Crítica: A Mulher de Bath – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: A Mulher de Bath

Maitê Proença (de “À Beira do Abismo Me Cresceram Asas”) é “A Mulher de Bath”. Em seu novo trabalho no teatro, a atriz encara um monólogo medieval, com direção do renomado Amir Haddad (de “Antígona”). O encontro, por si só, já desperta curiosidade. É a terceira vez que eles trabalham juntos: as outras foram em “As Meninas” (2012) e “À Beira do Abismo Me Cresceram Asas” (2014), ambos espetáculos premiados pela APTR. Em “A Mulher de Bath”, é diferente: trata-se da primeira vez que Amir, de fato, dirige a atriz. Isso acontece em um solo de montagem bastante enxuta, com pouquíssimos elementos cenográficos. Você pode chamar isso de desafio.

(Foto: Sabrina Moura)

“A Mulher de Bath” sequer é um texto teatral. A peça adapta um conto de Geoffrey Chaucer (1343-1400), considerado um dos pais da língua inglesa. A personagem-título é extraída da coleção “Os Contos de Cantuária”, que traz relatos de peregrinos que viajam em direção ao túmulo de São Thomas Beckett na Inglaterra. O próprio livro, no Brasil traduzido por José Francisco Botelho, é tido como um dos formadores da literatura ocidental como se conhece hoje. A personagem destacada na peça é uma viúva de cinco maridos que usa a leitura da Bíblia para justificar sua busca por um sexto esposo: fogosa, ela segue o ideal cristão de que sexo só é permitido no casamento. E ela quer sexo. Como a promiscuidade é pecaminosa, ela não esconde que, uma vez casada, torce para que o marido morra e assim possa “conhecer outro”. É o jeito de variar.

O texto, adaptado pela própria Maitê Proença, mantém a linguagem rebuscada de uma Inglaterra medieval, eficiente para transportar o público no tempo. O figurino vermelho assinado por Angèle Froes e os adereços de Marcilio Barroco também sublinham a época da história, maquiando a escassez do mínimo cenário de Luiz Henrique Sá. A iluminação de Vilmar Olos, na sessão assistida, foi muito prejudica pela execução: Maite chegou a brincar, em cena, que a operadora era nova e devia estar “testando coisas”. Uma gafe. No palco, a atriz tem uma mesa, uma cadeira e uma cortina cáqui por onde entra e sai em movimentação coreografada. Além disso, Alessandro Persan, que assina a trilha sonora e a assistência de direção, opera o som do palco: opção cênica pouco justificada por um par de interações entre ele e a atriz. São poucos recursos: a montagem fica muito por conta do trabalho de atuação.

Maitê começa o espetáculo tratando justamente disso. Despida de personagem, ela explica a história e seu contexto, as condições da montagem e convida os espectadores a embarcarem com ela. A Mulher de Bath, no palco, confidencia aos ouvintes suas histórias com bom humor – as agressões sofridas pelos maridos, seu interesse em ser desejada por outros homens, apesar de sua fidelidade, as manipulações femininas para conseguir o que quer, as artimanhas para corresponder às expectativas de uma sociedade machista e patriarcal, seus erros e seus acertos, etc. Alguns trechos revelam pensamentos bastante feministas para a época, o que interessa à sociedade atual. Na reta final da peça, a adaptação parece ser menos feliz, com uma quebra de linearidade entre o quinto marido e uma ficção que a mulher conta para concluir sua narrativa. Com atuação irregular, Maitê varia entre momentos bons e outros nem tanto, com alguns deslizes, sem superar artificialidade trazida pela embocadura do texto. Com 70 minutos de duração, o espetáculo cansa antes de chegar ao quinto marido e, quando chega, ainda tem mais história. Os relatos da personagem não diferem tanto entre si, e a direção não consegue impedir a sensação de monotonia ao se apoiar totalmente na oratória da atriz. Poderia ser melhor.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Matheus José Maria/Divulgação)

Ficha técnica

Texto: Geoffrey Chaucer

Tradução: José Francisco Botelho

Adaptação: Maitê Proença

Direção: Amir Haddad

Com: Maitê Proença

Participação do ator e músico: Alessandro Persan

Cenário: Luiz Henrique Sá

Figurino: Angèle Froes

Adereços: Marcilio Barroco

Iluminação: Vilmar Olos

Preparadora Corporal: Marina Salomon

Assistente de direção: Alessandro Persan

Trilha Sonora: Alessandro Persan

Camareiro: Fefo Fernando

Fotos divulgação: Daniel Chiacos e Matheus José Maria

Fotos de cena: Sabrina Moura e Matheus José Maria

Mídias Sociais: Rafael Teixeira

Projeto Gráfico: Fabio Arruda e Rodrigo Bleque (Cubículo)

Idealização: Maitê Proença

Direção de Produção: Maitê Proença

Realização: M. Proença Produções Artísticas Ltda.

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 19h. Classificação: 12 anos. Até 29 de abril. Teatro XP Investimentos – Avenida Bartolomeu Mitre, 1110B – Gávea. Tel: 2537-9057.

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