Crítica

Crítica: 40 Anos Esta Noite

Você chega ao Teatro Ipanema e há uma bandeira do arco-íris pendurada na porta. Não há dúvidas: “40 Anos Esta Noite” é um espetáculo orgulhoso de sua temática LGBTQ+, mas espectadores heterossexuais são mais do que bem vindos. A peça, escrita pelo ator Felipe Cabral (de “O Filho do Presidente”), que está em cena, trata sobre novas composições familiares – um assunto importante para o atual panorama político brasileiro. Na história, um casal de lésbicas recebe um casal de amigos gays para o jantar de aniversário de uma delas. Em dado momento da noite, a aniversariante surpreende a esposa e o melhor amigo, convidando-o para engravidá-la. Ela está frustrada com duas inseminações que não deram certo e acha que, tentando com o amigo, pode economizar dinheiro e ainda dar um pai para o bebê. Ele adora a ideia, mas sua esposa fica revoltada por sequer ter sido consultada. Desde quando o plano delas inclui ter um pai? Não seriam somente duas mães e pronto? Dá-se o conflito. Para a plateia, cômico. Para os personagens, extremamente dramático.

(Foto: Dalton Valerio)

Um grande acerto da dramaturgia é que ela aprofunda características e questões de todos os personagens. Gabriela está comemorando 40 anos e sente que “é agora ou nunca” para encarar a maternidade. Há certa urgência e impaciência em todos seus atos. Sua esposa, Clarice, é mais jovem, mais tranquila (até receber a notícia que a tira do sério), dedicada à casa e apegada a ideais politizados. Bernardo, o melhor amigo de infância de Gabriela, terminou um namoro heterossexual há pouco tempo e vive suas primeiras experiências gays, já fazendo planos para sua vida com o namorado que conheceu há três meses. Ele ainda tem problemas com a própria sexualidade e tenta mantê-la em privado, preocupado com a opinião dos outros. Já seu namorado, João, é bem mais novo e representa outra geração – a da juventude gay empoderada e orgulhosa, que está mais interessada em enfrentar os preconceitos do que fugir deles. Os quatro são bem diferentes, vivem momentos particulares de suas vidas, com interesses e visões de mundo o tempo todo conflitivos.

Quando o público entra no teatro, já há ação acontecendo no palco. As atrizes Gisela de Castro (de “Eugênia”), a Gabriela, e Karina Ramil (de “#BroncaDeQuê?”), a Clarice, estão em cena. Gabriela experimenta vestidos enquanto Karina arruma a mesa para o jantar. A opção criativa da direção de Bruce Gomlevsky (de “Um Tartufo”) antecipa para o espectador que existem fatos anteriores ao que ele verá. A peça é o recorte de uma noite na vida desses personagens, mas todos eles trazem longas trajetórias até aquele momento. No decorrer da apresentação, toda em torno da mesa, a plateia conhece gradativamente um pouco mais sobre cada um dos amigos, que, apesar de estarem em um local privado, são o tempo todo impregnados por questões externas – desde o telefonema dramático da mãe da aniversariante até o impacto do governo de um presidente assumidamente homofóbico nas decisões sobre o futuro. A peça, na verdade, começa com essa interferência externa: Gabriela responde às cobranças de sua mãe ao telefone. É uma cena curta, que Gisela de Castro faz brilhantemente, dando o tom do humor que conduzirá toda a peça. É uma atriz de muita força cênica.

O papel de Karina Ramil é o contraponto do de Gisela em cena – no início, o equilíbrio, depois o desequilíbrio e o obstáculo. Quando uma personagem está nervosa, a outra está calma. E quando uma está esperançosa, a outra está alarmada. As atrizes estão incríveis nesta gangorra. Gabriel Albuquerque (de “Um Inimigo do Povo”) faz o melhor amigo, convocado para paternidade. É um personagem mais sério e mais heteronormativo que os outros, mas fundamental para a “cara” do espetáculo: o humor está nas situações e não em qualquer graça que os personagens tentem despertar. Felipe Cabral, como o gay moderninho, é responsável por uma cena mais didática da peça, em que seu personagem explica a origem da bandeira do arco-íris como símbolo LGBTQ+ e, indignado, repassa o histórico de luta da comunidade. A peça, como um todo, é acessível e não excludente, com uma linguagem fácil, então tudo é muito claro. Não havia necessidade de um discurso tão enfático, que poderia até mesmo estragar tudo, mas felizmente isso não acontece. O discurso, quando aparece, é muito verossímil e cabe perfeitamente na boca do personagem. Não caberia na boca de nenhum outro.

“40 Anos Esta Noite” é um ótimo espetáculo. Texto e direção acertados, com cenário elegante de Fernando Mello da Costa, figurinos comunicativos de Carol Lobato e belíssima iluminação de Russinho, com uma surpresa em um momento da encenação. Imperdível.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Dalton Valerio)

Ficha técnica
Texto: Felipe Cabral
Direção: Bruce Gomlevsky
Elenco: Felipe Cabral, Gabriel Albuquerque, Gisela de Castro e Karina Ramil
Argumento: Gisela de Castro
Assistente de Direção: Bruna Diacoyannis
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Russinho
Trilha Sonora: Bruce Gomlevsky
Preparação Vocal: Verônica Machado
Design Gráfico: Redson
Redes Sociais: Rafael Teixeira
Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê Assessoria – Gisele Machado & Bruno Morais
Direção de Produção: Luciana Duque
Produção Executiva: Tatiana Alvim

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SERVIÇO: sáb, 21h; dom e seg, 20h. R$ 50. 90 min. Classificação: 16 anos. De 12 de janeiro até 25 de fevereiro. Tearo Ipanema – Rua Prudent de Morais, 824 – Ipanema. Tel: 2267-3750.

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