Crítica

Crítica: 70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical

Segunda peça de uma tetralogia em andamento, “70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical” dá continuidade ao formato de retrospectiva musical apresentado em “60! Década de Arromba – Doc. Musical” (2016). Mais uma vez, o roteirista Marcos Nauer e o diretor Frederico Reder assinam juntos a concepção do documentário cênico, que repassa pontos altos e músicas marcantes nacional e internacionalmente ao longo de uma década. “60!” contava com o brilho de Wanderléa no elenco e, em “70?”, é a vez das Frenéticas (três das remanescentes: Dhu Moraes, Sandra Pêra e Leiloca Neves) acentuarem a atmosfera nostálgica. O grupo lançou seu primeiro álbum em 1977 e viveu o auge de seu sucesso na reta final daquela década, gravando um disco por ano. Agora, maduras, convidam o público a reviver a era da discoteca e transformam o palco em uma grande “gandaia”. Literalmente.

(Foto: Divulgação)

O espetáculo aprimora a estrutura de “60”, sem diálogos ou qualquer fio narrativo. Os números musicais são independentes e as canções são apresentadas em ordem cronológica de lançamento. É a própria História que costura as cenas – marcadas principalmente pelas coreografias e direção de movimento de Victor Maia, o mesmo do espetáculo anterior. Como não há texto (fora uma breve apresentação das Frenéticas), são o corpo e as feições do atores que devem comunicar, junto com as canções, as emoções, os sentimentos e todas as tramas, de maneira coletiva ou individual. A ideia ainda é mesclar a música ao vivo no palco com vídeos e documentos projetos, mas a equipe criativa encontrou uma maneira mais dinâmica de fazer isso desta vez. No “60”, o material audiovisual histórico tinha o mesmo peso narrativo que qualquer número musical. Em “70”, não. São as músicas cantadas que conduzem o espetáculo – e fotos, vídeos, capas de jornais e revistas são exibidas simultaneamente em telas posicionadas nas laterais do palco. Esse material contextualiza, mas entra mais como adereço decorativo. Não tenho certeza se todo espectador desvia o olho para as telas, sob o risco de perder dados, mas o documentário musical ganhou ritmo com este modelo. As 2h30 de apresentação não são sentidas pela plateia. Ponto pra eles.

Alguns números são mais criativos e elaborados do que outros, mas em geral os musicais trazem as informações bem integradas, com visuais belos e engrenagens funcionais. Quando retrata a ditadura, o espetáculo mira em diferentes ramificações de uma vez, por exemplo. O elenco canta “Cálice”, de Chico Buarque; a cena invoca as Avós da Praça de Maio, de Buenos Aires; e as telas laterais exibem notícias da época, como a volta de Caetano Veloso do exílio. O espetáculo resgata o tropicalismo, o glam rock, a disco music, o punk, o rock, a soul music (aliás, os musicais exclusivos dos atores negros são alguns dos mais potentes) e também canções de musicais, como “Cabaret”, invocando Liza Minelli, e “Ópera do Malandro”. As referências teatrais, sobretudo, são muito valiosas, apresentadas em pé de igualdade com todas as outras. A direção musical de Jules Vandystadt é muito acertada nos medleys apresentados pelos atores-cantores e a orquestra de dez músicos. O material oficial enviado à imprensa afirma que “70” traz 250 canções: a maneira de apresentá-las é muito sábia. Esse é o grande acerto do espetáculo: unir e compilar canções, episódios e detalhes ao máximo possível para fácil digestão do espectador. É muita informação de uma vez, embalada de maneira divertida. Com isso, algumas cenas mais cruas, limitadas a uma única música ou único artista, resultam empobrecidas.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

“70? Década do Divino Maravilhoso – Doc. Musical” é explosivo em cores, músicas, coreografias e projeções. Às vezes realmente assume a cara de “show”. São incontáveis as seguidas trocas de figurinos (assinados por Bruno Perlatto) e perucas que caracterizam o elenco de 24 artistas – a maioria bastante assertiva na viagem no tempo. Há um ou outro desacerto pela hiperteatralização. O figurino da primeira entrada das Frenéticas é uma pavorosa recriação de um que o grupo realmente usou nos anos 1970, potencializando-o ao extremo. Jovens com asinhas e anteninhas eram divertidas, sexy e carnavalescas. A releitura com asas grandes é um pouco constrangedora e – apenas carnavalesca – parece teatro infantil. Na maior parte do espetáculo, porém, são os figurinos que sinalizam marcos na moda, no comportamento, na política e nas artes.

O material enviado à imprensa fala em 20 cenários, mas na verdade o que existe é uma estrutura de base, uma jukebox, por onde entram e saem elementos cênicos que ajudam o elenco a se movimentar, mas não configuram exatamente cenários. É bonita a cenografia de Natalia Lana, marcada fundamentalmente pelo videografismo, capaz de transformar o palco totalmente, em união com o design de luz de Cesio Lima e Mariana Pitta. O espetáculo tem uma aposta digital muito grande e o resultado é mesmo eficaz. O telão central apresenta melhores resultados do que escadas que eventualmente aparecem.

Por outro lado, há a presença das Frenéticas no palco, o que por si só é muito significativo. Elas entram em caráter de celebração, cantam seus sucessos, se locomovem com cuidado e é impossível não se sentir em uma “festa ploc”. A apresentação do grupo traz consigo uma bagagem pesada – com a era da discoteca, uma moda própria, uma inegável associação à novela “Dancin’ Days”, letras libertárias, feministas e empoderadas (quando esse adjetivo nem era usado), e o contexto de um ensaio de redemocratização após anos de ditadura, torturas e censuras. O restante do elenco, que dá conta do grosso do espetáculo, é um grupo coeso, que funciona tão bem junto que são raros os casos em que alguém se sobressai, como a dupla cômica formada por Tauã Delmiro e Rodrigo Naice (ambos vindos de “60”), dadas as devidas oportunidades. Em casos isolados, atores ficam expostos em solos em músicas que exigem o limite do que têm a oferecer vocalmente, mas não chegam a comprometer o espetáculo, que alcança ótimo resultado.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica

Idealização, Direção e Produção – Frederico Reder

Pesquisa, Dramaturgia e Roteiro – Marcos Nauer

Direção Musical – Jules Vandystadt

Coreografia e Direção de Movimento – Victor Maia

Cenário – Natalia Lana

Figurino – Bruno Perlatto

Iluminação – Cesio Lima e Mariana Pitta

Desenho de Som – Talita Kuroda e Thiago Chaves

Direção de Cenografia Digital – Thiago Stauffer – Studio Prime e Marcos Nauer

Visagismo – Adriana Almeida

Direção de Arte – Barbara Lana

Direção de Produção – Maria Siman

Diretor Executivo – Leo Delgado

Diretora Residente Coordenação Artística – Cris Fraga

Diretor de Marketing – Mauricio Tavares

Fotos: Robert Schwenck

Assessoria de comunicação: Dobbs Scarpa

Participação especial das Frenéticas: Dhu Moraes, Leiloca Neves e Sandra Pêra

Elenco: Amanda Döring, Amaury Soares, Aquiles Nascimento, Barbara Ferr, Bruno Boer, Camila Braunna, Debora Pinheiro, Diego Martins, Erika Affonso, Fernanda Biancamano, Larissa Landim, Laura Braga, Leandro Massaferri, Leilane Teles, Leo Araujo, Nando Motta, Pedro Navarro, Pedro Roldan, Rany Hilston, Rodrigo Morura, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Rosana Chayin, Tauã Delmiro.

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SERVIÇO: qui e sex, 20h30; sáb 17h e 21h; dom, 18h. R$ 40,50 a R$160 (qui e sex), R$ 40,50 a R$ 220 (sáb), R$ 40,50 a R$ 200 (dom). 150 min. Classificação: 14 anos. Até 16 de dezembro. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2147-8060 / 2148-8060.

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