Crítica

Crítica: A Invenção do Nordeste

Caso esteja lendo isso antes do dia 29 de julho, corra ao Sesc Copacabana para comprar seu ingresso para ver “A Invenção do Nordeste”. Tem esgotado e dado fila de espera. É muito bom. Mesmo. É uma pena que sua passagem pelo Rio seja tão curta, com menos de um mês de temporada: não dá nem tempo do boca-a-boca acontecer direito. Merecia ao menos um teatro maior: o espetáculo está acomodado no mezanino, recebendo 80 espectadores por sessão. Muito pouco. Tomara que volte para mais apresentações.

(Foto: Rogério Alves)

“A Invenção do Nordeste” é o quarto espetáculo autoral do Grupo Carmin, fundado em 2007 no Rio Grande do Norte. O texto, de autoria de Henrique Fontes e Pablo Capistrano, dá sequência ao teatro documental desenvolvido pelos artistas: em 2016, o grupo apresentou no Rio “Jacy”, baseado em itens encontrados em uma frasqueira abandonada em Natal. No novo espetáculo, a inspiração é o livro homônimo do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., uma tese de doutorado. A dramaturgia é definida como auto-ficção e desconstrói o estereótipo do “nordestino” (esse mesmo que veio à sua mente ao ler essa denominação). Na trama, uma equipe de cinema externa quer um ator nordestino para fazer um personagem nordestino, como se isso fosse um adjetivo cheio de significado. De certa forma, é – ainda que reducionista. Dois jovens disputam o papel, passando por um workshop de sete semanas com um diretor local. Ao mesmo tempo que questionam o que é “ser nordestino”, compreendem que precisam corresponder a certas expectativas para pegar o trabalho. Não basta ser, tem que parecer ser.

A excelente dramaturgia parte da reflexão existencial desses dois atores, testados para ver quem é “o melhor nordestino”, e alcança um pensamento macro. Convida ao diálogo. Por que reconhecemos as especificidades de mineiros, paulistas, cariocas e capixabas, sem agrupá-los no rótulo de “sudestinos” (eu nunca nem ouvi esse termo ser usado), mas não pensamos duas vezes antes de reunir populações de nove estados em um mesmo balaio? O título do espetáculo é ótimo: o “nordeste” é mesmo inventado. A que (ou a quem) serve essa invenção? De maneira didática, a dramaturgia conta essa história e dá algumas respostas. A discussão proposta é profunda, embasada em muita informação, mas tudo de maneira acessível, com humor, por vezes irônico. A única cena que provavelmente não é alcançada pela totalidade da plateia é uma em que são feitas referências muito específicas sobre nomes e conceitos das artes cênicas. Acredito que escapam a muita gente.

A direção assinada por Quitéria Kelly, estreante na função, propõe um intercâmbio de linguagens, utilizando a tecnologia a favor do texto. Estão em cena um celular, um tablet, um projetor e um telão. São utilizadas gravações em áudio e vídeo, assim como projeções dos atores em tempo real. Capas de revista, xilogravuras e réplicas de pinturas também estão presentes e ajudam a contar a história. Todos esses elementos potencializam e contextualizam politicamente a provocação do espetáculo. A direção de arte e cenografia são de Mathieu Duvignaud, muito engrandecedoras, assim como a trilha sonora de Gabriel Souto e Toni Gregório. Nada destoa.

O próprio elenco, formado por Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros, já fortalece a comunicação, porque são três tipos completamente diferentes, mostrando a diversidade apagada nessa “estética nordestina”, quase mitológica. Os figurinos são básicos – “atores em sala de ensaio” – e permitem que o elenco explore bastante o corpo. O trio de atores é ótimo e aproveita muito da metalinguagem do espetáculo a seu favor. É bonito ver gente que domina e sabe o que está fazendo. A peça passa pela voz deles, o sotaque deles. Eles não se apropriam do texto: o discurso é, de fato, deles (Henrique é um dos autores, na realidade), e isso é muito genuíno. O resultado é brilhante. “A Invenção do Nordeste” é o melhor espetáculo dos últimos meses.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Karen Lima)

Ficha técnica
Espetáculo inspirado na obra homônima do Prof. Dr. Durval Muniz de Albuquerque Jr.
Dramaturgia: Henrique Fontes e Pablo Capistrano
Direção e Figurino: Quitéria Kelly
Elenco: Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros
Assistência de Direção, dramaturgia audiovisual e desenho de luz: Pedro Fiuza
Consultoria histórica e de roteiro: Durval Muniz de Albuquerque Jr.
Direção de Arte e Cenografia: Mathieu Duvignaud
Preparação Corporal: Ana Claudia Albano Viana
Preparação Vocal: Gilmar Bedaque
Produção Executiva: Mariana Hardi
Trilha Original: Gabriel Souto / Toni Gregório
Design Gráfico: Teo Viana
Xilogravura: Erick Lima
Costureira: Kátia Dantas
Cenotécnico: Irapuã Junior
Edição de Vídeo: Juliano Barreto
Locução: Daniele Avila Small
Assistência Técnica: Anderson Galdino
Produção (RJ): Paulo Mattos
Assessoria de Imprensa (RJ): Ney Motta

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 30 (ou R$ 7,50 para associados Sesc). 70 min. Classificação: 12 anos. De 12 até 29 de julho. Sesc Copacabana – Sala Multiuso – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

Comentários

comments