Crítica: A Noviça Rebelde – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: A Noviça Rebelde

Dez anos separam as duas montagens de “A Noviça Rebelde” com assinatura da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho (recentemente vistos no Rio com “Se Meu Apartamento Falasse”): 2008-2018. Uma década atrás, a atriz Malu Rodrigues (de “Se Meu Apartamento Falasse”) era uma das crianças Von Trapp. Agora adulta, encarna o papel principal, que foi de Mary Martin na Broadway (ganhou o Tony por isso) e de Julie Andrews no filme de Hollywood (indicada ao Oscar): a realização de um sonho, ela diz. Apadrinhada pelos diretores, Malu é uma das artistas de teatro musical mais ativas e proeminentes de sua geração. Vê-la como a noviça Maria obviamente mexe em um lugar afetivo do público, que acompanhou seu crescimento pessoal e artístico no palco. Mas felizmente “A Noviça Rebelde” não se sustenta apenas nesse valor sentimental. Vi o espetáculo em uma sessão excepcional em que Malu não fez, porque estava ao vivo no “Domingão do Faustão” justamente divulgando o musical. Quem assumiu o papel de Maria foi Jullie (protagonista de “Constellation”), que normalmente integra o ensemble e faz parte do elenco de freiras. Foi uma ótima apresentação, e era seu primeiro dia como a noviça rebelde. Competente, a atriz não deu nenhum sinal de que não estivesse fazendo aquela personagem há meses. Doce, amável com as crianças, precisa nas notas e nas coreografias: não há o que reclamar de sua Maria. Ótimo.

(Foto: João Caldas)

Dito isto, ao espetáculo. Passados quase 60 anos da estreia de “The Sound of Music” (título original do musical) na Broadway, ele confirma-se atemporal. Com texto de Howard Lindsay e Russel Crouse, baseado no livro de memórias da austríaca Maria von Trapp (que realmente existiu), “The Story of the Trapp Family Singers”, e músicas de Rodgers & Hammerstein II, o musical é para toda a família. Há a inocência das canções, como “Do-Re-Mi”, “Sixteen Going On Seventeen” e “So Long, Farewell”, que são mesmo infantis, e também a carga dramática e histórica de uma família tendo que fugir do nazismo que invadiu a Áustria, contexto que naturalmente interessa mais aos adultos. Na história, a noviça Maria, incapaz de se adaptar às normas do convento, é enviada para trabalhar como babá na casa de um capitão da marinha, pai viúvo de sete filhos entre cinco e 16 anos. No primeiro ato, o romantismo predomina: Maria confronta o regime militar daquele lar, levando intuitivamente música e amor para as crianças. Acaba descobrindo-se apaixonada pelo patrão. Foge de volta para o convento. No segundo ato, retorna para a casa, aconselhada pela Madre Superiora a enfrentar seus dramas. Acaba se casando com o capitão. E então o foco da história passa a ser a dominação alemã na Áustria e a insubmissão da família ao regime nazista, enquanto a maior parte da elite está mais disposta a se aliar aos alemães para salvar a própria pele.

Bem, tudo isso é material dado pela Broadway. A montagem brasileira, já apresentada em São Paulo antes de chegar ao Rio, mantém também cenários e figurinos nos padrões internacionais, sem maiores inovações: assinados respectivamente pelos britânicos David Harris e Simon Wells. É a estética a qual você está habituado se viu vídeos no Youtube, fotos na Internet ou até mesmo o filme com Julie Andrews. Há também cenários projetados (da Maze FX), prejudicados pela textura do cenário, que não é lisa: o resultado, nestes casos, não são tão bons. A iluminação (de Drika Matheus) também não favorece quando existem essas projeções. Na maior parte do tempo, no entanto, é satisfatória. Tratando ainda do quesito importação, há as coreografias – aqui assinadas por Alonso Barros – que respeitam momentos icônicos e graciosos do musical americano.

No total, o elenco de “A Noviça Rebelde” contabiliza 45 atores – nem todos em cena. Há um esquema de alternância entre as crianças para dar conta de todas as sessões. Na apresentação que vi, a chamariz de público Larissa Manoela não estava presente. Ela faz Liesl, a filha mais velha, apaixonada por um jovem nazista. O papel ficou a cargo de Fernanda Misailidis (de “Favela – Comédia Musical”), satisfatória. O elenco infantil é uma graça e super competente. No adulto, os destaques são Gabriel Braga Nunes (de “Inutilezas”) como o capitão, Marcelo Serrado (de “Vilões de Shakespeare”) como o amigo Max Detweiler, Alessandra Verney (de “Kiss Me, Kate”) como a baronesa pretendente do capitão, Diego Montez (de “Chacrinha – O Musical”) como o carteiro nazista e Gottsha (de “Beatles Num Céu de Diamantes”) como a Madre Superiora. Braga Nunes está adequado ao papel, mas com pouca química com Jullie. Gottsha dá uma interpretação mais maternal e menos austera para sua personagem, em leitura interessante. Serrado explora a veia cômica com ares de Crô. Montez e Verney, além de Gottsha, são os que se sobressaem cantando as belas versões assinadas por Claudio Botelho. Gottsha é muito aplaudida em seu número. Os demais não comprometem, mas também não agradam. O ensemble, sim, exerce um trabalho muito bom: base de todo musical, neste em específico é uma voz harmônica importante e necessária. A direção musical é de Marcelo Castro, parceiro recorrente de Möeller e Botelho, e a orquestra inclui 18 músicos: um primor. Ouvi-la é realmente prazeroso. “A Noviça Rebelde” resulta uma boa experiência para a plateia e, claro, essencial para os fãs de musicais.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: João Caldas)

Ficha técnica
Música de Richard Rodgers e letra de Oscar Hammerstein II
Libreto de Howard Lindsay e Russel Crouse
Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho
Versão Brasileira: Claudio Botelho
Direção: Charles Möeller
Elenco: Malu Rodrigues, Gabriel Braga Nunes, Marcelo Serrado, Alessandra Verney, Larissa Manoela, Diego Montez, Gottsha, Marianna Alexandre, Erika Riba, Roberto Pirillo, Ruben Gabira, Daniel Carneiro, Carlos Arruza, Leonardo Iglesias, Daniel Rocha, Talita Silveira, Raquel Antunes, Jana Amorim, Ana Catharina Oliveira, Ana Luiza Ferreira, Andressa Inácio, Aurora Dias, Jullie, Lethícia Loyola, Luiza Lapa, Mafê Massyliouk, Fernanda Misailidis, Andrei Lamberg, Alex Junior, Leonardo Cidade, Beatriz Messias, Paola Castro, Raffa Piettro, Vinícius Pieri, Tiago Henrique, Carol Enne, Ágatha Félix, Any Maia, Lara Cariello, Bruna Negendank, Júlia Teodora, Luisa Erlanger, Ananda Terra, Duda Batista, Maria Carolina Basilio.
Direção de Produção: Vinícius Munhoz
Coordenação Artística: Tina Salles
Cenógrafo: David Harris
Figurinista: Simon Wells
Direção Musical: Marcelo Castro
Direção Residente: Glaucia da Fonseca
Coreógrafo: Alonso Barros
Visagista: Simone Momo
Design de Som: Marcelo Claret
Design de Luz: Drika Matheus
Design de Projeção: Maze FX
Produção: Atelier de Cultura e M&B

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SERVIÇO: qui e sex, 21h; sáb, 16h e 21h; dom, 15h e 20h. R$ 75 a R$ 170 (qui e sex) ou R$ 75 a R$ 200 (sáb e dom). 160 min. Classificação: livre. Até 2 de setembro. Cidade das Artes – Avenida das Américas, 5300 – Barra da Tijuca. Tel: 3328-5300.

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