Crítica: A Mentira – Teatro em Cena

O novo espetáculo da Cia. OmondÉ, dirigida por Inez Viana, é uma adaptação do romance “A Mentira” de Nelson Rodrigues. Sem cenário, figurinos ou iluminação sofisticados, a montagem se apoia 100% em um jogo de atuação: os atores não têm personagens fixos, ou seja, passam por todos os personagens da história. Isto é, em cada cena, um artista diferente faz a mãe, por exemplo. A mesma personagem, desta forma, ganha diferentes contornos. Sem sair do palco, os atores revezam-se entre si, sem aviso ou acessórios que sinalizem quem é quem, e cabe ao espectador identificar os papéis pelas falas e pelo comportamento de cada um. Isso demanda uma plateia em estado constante de atenção. Concepção criativa.

(Foto: Aline Macedo)

“A Mentira” nasce de um romance originalmente publicado em capítulos no Jornal Última Hora em 1953. Há um melodrama intrínseco nessa amarração de folhetim – algo satirizado pela encenação, quando os atores jogam água na cara uns dos outros para despertar o choro dos personagens. Ao longo da adaptação de Inez Viana para o palco, também percebe-se alguns resquícios dos ganchos que encerram capítulos, deixando o leitor curioso para saber o que virá no próximo.

A história gira em torno de uma família formada pelos pais, três filhas casadas, seus respectivos maridos, e a temporã Lúcia, que aparece grávida aos 14 anos sem revelar quem é o pai do bebê. A novidade gera uma investigação do pai e uma desconfiança geral na família, porque o patriarca – que nutre uma adoração especial por essa filha – acredita que um dos genros pode ser o responsável. O incesto, que Nelson Rodrigues tanto explorou em sua obra, norteia toda a peça, com maior ou menor evidência. Apesar disso, “A Mentira” é um texto bem leve, comparado a tantos outros rodrigueanos.

O elenco é formado por Leonardo Brício, Junior Dantas e Zé Wendell, os três da Cia. Omondé, recebendo os atores convidados André Senna (de “O Urro!”), Elisa Barbosa, Lucas Lacerda (de “LTDA.”) e a bailarina Denise Stutz (que alterna sessões com Inez Viana), esta última com atuação bem limitada. Junior Dantas parece o mais seguro com o jogo cênico proposto pela diretora. Alguns atores titubeiam nas falas (imagine entrar e sair de tantos personagens!), de uma maneira que não compromete, mas é percebida pela plateia. Elisa Barbosa, que se mantém mais no papel de Lúcia, consegue construir uma trajetória mais consistente para a personagem.

Inez Viana assina a “ambientação cênica”, que ela mesma não chama de cenografia na ficha técnica. É uma sacada criativa envolvendo chinelos coloridos no início e no fim da encenação. Sem mais detalhes aqui para não prejudicar sua experiência. Os figurinos, bastante ordinários, seguindo a proposta, ficaram a cargo de Virgínia Barros, mas poderiam ser roupas do armário dos próprios atores. A iluminação de Ana Luzia de Simoni também obedece a máxima de que menos é mais nesta montagem, limitada a variações pontuais. É possível fazer bom teatro com muito pouco.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica:
Texto: Nelson Rodrigues
Direção e Adaptação: Inez Viana
Elenco: Leonardo Bricio, Inez Viana, Denise Stutz (revezando com Inez), Junior Dantas, Zé Wendell, André Senna, Elisa Barbosa, Lucas Lacerda
Assistente de Direção: Bruna Christine
Direção de Movimento: Denise Stutz
Iluminação: Ana Luzia De Simoni
Figurino: Virgínia Barros
Ambientação Cênica: Inez Viana
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Projeto Gráfico: André Senna
Fotos de Divulgação: Aline Macedo
Direção de Produção: Inez Viana
Produção Executiva: Junior Dantas e Lucas Lacerda
Realização: Cia OmondÉ

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SERVIÇO: sex a seg, 20h. R$ 40. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 9 de julho. Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde, s/n- Copacabana. Tel: 2332-7904.

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