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Crítica: 60! – Década de Arromba – Doc. Musical – Theatro Net Rio

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Com Wanderléa à frente do elenco, “60! – Década de Arromba – Doc. Musical” tem como proposta traçar um panorama dos anos 60 em formato documental teatral. O espetáculo mescla vídeos informativos com números musicais protagonizados por jovens atores e a cantora. Há pouca ou nenhuma fala não cantada: ao todo, são cerca de 100 músicas nacionais e internacionais costurando a cronologia ano a ano. As canções ilustram ou complementam os dados apresentados por projeções de fotos, vídeos e notícias da época, como uma grande retrospectiva, sem narração oral. O roteiro e a pesquisa são de Marcos Nauer (de “O Último Lutador”), com direção de Frederico Reder, gestor do Theatro Net Rio, estreante na função.

(Foto: Daniel Seabra / Serendipity Inc)

(Foto: Daniel Seabra / Serendipity Inc)

Há quem não simpatize com os musicais sem dramaturgia: música seguida de música, mais próximo do formato de show teatralizado. Não é o caso aqui. O videografismo – criado por Thiago Stauffer – conduz o espetáculo, sem deixar lacunas, e conta uma história, a do mundo, naquela década. Não se sente falta de diálogos, e a atenção do público é segurada do início ao fim dessa maneira. Também contribui para esse ponto a qualidade de superprodução, assinada pela Brain+, que não deixa nada a ver ou até supera montagens de produtoras consagradas no segmento como Aventura Entretenimento e Möeller e Botelho. São 20 cenários, 300 figurinos, 24 atores e 20 músicos, para se ter uma ideia. Infinitas e rápidas trocas de perucas. Alia-se o melhor do entretenimento com uma boa aula de história.

Houve de tudo na década de 1960: golpe militar e ditadura no Brasil, guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, chegada do homem à lua, morte de nomes célebres como Marilyn Monroe, estreias de “Mary Poppins”, “A Noviça Rebelde” e “Hair”, e até a popularização da boneca Barbie e o lançamento de seu parceiro Ken – uma das cenas mais divertidas da peça, protagonizada por Jullie (de “Constellation”) e Marcelo Ferrari (de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”). Musicalmente, é a época de canções ufanistas, da bossa nova, da jovem guarda, dos Beatles, de Elvis Presley, de composições metafóricas para driblar a ditadura, e canções que se tornariam clássicos atemporais de motéis. É de “Biquíni de Bolinha Amarelinha” a “Non Je Ne Regrette Rien”. Cabe à direção musical de Tony Lucchesi (de “Godspell”) dar conta de tantas variações de maneira harmoniosa. O desempenho da banda e a divisão vocal é certamente um dos elogios a serem feitos ao fim da sessão. Na sessão assistida, o microfone da atriz Bel Lima parou de funcionar em um solo, e foi realmente muito bonito ouvi-la de maneira tão orgânica no teatro: parecia que era proposital. Deu show. Pelo virtuosismo, também destacam-se as vozes de Analu Pimenta (de “Como Eliminar Seu Chefe”) e Cássia Raquel (de “Beatles Num Céu de Diamantes”).

O elenco de tantos nomes mescla rostos conhecidos do teatro musical carioca com algumas revelações, em pé de igualdade. É um time afiado, com ótimas oportunidades para quase todos os integrantes. Alguns ganham espaço pela primeira vez para explorar mais seu talento, como Mateus Ribeiro (de “Meu Amigo, Charlie Brown”), que pode cantar tanto quanto dança. Tauã Delmiro (de “O Edredom”) e Rodrigo Naice sobressaem-se pelo lado cômico, trabalhando em dupla. Muito segura, Fabiana Tolentino (de “O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece”) capricha em detalhes notáveis de sua atuação em todas as entradas. Da nova leva, encanta Leo Araújo pela teatralidade.

Tecnicamente, está tudo no ponto. A iluminação colorida de Daniela Sanchez enche o palco com o grande elenco, dispensando maiores elementos cênicos na maior parte do tempo. O som está impecável, apesar da falha no microfone da jovem atriz. E o cenário, assinado por Natália Lana, literalmente extrapola o palco e ganha o teatro: uma surpresa que alegra o público assim que se entra no teatro. Natália transforma a boca de cena em uma tela de televisor, essencial para a concepção do espetáculo: lúdico e funcional. Juntos, cenografia, iluminação, figurino, banda e elenco apresentam números musicais com identidades próprias, acentuadamente diferentes entre si.

(Foto: Daniel Seabra / Serendipity Inc)

(Foto: Daniel Seabra / Serendipity Inc)

WANDERLÉA
A cantora só entra em cena pela primeira vez no fim do primeiro ato, e faz aparições pontuais no segundo – sempre grandes momentos por sua persona. Com 70 anos de idade e limitações óbvias, ela corresponde ao esperado pelo público em sua estreia no teatro musical. Sua presença é o próprio evento para quem acompanhou a Jovem Guarda: os espectadores mais velhos revelam seu fascínio no olhar. Emocionada com o carinho, Wanderléa demonstra vontade de estar a altura.

É evidente, porém, que ela é poupada de qualquer requinte de coreografias (de Victor Maia, que dão a cara do espetáculo) e que suas entradas tendem a ser mais individualizadas, algo à parte do todo. Limita-se a marcações. Não chega a comprometer, mas a cantora não demonstra coesão com o elenco jovem. Não falo de estar na mesma frequência, por razões lógicas, mas ela realmente parece desintegrada. Alguns números da Ternurinha configuram pausas ou quebras no musical: o momento do show dela e, em seguida, retoma-se. Falta um cuidado para que essas cenas tenham uma linguagem similar às demais.

O GRAAAAAAAAANDE PROBLEMA
“60 – Década de Arromba – Doc. Musical” tem muito mais motivos para elogios do que críticas, mas seu principal defeito está na raiz do projeto. O tema “anos 60”, para um documentário, é extremamente amplo. Extremamente. Não se trata sequer de “música dos anos 60” ou, ainda melhor como recorte, “música brasileira dos anos 60”. Dá pra ser mais específico (sempre!): “jovem guarda”, talvez. Quanto menor o recorte, maiores as chances de tratar bem um assunto. Mas o musical ignora essa premissa básica.

A questão é: a falta de recorte e o interesse global levam a um espetáculo imenso e cansativo (3h30 no dia assistido!) e, inevitavelmente, à superficialidade. É bastante complicado falar de anos 60 e tratar de ditadura militar com uma rápida pincelada em meio a um mar de outras informações, por exemplo. Um documentário pressupõe o aprofundamento em determinado tema e o que o musical apresenta caminha para o oposto disso, pela incapacidade de determinar um enfoque mais fechado. Quer-se falar do que exatamente nos anos 60? Música, política, cultura pop, marcos históricos, etc. etc. etc.? De tudo, não é razoável. Dá para dividir “60 – Década de Arromba” em vários musicais mais concisos, e não menos potentes. Com essa falha, o espetáculo apresenta um excesso de informações, necessário para dar conta do título da peça, mas tratando tudo com brevidade. Além disso, a estrutura do roteiro, pautada ano a ano, com marcações na projeção – 1960, 1961, 1962… – aprisiona a fluidez e, quando o espectador pensa que a peça avançou bastante, surpreende-se ao ver na tela: 1962. Ainda? É como assistir à retrospectiva de dez anos seguidamente. Socorro!

A duração de 3h30 – contrariando o release, que informa 2h30 – comprova a ambição de querer abraçar o mundo, ainda assim, sem conseguir. Trata-se de uma leitura totalmente hegemônica ocidental, para citar apenas um ponto óbvio. E esse não é completamente um problema de realização do espetáculo, mas da concepção do projeto. Claro que há muito (muito!) a ser cortado, mas também com risco de eliminar dados importantes nesse leque temático imensurável ao longo de dez anos. Sugeriria cortes nos créditos iniciais (duram cinco minutos) e no prólogo desnecessário e esquecível dos anos 50 (mais oito minutos), assim como o encurtamento de vídeos e números musicais que permitam isso. Considerando que vídeos e músicas estão em pé de igualdade na concepção do espetáculo, ambos merecem tesouradas para não cansar a plateia. O assunto dos anos 60 e a presença de Wanderléa atrairão inegavelmente um público mais velho, e ficar tanto tempo sentado pode ser mais do que desconfortável.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Daniel Seabra / Serendipity Inc)

(Foto: Daniel Seabra / Serendipity Inc)

Ficha técnica
Roteiro e Pesquisa: Marcos Nauer
Direção: Frederico Reder
Direção Musical: Tony Lucchesi
Elenco: Wanderléa, Amanda Döring, Analu Pimenta, André Sigom, Bel Lima, Cássia Raquel, Deborah Marins, Erika Affonso, Fabiana Tolentino, Giu Mallen, Jade Salim, Jullie, Leandro Massaferri, Leo Araujo, Marcelo Ferrari, Mateus Ribeiro, Pedro Arrais, Rachel Cristina, Raphael Rossatto, Rodrigo Morura, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Rosana Chayin, Tauã Delmiro
Coreografia: Victor Maia
Figurino: Bruno Perlatto
Cenário: Natália Lana
Iluminação: Daniela Sanchez
Diretora Assistente: Alessandra Brantes
Videografismo cenário: Thiago Stauffer
Desenho de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves
Direção de Produção: Juliana Reder e Frederico Reder
Produtores Associados: Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr
Produtor Executivo: Leandro Bispo
Produtor Assistente: Allan Fernando
Estagiária de Produção: Joelma Di Paula
Diretor Executivo: Léo Delgado
Gerente de Marketing: Mauricio Tavares
Direção de Arte: Barbara Lana
Assistente de Direção Musical: Alexandre Queiroz
Operador de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves
Figurinista Assistente: Teresa Abreu
Assistente de Figurino: Karoline Mesquita
Estagiária de Figurinista: Tayane Zille
Estagiária de Figurinista: Jemima Oliveira
Estagiária de Figurinista: Gabriela Silva Fernandes
Coreógrafa Assistente: Clara Costa
Dance Captain: Rodrigo Morura
Cenógrafa Assistente: Marieta Spada
Assistente de Cenografia: Guilherme Ribeiro
Camarins: Vivi Rocha e Kaká Silva

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SERVIÇO: qui e sex, 21h; sáb, 18h30 e 21h30; dom, 20h. R$ 50 a R$ 160 (qui e sex), R$ 50 a R$ 180 (sáb e dom). 210 min. Classificação: 12 anos. Até 18 de dezembro. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2147-8060.

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