Entrevista

Com seis peças em cartaz, Léo Fuchs conta como é a vida de um produtor bem sucedido

(Foto: Arquivo Pessoal)

(Foto: Arquivo Pessoal)

O que as peças “Chapeuzinho Vermelho em o Valor de um Sorriso”, “É o Que Temos Pra Hoje”, “Meu Passado Não Me Condena”, “Meu Ex Imaginário”, “Tô Grávida” e “Um Sonho Pra Dois” têm em comum? Além de estarem em turnê ou em temporadas fixas, são produções da mesma pessoa. O homem por trás dos seis espetáculos se chama Léo Fuchs, tem 33 anos, e se autodenomina como uma máquina de teatro. Tem como dizer que não? Ele é mesmo. De segunda a sexta, bate ponto no escritório e, nos fins de semana, se divide pessoalmente entre as seis peças. “Não durmo. É uma loucura”, ele confessa ao Teatro em Cena. “É ficar no Whatsapp o dia inteiro, responder e-mail às 3h da manhã e, quando você acha que está tudo programado, o telefone toca e é o ator que está atrasado no trânsito da ponte Rio-Niterói. Não descanso, mas estou feliz”. Tanto trabalho resultou no prêmio de produtor do ano na FITA – Festa Internacional de Teatro de Angra, em 2013.

O carioca vive de teatro, sem ter a televisão ou o cinema como alavancas, e vive bem. Tem seu apartamento próprio, seu carro e faz duas viagens internacionais por ano. “Quando falei que queria fazer teatro, todo mundo dizia: ‘nossa, vai passar fome’. Não sou a pessoa mais rica do mundo, mas vivo bem decentemente. Posso estar bem agora e mês que vem não estar mais”. No momento, está. O sucesso veio, principalmente, depois que ele decidiu focar na produção. Antes, se dividia com a carreira de ator – muitas vezes conciliando as duas áreas simultaneamente, como foi o caso de “Beijos de Verão” e “Melhores Anos de Nossas Vidas”. A guinada veio aos 25 anos. “Já tinha feito sucesso, já tinha feito fracasso, e falei: ‘o que vai ser da minha vida agora?’ Percebi que a gente tem que focar para querer ser o melhor. Eu fazia cinco coisas ao mesmo tempo, e não sabia se era o melhor em todas as minhas funções”. O que ele fala não é da boca para fora. Já foi contrarregra, operador de som, assistente de produção e bilheteiro, além de ator, diretor e dramaturgo. “Chapeuzinho” e “Meu Passado”, por exemplo, são assinados por ele.

A paixão pelo teatro começou com a peça “Confissões de Adolescente”, que ele diz ter assistido 49 vezes. A autora Maria Mariana, filha do Domingos Oliveira, virou sua referência na juventude. Por causa das apresentações no porão da Casa de Cultura Laura Alvim, ele quis ter aulas de teatro lá, com Daniel Herz e Susanna Kruger. Daí em diante, não parou mais. Fez 23 peças como ator e 25 como produtor. Chegou a trabalhar com Domingos e Maria, e conheceu Fernando Gomes, a quem chama de padrinho e atrela todo seu conhecimento. “Foi quem me abriu as portas”. Com Maria Mariana, esboçou um “Confissões Masculinas”, que acabou não chegando aos palcos. “Eu e Thiago Fragoso nos encontrávamos com ela, que incentivava a gente a escrever e lapidava. O projeto foi por água abaixo, mas deixou essa vontade latente de escrever em mim”, diz o produtor, que cursou duas faculdades – de Cinema e de Letras – sem terminar nenhuma. “Sou um homem de teatro mesmo, e bato no peito para dizer isso”. Mas quer terminar o curso de Letras.

Em dois momentos: com Maria Mariana; e com Fernanda Paes Leme e elenco de "Chapeuzinho". (Fotos: Arquivo Pessoal)

Em dois momentos: com Maria Mariana; e com Fernanda Paes Leme e elenco de “Chapeuzinho”. (Fotos: Arquivo Pessoal)

“Chapeuzinho Vermelho em o Valor de um Sorriso”, seu mais novo espetáculo, em cartaz no Teatro Fashion Mall, tem texto e produção dele. A ideia surgiu a partir de uma conversa com o melhor amigo, o dentista Fábio Nicoletti. Ele sugeriu que Léo escrevesse uma peça para educar as crianças sobre saúde bucal. “Pensei: ‘uma peça de dente, gente? Como vou fazer uma peça de dente?’” Depois, o estalo: adaptar um clássico. Na história, os bonzinhos são Chapeuzinho (Mariana Molina), a mãe (Camila Rodrigues) e o super-herói-dente Nico (Wagner Santisteban), que é uma homenagem ao Nicoletti. Os antagonistas são o Lobo Mau (Fernando Sampaio), seu mau hálito e a cárie.

A resposta tem sido boa, e ele já está escrevendo outra peça, em parceria com Maria Ribeiro. Ainda sem título, Léo adianta que o espetáculo abordará a amizade de uma maneira confessional e será estrelado por Maria e Carolina Dieckmann, com direção do Caio Blat. A estreia é prevista para o segundo semestre. “Meu lado autor está vinculado às minhas amizades. Escrevi ‘Chapeuzinho’ graças ao Fábio; escrevi ‘Meu Passado’ com a Fernandinha; e estou escrevendo essa com a Maria Ribeiro. Estou amando escrever e ver minhas loucuras encenadas no palco”.

Só que não se engane: o foco é mesmo a produção. Há seis anos, ele está à frente da Twogether Teatro, produtora que abriu com os sócios Mauro Lemos e Mariana Lobo. Segundo ele, foi uma maneira de profissionalizar suas produções, que antes eram desenroladas de uma maneira mais amadora. Agora, ele até tem uma sala só pra ele, na Barra da Tijuca – além de um depósito de cenários, um acervo de figurinos e uma sala de ensaios. “Consigo desenhar mais minha carreira e pensar melhor meus produtos assim. Já sei os projetos do ano que vem, por exemplo”. Projeto, aliás, é uma palavra que ele não gosta. Detesta a passividade implícita na palavra. “Odeio gente que fala que ‘está com um projeto’. Gosto de realizar. De todos os espetáculos que fiz, se tive patrocínio em três ou quatro foi muito. Não que eu não goste de patrocínio, pelo amor de Deus, mas não gosto de esperar. Eu tiro do bolso e corro atrás. Já produzi uma peça fazendo festa e rifa para arrecadar fundos para montá-la”. Quem ensinou isso foi Domingos Oliveira, que lhe dizia: “se você quer fazer, faça por você”.

Com Fernanda Souza: parceria em cinco espetáculos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com Fernanda Souza: parceria em cinco espetáculos. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Meu Passado Não Me Condena”, o monólogo da Fernanda Souza, é um exemplo de espetáculo montado na garra. Ele diz que é “seu xodózinho”, porque viu a ideia nascer, participou do texto, colocou dinheiro com a atriz na produção, e alcançou o sucesso. Mais de 60 mil pessoas viram a peça em oito meses de turnê, e ela está com a agenda confirmada até o fim do ano. Além disso, há planos de levá-la para os EUA e para a Angola. Será a segunda vez que ele viajará com um trabalho para fora do país. A primeira foi com “Um Sonho Para Dois” – com a própria Fernanda e o ator Ricardo Pereira – que ficou dois meses em turnê por Portugal. “Foi o ápice da minha vida. Sempre sonhei com isso. Até brinquei: ‘mãe, agora sou um produtor internacional’. É o sonho de todo brasileiro levar sua arte para um lugar tão distante, né?”.

Nem tudo é sucesso, porém. Durante a entrevista, Léo ressalta várias vezes que a carreira artística é instável e assume que já teve vários momentos tristes. Ganhou seu próprio dinheiro aos 17 anos e teve que pedir emprestado aos pais (um administrador e uma assistente social) aos 20, por exemplo. Também comprou um apartamento aos 27 anos e foi obrigado a revendê-lo aos 29. Mesmo assim, nunca pensou em desistir. Mais experiente, ele tem seus critérios para evitar prejuízos nesta altura da carreira. Gosta de comédias, e a maioria das suas produções é desse gênero, mas não acredita que elas sejam garantia de bilheteria. “Teatro vai ser sempre uma loteria”, diz. Resultados positivos vêm de textos bons, boca-a-boca e atores com apelo comercial. “Preciso disso [do elenco famoso] se não tenho patrocínio e preciso tirar do bolso”. Além dos nomes citados anteriormente, Léo produziu ou produz Bruno Gagliasso, Deborah Secco, Marcelo Serrado, Fernanda Paes Leme, Paulo Vilhena e Fernanda Rodrigues, só para ficar em alguns exemplos. Quando as peças saem em turnê, principalmente, isso conta muito para atrair público e parcerias com produtores locais.

Há gastos que a bilheteria não cobre. Léo destaca que é tudo muito caro quando o assunto é teatro. Ele fala com propriedade dos números, porque tudo passa por ele: aluguel da sala, anúncios publicitários, aluguel de luz, etc. “As pessoas falam que [o preço do ingresso do] teatro é caro, mas realmente é tudo muito difícil”. Ele tem um braço direito há cinco anos – Luciana Vieira, “que também é o braço esquerdo e, se eu tivesse um terceiro braço, também seria ela”– mas não se afasta dos detalhes. “A gente fica ligado em tudo, desde a aprovação da arte; qual hotel que os atores vão ficar; qual vai ser o plano de mídia; como é o teatro; tudo mesmo”. Quando algo dá errado, bola pra frente. “Sou muito bem humorado e tento sempre ver o lado bom. Não deixo as coisas ruins me tomarem”.

Produtor, no sentido literal da palavra (“quem cria, dá origem, faz aparecer”), Léo só deseja viver de arte até o último dia da vida. Quando questionado sobre o segredo do sucesso, ele responde com uma palavra: arriscar. A semente foi plantada por Domingos Oliveira. “Ele me falava: ‘o artista, para sobreviver, tem que saber produzir’. É muito verdade. Parei de fazer teste, esperar o telefone tocar, e comecei a convocar as pessoas para tocar as minhas ideias. Mudei o lado da moeda”, explica. “É deixar de só sonhar e realizar. Graças a Deus, estou realizando todos os meus sonhos através da arte”. Que continue assim.

Léo Fuchs com o time de sua próxima produção. Preta Gil será convidada especial. (Foto: Arquivo Pessoal)

Léo Fuchs com o time de sua próxima produção. Preta Gil será convidada especial. (Foto: Arquivo Pessoal)

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