tornou hoje. Se a gente for inteligente e ficar de olhos abertos, a gente consegue levar isso para a vida.

2. Adassa Martins, da Cia. Teatro Inominável
Guida, o seu maior propósito em trabalhar como atriz hoje é o mesmo de vinte anos atrás?
Guida Vianna – É. É me comunicar com o público. A gente faz teatro para dividir com o outro uma coisa que acha interessantíssima e acha que deve compartilhar. O maior propósito é a comunicação.

3. Nathalia Dill, da novela “Orgulho & Paixão” e do espetáculo “Fulaninha e Dona Coisa”
Qual foi o personagem mais significativo na carreira? Por quê?
Guida Vianna – Todos. Tanto os que eu fiz sucesso quanto os que eu fracassei. Os fracassos ensinam muito à gente. Mas, para não responder genericamente, vou dizer: na minha juventude, teve o “Ato Cultural”, que eu fiz com 24 anos de idade e resumia muito o que eu estava estudando desde os 16 anos. Coloquei ali tudo que podia ter aprendido. Dali pra frente, vários espetáculos. Mas eu acho que todos os personagens ensinam à gente, até os que a gente faz muito mal, porque esses a gente quer esquecer.

4. Bárbara Sut, de “Romeu e Julieta, musical”
Se você pudesse voltar no tempo, tem algum personagem que você gostaria de reviver?! Ou peça na qual você gostaria trabalhar novamente?!
Guida Vianna – Não. Eu não gostaria de reviver nada. Para mim, se passou passou. Eu olho sempre pra frente. O que me preocupa – e talvez eu tenha alguma coisa assim – é de eu não ter feito tão bem algum personagem. Mas reviver eu não gostaria. Olho pra frente e vejo sempre o que me espera. Eu gosto do novo, sempre.

5. Luisa Arraes, de “Grande Sertão: Veredas”
Guida, como você faz para manter sua autoria e independência artística em uma carreira tão incerta?
Guida Vianna – Eu acho que a gente não pode nunca deixar de voltar à origem. A origem, para mim, é o teatro. O teatro em sua escolha. Quando você começa a ter muitos convites e vai aceitando, aceitando, aceitando, dê um tempo em um certo momento e volte a uma coisa sua, que te diz respeito, que fala a sua inquietude. Escolhe um texto que você quer dizer, que você quer mostrar o seu sentimento, a sua verdade. É voltar sempre à sua origem de três em três anos, de quatro em quatro anos.

Guida Vianna como Violet em “Agosto” (Foto: Silvana Marques)

6. Camila Nhary, do grupo Bando de Palhaços
Você acha que em algum momento da carreira a gente precisa dizer não para um trabalho pra “valorizar o passe”, mesmo que a grana desse trabalho faça diferença no fim do mês? Já se arrependeu de dizer algum não?
Guida Vianna – Não, nunca me arrependi. Já me arrependi de dizer sim (risos)! Muitos ‘sim’ eu já me arrependi. Não acho que a gente tenha que dizer não para valorizar o passe, a gente tem que dizer não para o que violenta a gente. Coisas que a gente na verdade não quer fazer. Aí é melhor encontrar um plano B.

7. Isabela Dionísio, de “Agosto”
Você já pensou alguma vez em desistir da carreira de atriz? Se sim, de que maneira você conseguiu continuar seguindo em frente?
Guida Vianna – O tempo todo a gente pensa em desistir! Quando você acaba um trabalho e demoram três meses para aparecer outro, você se pergunta: “o que estou fazendo aqui?”. Você tem força, você é jovem, tem uma força produtiva maravilhosa, você quer trabalhar todo dia – de segunda a sábado, ou de terça a domingo como era na minha época. Eu procurei sempre ter um grupo de teatro, para trabalhar sempre. Com esse grupo, a gente se encontrava para fazer oficinas, estudar textos, etc. E também dar aula. Dar aula foi o que me manteve na profissão.

8. Juliana Boller, da novela “A Terra Prometida” e do espetáculo “Doce Pássaro da Juventude”
Olá Guida querida, uma honra poder saber um pouquinho de você! Queria saber se teve algum episódio em que o deus do teatro intercedeu por você. Aquele momento que você acha que acabou, que você vai desistir e aí algo acontece e você continua firme e forte.
Guida Vianna – Olha, os deuses sempre nos protegem. Nosso anjo da guarda também é muito forte. Mas só protege quem trabalha todo dia (risos), então você tem que trabalhar todo dia para que isso aconteça. Sentar em casa e ficar esperando o telefone tocar, isso não existe. Enquanto você não estiver trabalhando, sendo convidado, você tem que se aprimorar. Faça curso, faça oficinas, marque uma vez por semana na sua casa para todo mundo ler textos teatrais. Não perder contato com a atividade. Você tem que trabalhar todo dia para que os deuses sorriam para você.

9. Lyv Ziese, do musical “Godspell”
O que você faz ou como você faz para se manter motivada nos momentos difíceis da sua carreira?
Guida Vianna – Eu faço isso que acabei de responder. Marco grupos de estudo, começo a me reunir com amigos, a gente lê textos, conversa sobre teatro, faz alguma oficina. Eu faço oficina até hoje. Faço muitas oficinas no Teatro Poeira, que eles oferecem lá. Você tem que estar o tempo inteiro em contato com a profissão.

10. Eline Porto, de “Beatles Num Céu de Diamantes”
Como foi lidar com a instabilidade e a inconstância da carreira de atriz na parte financeira e nas oportunidades de trabalho?
Guida Vianna – Foi difícil. Foi difícil a vida inteira. Eu dei aula por 30 anos seguidos n’O Tablado, e também em muitas oficinas. Na verdade, o que me manteve na profissão foi dar aula. Foi isso que me manteve capaz de viver os tempos de inverno, em que não aparecem trabalhos, em que a gente não está em um grupo e não está fazendo nada. Eu sempre mantive o contato com a profissão, com o ensinamento e a execução da profissão, através das aulas, porque sempre tive que estudar para dar aula. Sempre observei o processo dos alunos, então de alguma forma sempre me mantive em contato com a criação teatral.

Guida Vianna em encontro do IntervenSomos, formado por artistas pensando “outra forma de intervir” (Foto: Mauro Marques)

11. Lairce Dias, do grupo A República
Gostaria de saber se você consegue se autoproduzir e se remunerar somente com a atividade teatral.
Guida Vianna – Eu consegui viver de teatro, porque dava aula em várias escolas diferentes, senão não teria conseguido. Ao mesmo tempo, tinha muita energia, fazia uma peça, ensaiava outra, fazia um infantil, etc. e tal. Mas, se não tivesse dado aula, não teria conseguido me manter.

12. Giovanna Rangel, de “Malhação” e do musical “Godspell”
Guida, se você não fosse atriz, qual seria a profissão que você gostaria de seguir? Teria uma segunda opção?
Guida Vianna – Eu gosto de várias coisas. Mesmo quando fui fazer faculdade, eu queria fazer Letras, Pedagogia, Sociologia… Eu sempre atuaria na área de humanas, isso é certo. Mas eu gosto de tudo. Eu poderia ser qualquer outra coisa, porque o mundo me interessa.

13. Aline Deluna, de “Josephine Baker”
Qual o maior desafio da profissão?
Guida Vianna – O maior desafio é a gente se manter nela. A profissão trabalha o tempo todo te dizendo para desistir, para parar, né? Porque é muito difícil. Acho que o maior desafio é persistir.

14. Amandha Monteiro, da Cia. Os Insubmissos
As escolhas na personagem do “Agosto” são de um nível raro de inteligência cênica. Você pode explicar, justificar algumas dessas escolhas?
Guida Vianna – As escolhas da personagem foram encontradas nos ensaios conjuntamente entre a atriz e o diretor. Conforme ocorrem os ensaios, a gente tenta várias coisas, de várias maneiras diferentes, e a gente vai encontrando a que é mais pertinente para a cena.

15. Rebeca Jamir, de “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Em “Agosto”, muita coisa é impressionante, mas, pra mim, principalmente a sua consciência e domínio técnico na construção da Violet. Gostaria de saber como se deu o desenvolvimento disso ao longo da sua vida/carreira.
Guida Vianna – Eu acho que a gente tem que fazer aula de teatro primeiro. Na aula de teatro, é onde você está completamente à vontade, sem se preocupar com as consequências ou o fim. Você só está ali entregue. Você se joga, se lança, e procura o seu repertório. É onde você vai se testando. Acho fundamental fazer aula prática de teatro, se jogar bastante, entender as coisas que você domina bem e onde você tem que trabalhar mais. Com a vivência dos personagens, das montagens, de vários gêneros, de vários diretores diferentes, você vai se conhecendo cada vez mais e é isso que vai te dando um domínio técnico do seu processo.

Guida Vianna com Letícia Isnard: parceria em cena em “Agosto” (Foto: Silvana Marques)

16. Karen Coelho, de “Céus” e “Os Sete Gatinhos”
Guida, são muitas as suas qualidades como atriz. Sou uma grande admiradora. Mas um dos pontos que me impressiona em seu trabalho é a forma como você utiliza seus recursos vocais. Sua voz é sempre muito potente, clara e rica de diferentes tons e intenções. Gostaria de saber como você cuida dessa ferramenta tão importante. Já fez aulas voltadas pra isto? Ainda pratica uma rotina de exercícios antes das apresentações?
Guida Vianna – Durante muitos anos, quando era jovem, eu fiz aulas com a Glorinha Beuttenmüller, a fonoaudióloga que ensinou todos os atores da minha geração a falar. A Glorinha tem um método, que os alunos dela repassam, que é a imagem da palavra. É a gente saber sempre o que cada palavra significa como imagem. É a gestalt da palavra. Isso é uma coisa que todo ator tem que saber. A outra coisa é que fiz durante muitos anos um curso com Alcione Araújo de ler textos dramáticos. Ler dramaturgia. A dramaturgia me ensinou muito que, a cada peça, você constitui um universo de imagens do que está sendo dito. A cada novo texto, a gente tem que estudar o que está sendo dito, como você quer dizer, e o que contribui para aquela cena a forma como você vai dizer. Então, na verdade, é um estudo do texto.

17. Lisa Eiras, do Armazém Cia. de Teatro
Guida, quem foram seus mestres queridos, seus amigos inspiração, que por uma felicidade do destino passaram por sua vida e deixaram um tanto de si contigo?
Guida Vianna – Em primeiro lugar, Maria Clara Machado. Comecei a aprender teatro no Tablado aos 16 anos de idade. Sem dúvida, foi o Tablado e Maria Clara que me deram régua e compasso para eu seguir no mundo. Depois fui fazer um curso do Sérgio Britto, que foi muito importante, porque fui aluna dele, do Amir Haddad, do Augusto Boal, da Glorinha Beuttenmüller e do Klauss Viana. Depois o Alcione Araújo, com esse curso de dramaturgia. Foi quem me ensinou a ler um texto teatral. Esses mestres que eu tive me deram régua e compasso para eu seguir adiante.

18. Isis Pessino, da novela “Deus Salve O Rei”
Guida, assim como você eu também fiz O Tablado. Gostaria de saber o que você carrega do Tablado com você até hoje e o que você espera da nova geração de jovens atores que está vindo agora.
Guida Vianna – Eu carrego tudo. Eu carrego O Tablado dentro de mim. Fiz cinco anos de aulas e depois fui professora por 30 anos lá. Eu acho O Tablado o ensino fundamental do ator. Como só tem aula prática lá, você aprende a estar no palco com muita naturalidade. Aquilo acaba sendo sua casa. Você aprende a estar no palco sem esforço nenhum, então carrego para minha vida o tempo todo. Eu espero que a nova geração seja brilhante (risos), atuante, revolucionária, resiliente e excelentes atores.

19. Isabella Santoni, da novela “Orgulho & Paixão” e do espetáculo “Léo e Bia”
Como você começa a construção de uma personagem? Existe algum método que usa sempre?
Guida Vianna – Não, não existe método. O que me inspira é a escrita, é o roteiro, o texto, o script, as palavras que estão ali. Minha primeira inspiração é eu entender o que vai ser dito ali e que história é aquela.

20. Malu Rodrigues, de “A Noviça Rebelde”
Como você reconhece um bom ator?
Guida Vianna – Todo mundo reconhece um bom ator. O palco é o lugar mais verdadeiro que existe. Você entrou ali – se você é do palco – todo mundo vê que você pertence àquele espaço. Não tem erro: o teatro não tem truque.

(Foto: Divulgação)

21. Julia Oristanio, do infantil “Quero Ser Ziraldo”
Qual a maior lição que você tira desses anos todos de carreira? O que você acha que um ator deve ter ou desenvolver se quiser sobreviver nesse meio?
Guida Vianna – Eu acho que ser ator é um processo de conhecimento. É muito mais uma relação de você com você mesmo diante da profissão e da vida. Uma pergunta que você tem que fazer é: “por que quero ser ator?” Entendeu? Você admira os atores, você admira essa comunicação que vê quando vai a uma peça de teatro ou vê um filme e aquele ator te toca, te transforma, te diz alguma coisa? É isso que você tem que procurar: primeiro, responder para você mesmo, e segundo, tentar ser cada vez melhor dentro daquilo que você escolhe atuar na vida. A gente não está aqui só para brincar, a passeio. A gente está aqui para se inserir no mundo e a gente se insere através do trabalho. Primeiro, através dos estudos. Depois, através do trabalho. E, através do trabalho, eu quero ser boa, quero ver meu trabalho bem. É isso que move a gente a continuar a progredir e crescer.

22. Lorena Comparato, de “Agosto”
O que você aconselharia para uma jovem atriz que está começando na carreira em um mercado tão difícil, onde os padrões de beleza e fama muitas vezes atropelam o talento?
Guida Vianna – Não dar a mínima para beleza! A beleza passa, a beleza não permanece. Todo mundo envelhece. Você tem que focar no talento, no aprendizado, e cada vez querer saber mais da profissão. Criar uma casca grossa para você para aguentar os trancos, os desmandos, e essas rejeições. Saber que isso não tem nada a ver com ser ator. A beleza põe mesa em muitas profissões, mas na profissão de ator a alma põe mais mesa.

23. Manuela Llerena, do grupo Mulheres de Buço
Guida, quais as suas escolhas profissionais feitas ao longo da sua carreira que você considera essenciais para a construção da atriz que você é hoje?
Guida Vianna – Ter começado a trabalhar em teatro em grupo. Foram anos de muito aprendizado ali. Passei meus dez primeiros anos em grupo. A gente teve grandes momentos, a gente ensaiava muito, muitas horas por dia… Fiz grandes trabalhos como “Ato Cultural”, “Poleiro dos Anjos”, “Cabaré Valentini”, “As You Liked It”, “Serafim Ponte Grande”, então foram momentos muito legais do meu aprendizado como atriz. Depois, mais tarde, quando voltei a produzir, e passei a escolher peças com o que eu queria dizer – e não com o que os outros estavam me oferecendo.

24. Thais Belchior, da comédia “Champagne & Confusão”
Guida, nosso trabalho é vivo, é a arte do presente, como você faz para se reinventar em 40 anos de carreira? Tendo em vista nossa situação artística atual, a contemporaneidade, enfim… Como ser uma artista, resistente há 40 anos e ter motivação para se reinventar ?
Guida Vianna – Eu acho que é isso. Você vai aceitando as coisas que te oferecem, mas de três em três anos, ou de quatro em quatro anos, você tem que voltar a escolher um trabalho que fala de você – do seu sentimento, da sua verdade, da sua escolha. Eu faço de três em três anos. É você nunca deixar de se produzir e mostrar quem você é. Cada vez que você mostra quem você é, você se reinventa. Para isso, você nunca pode deixar de ler, de ver coisas, de inventar coisas.

25. Vanessa Garcia, de “Le Circo de la Drag”
Gostaria de saber sobre o mercado de trabalho, mais precisamente uma comparação entre o período em que você começou a ser atriz e o que estamos vivendo hoje. O que mudou? O que permanece o mesmo?
Guida Vianna – Eu acho que o mercado de trabalho é sempre difícil, porque é muito seletivo, mas reconheço que hoje está muito pior, porque tem muita gente. Quando eu comecei, não eram tantos atores assim e a gente podia ir abrindo espaços. Hoje em dia, a concorrência é muito grande, existem várias escolas de teatro, ser ator é bem visto pela família e pela sociedade, os atores enriqueceram… então passou a ser uma profissão que as famílias aceitam. Na minha época, não era nada disso. Reconheço que hoje em dia deve ser muito mais difícil permanecer.

(Foto: Reprodução / Facebook)

26. Amanda Mirasci, de “Uma Vida Boa”
Guida, nestes 40 anos de carreira, quais foram os maiores avanços que nós, mulheres, conseguimos em nossa profissão? São anos e anos de luta por igualdade. Percebe algum tipo de mudança de maneira real e concreta neste sentido dentro de nosso ofício?
Guida Vianna – Ah, percebo! Claro que sim. As mulheres conseguiram espaço. Hoje em dia, existem várias diretoras mulheres, várias dramaturgas – que não tinha tanto quando eu comecei. Elas estão em todos os locais: são produtoras, diretores, dramaturgas. Trabalham em vários setores que eram dominados pelos homens. Acho que a gente avançou muito, muito mesmo. Hoje em dia, se você quiser, existe teatro feito só por mulheres – desde a concepção até a chegada ao palco.

27. Carol Garcia, de “Léo e Bia”
Guida, hoje estamos falando muito sobre temas importantes como homofobia, machismo, racismo, resultando em muito cuidado ao lugar de fala em cada projeto. Isso te faz pensar em algum trabalho feito que hoje em dia talvez você recusasse?
Guida Vianna – É… Eu não entendo muito a pergunta, porque a minha seleção para aceitar ou recusar um trabalho não é o tema. É a qualidade da escrita. Se eu achar a qualidade da escrita pertinente com o que eu penso e com o que acho interessante o público ouvir, eu vou aceitar, seja lá que tema for.

28. Thati Lopes, do Porta dos Fundos
Tem algum personagem que você não aceitaria fazer no teatro?
Guida Vianna – Não. A princípio, eu aceito tudo que for de qualidade. Se não for de qualidade, não aceito. Se não me diz nada, se não fala comigo, não tenho como falar com o outro. Primeiro, tem que bater em mim, para eu poder transmitir para o outro.

29. Dandara Vital, de “Dandara Através Do Espelho”
No seu discurso no Prêmio Cesgranrio, você falou “E essa coisa que existe agora – que eu sou mulher e não posso fazer um homem, um homem não pode fazer a trans, a trans não pode fazer… Isso é de uma bobagem que não existe”. Você acha que representatividade trans não é importante? Qual a sua opinião sobre o assunto?
Guida Vianna – Eu acho que representatividade trans é importante. Eu assinei todos os manifestos para aquela atriz trans fazer Jesus Cristo na coisa bíblica que ela estava fazendo. O que eu acho é que o palco é o lugar da liberdade. O palco é o lugar onde tem que permanecer sem censura, livre. Se o palco tiver restrição, ele não cumpre mais sua origem, que é um espaço de liberdade.

30. Graciana Valladares, da cia. Amok Teatro
Como, na sua opinião, pode-se formar plateia de modo geral e levar crianças, adultos e idosos que normalmente não vão ao teatro?
Guida Vianna – Eu acho que a gente tem que fazer tudo que se fez e se tenta fazer: tem que rodar as periferias, tem que ter teatro nas praças para chamar a menininada, tem que ter teatro nas escolas. Isso tudo é formação de plateia. Quando você tem teatro onde tem encontro de pessoas, você está fazendo formação de plateia, então as peças têm que circular, as praças, as escolas e os museus têm que ser ocupados. Todos os lugares em que há encontro de pessoas têm que ser ocupados por manifestações artísticas.

Guida Vianna na juventude (Foto: Reprodução / Facebook)

31. Katerina Amsler, do grupo Tá Na Rua
Guida, durante seus 40 anos de carreira, algum momento foi tão dificil ou mais para a atividade teatral quanto o que vivemos hoje?
Guida Vianna – Acho que sim. Eu acho que tem uma coisa que tem a ver com essa história da persistência e da resiliência. O começo é muito fácil: a gente tem um grupo, uma turma, uma galera, a gente vai todo dia para o ensaio com a maior alegria, porque ali naquele grupo estão nossos amigos da vida, a nossa família escolhida. A gente pode ficar 12 horas em uma sala de teatro com aquelas pessoas, a gente ganha muito pouco, mas também vive com muito pouco. Eu acho que o pior momento foi dos 20 aos 40 anos, quando tive que fazer muita força para me manter na profissão. Os primeiros 20 anos, eu tirei de letra. Dos 20 aos 40 foram muito difíceis, porque tive que me esforçar muito na profissão. Agora espero que tudo seja mais ameno. Vamos ver.

32. Catarina Saibro, de “Fora da Caixa” e “O Ateneu”
Sabendo dos seus 40 anos de carreira (sou fã) e das dificuldades de se fazer teatro hoje, – como a falta de espaços e de incentivos-, qual a sua opinião sobre os espaços alternativos que tem surgido na cidade e as campanhas de financiamento coletivo que tem sido feitas para viabilizar as produções?
Guida Vianna – Eu acho maravilhoso. Acho que quando a gente é jovem – e eu também já fui jovem uma vez na vida – e faz um teatro de grupo, um teatro coletivo, a gente tem obrigação de não almejar os grandes espaços, aqueles carérrimos, e ir abrindo novas frentes. Acho que o teatro jovem revoluciona a linguagem quando revoluciona os espaços também. Essa coisa de propor novas salas, fazer teatro em museu, na rua, na praça, em espaços diferentes, com financiamentos diferentes, novas propostas de produções… isso tudo vem aclopado em uma nova linguagem. É isso que o teatro jovem tem que fazer sempre, em cada geração, em cada década.

33. Yasmin Gomlevsky, de “Fogo Frio”
Qual a sua maior motivação pra fazer teatro em um país e uma cidade que não valorizam a cultura?
Guida Vianna – Eu acredito no teatro, nessa comunicação direta com o público, nesse encontro que o teatro possibilita, nessa vivência estética para várias pessoas ao mesmo tempo, em um mesmo local. É quase como se fosse uma tragédia: unidade de tempo, hora, local, espaço. Entendeu? O teatro é trágico por si só, mas é vivo pela catarse que ele provoca coletivamente nas pessoas. Eu continuo acreditando nesse encontro.

34. Brisa Rodrigues, do Coletivo Ponto Zero
Tendo em vista que o fazer teatral atravessa e por isso modifica aquele que atua em sua causa, poderia nos contar sobre as suas transformações, de uma perspectiva pessoal, que aconteceram pela experiência com o teatro?
Guida Vianna – É o que eu falo. O teatro ensina a gente a viver. Como você vive sempre… Você pega uma peça… Uma peça conta uma história com personagens que não são de seu ambiente cotidiano. São de outro ambiente. Mas, naquelas relações afetivas ali, existem outras pessoas, outros sentimentos, e tudo isso te ensina. É como se você fosse fazer a vida inteira análise em grupo. Você aprende com o outro. É claro que você aprende com os personagens. Se você está de olhos e ouvidos abertos, tudo que você escuta, lê e aprende com o outro, você traz para sua vida pessoal.

35. Karin Roepke, de “Marido Ideal”
Como foi a criação artística com Gilberto Gawronski no espetáculo “2x Matei”? Qual o seu principal critério ao escolher seus parceiros de cena?
Guida Vianna – Eu trabalho com o Gilberto há muitos anos. Eu fiz vários trabalhos com ele, então ele é um amigo, companheiro de cena, de trabalho, de criação artística. O meu critério para escolher os meus colegas de trabalho é acreditar neles, achar que eles se dedicam ao teatro tanto quanto eu me dedico, e serem amigos também. Importa-me muito trabalhar com amigos.

Guida Vianna recebe o Prêmio Cesgranrio no Copacabana Palace (Foto: Eny Miranda / Divulgação)

36. Carolina Pismel, da Cia. Teatro Independente e da Cia. OmondÉ
Guida, qual o seu ritual de proteção antes de entrar em cena? Reza? Tem algum santo de devoção?
Guida Vianna – Meu ritual? Nenhum (risos). Meu ritual é o ensaio. Se eu tiver um ensaio bom, bem feito, bacana, e uma coxia boa, fico preparada para a estreia. O convívio com os amigos na coxia me deixa preparada para a ação.

37. Evelyn Castro, do Porta dos Fundos
O que você poderia nos dizer com relação a coragem (nem sei se seria coragem a palavra, mas estar a serviço do que se propõe da arte) versus o ego nesta carreira? Como lidar com nós mesmos diante de tudo que vivemos nesta profissão?
Guida Vianna – Essa pergunta não é muito para mim. Eu não tenho ego nenhum. Não escolhi fazer teatro para ficar famosa, rica, nada disso. Escolhi fazer teatro quando era jovem, na época da ditadura, quando era proibido se falar tudo. Eram proibidos os filmes, os livros, tudo. Eu achei que, no teatro, eu encontrava um campo de liberdade. Eu encontrava um ambiente onde era possível ser e estar. O que sempre me moveu era ser e estar, nunca ter. Nunca tive essa batalha contra o ego. Acho que o ego só atrapalha o ator.

38. Jeniffer Nascimento, da novela “Pega Pega” e de “Divas: O Musical”
Qual método você criou para lidar com a cobrança do público e da sociedade perante a sua carreira?
Guida Vianna – Eu não dou a mínima nem para o público nem para a sociedade com a minha carreira. Acho que não sou importante para se preocuparem comigo. E também não acho eles tão importantes para eu me preocupar com eles. Eu só me preocupei, na minha vida, em ser cada vez mais uma atriz melhor, uma pessoa melhor, e desenvolver minhas possibilidades no mundo atuando nesse universo. Foi com isso que me preocupei.

39. Julia Morganti, dos musicais “Ordinary Days” e “Rapsódia”
Pra você, qual a sensação que um ator jamais deveria perder ao pisar do palco? E nos palcos da vida, o que é indispensável para um ator?
Guida Vianna – Eu acho que a sensação tem que ser sempre de que você vai entrar com a energia e a emoção da primeira vez que você entrou no palco. Você nunca pode entrar burocraticamente no palco. Você tem que sempre entrar para matar aquele leão por dia. Indispensável para um ator, acho que é ter vocação. Talento você adquire, viu? Talento você adquire, e também você perde, mas sobretudo você tem que ter a vocação necessária para aguentar todos os trancos que virão.

40. Monique Vaillé, da ocupação “Ovárias”
Como você acredita que estará o teatro daqui há 20 anos?
Guida Vianna – Olha, eu acho que ele vai resistir. Acho que vai resistir sempre. O teatro sempre vai existir. Espero que, daqui a 20 anos, ele esteja saudável, jovem, resistente e potente.

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