Crítica: A Mulher Invisível – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: A Mulher Invisível

O monólogo “A Mulher Invisível”, em cartaz no Teatro da Caixa Nelson Rodrigues, no Centro, promove o encontro da atriz Catarina Abdalla (de “Maroquinhas Fru-Fru”) com o diretor Amir Haddad (de “Shakespeare e os Orixás – A Tempestade”). O espetáculo não tem nenhuma conexão com o filme ou a série de TV homônimos estrelados por Luana Piovani (de “Mania de Explicação”) e Selton Mello (de “O Zelador”). Digo isso porque, na saída do teatro, ouvi algumas pessoas decepcionadas por terem ido motivadas pela comédia romântica sobre a mulher ideal. Não se trata disso a peça: ela busca tocar no tema da invisibilidade social. Está mais para a sociologia do que para o entretenimento. No palco, Catarina dá vida a Eunice, faxineira de uma loja que – de tão invisível para todos – só tem um manequim para conversar. Teoricamente, é uma comédia.

(Foto: Gustavo Otero)

O texto de Maria Carmem Barbosa (de “Pelo Amor de Deus, Não Fala Assim Comigo!”), com dramaturgia de Érida Castelo Branco (de “Shakespeare e os Orixás – A Tempestade”), desvenda pouco a pouco a realidade dessa mulher que, para chegar ao trabalho, tem que enfrentar uma saga para driblar a guerra do tráfico no morro em que vive. A trama passa superficialmente por questões como violência doméstica, prostituição e recrutamento de menores para o tráfico de drogas na favela. Para tornar temas densos palatáveis, a peça se esforça para ser engraçada – e esse acaba se tornando seu maior problema. São tentativas sucessivas de humor mal sucedidas, que provocam risos tímidos apenas em um ou outro espectador, o que consolida uma atmosfera patética. Abdalla também não alcança bom resultado cômico, a não ser em gestuais bobos, como se aproximar ou tocar a região das nádegas ou do pênis do manequim com o qual contracena. Quando isso é o mais engraçado que se pode oferecer, não se está no caminho correto.

Na verdade, a encenação começa errada desde que a atriz entra na sala do teatro. Ela aparece por trás do público e desce até o palco, cumprimentando os espectadores e agradecendo a todos pela presença. Está ali como “ela mesma”, Catarina Abdalla. Faz um breve discurso sobre o teatro como resistência – talvez em um momento inadequado, pois seria melhor no fim – e o terceiro sinal finalmente toca. Ela, então, sobe no palco dizendo que vai incorporar a personagem. Notavelmente, o público fica confuso se aquilo tudo já faz parte do espetáculo ou não. Da experiência, sem dúvida. Haddad explora ferramentas brechtianas de explicitar a presença da atriz para a quebra da ilusão teatral. No meio da encenação, Abdalla também sai e volta para o personagem – novamente falhando ao tentar fazer graça. Com tantas rupturas, a atriz estreita diálogo direto com a plateia, o que é interpretado por alguns espectadores como um convite a interação, mas Abdalla não está aberta a isso. Quando eles sentem-se confiantes para comentar e sugerir pontos para a personagem (o que é mesmo incoveniente), a atriz visivelmente se aborrece e se sente interrompida. Mas é o próprio formato da apresentação, desde o início, que gera mal-entendido e mal-estar. Não é interativo, mas deixa parecer que é. Pronto: climão.

Esteticamente, não há nada que torne a encenação mais interessante. Não existe cenário (embora a ficha técnica credite Fernando Mello da Costa por absolutamente nada além de uma cortina preta e um carrinho de limpeza) e o palco se torna grande demais para Catarina, a vassoura e o manequim. Talvez a proposta funcionasse em um espaço menor como o porão do Laura Alvim ou o Poeirinha. No Teatro Nelson Rodrigues, não. Fica a impressão de assistir a um ensaio. O figurino, assinado por Pedro Sayad, também não pontua nenhuma teatralidade, e definitivamente não remete a nenhuma faxineira. Sequer é adequada para o serviço. A roupa da personagem confunde-se com a da atriz. Há ainda uma trilha sonora nem sempre bem executada e a iluminação de Aurélio de Simoni que se propõe ao básico. Ou seja, tudo que existe é o texto e a atuação de Catarina, que teriam que ser formidáveis para sustentar tantas ausências, inclusive a de graça.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Gustavo Otero)

Ficha técnica
Elenco: Catarina Abdalla
Texto: Maria Carmem Barbosa
Direção: Amir Haddad
Dramaturgia: Érida Castelo Branco
Assistente de Direção: Érida Castelo Branco
Cenografia: Fernando Mello da Costa
Iluminação: Aurélio de Simoni
Figurino: Pedro Sayad
Coordenação de Produção: Carol Bandeira
Produção: Dyogo Botelho, Flávia Fialho e Paulo Dary
Design: Bruno Garcia e Guilherme Telles
Comunicação: Gabriel Wasserman
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna e Catharina Rocha
Assessoria de Relacionamento: Menna Barreto
Diretor Financeiro: Rodrigo Wodraschka
Idealização e Direção de Produção: Miguel Colker

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 30 (balcão) e R$ 40 (plateia). 80 min. Classificação: 12 anos. Até 17 de dezembro. Teatro da Caixa Nelson Rodrigues – Avenida República do Chile, 230 – Centro. Tel: 3509-9621.

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