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Crítica: A Paz Perpétua – Oi Futuro Flamengo

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Com referências ao filósofo Immanuel Kant (1724-1804), “A Paz Perpétua” é o mais recente trabalho de Aderbal Freire-Filho. Após duas montagens sucessivas de um dramaturgo libanês (“Incêndios”, “Céus”), o diretor se debruça sobre o texto de Juan Mayorga, autor espanhol traduzido para dezenas de idiomas. Assinando a tradução, o cenário, a co-produção e a direção da peça, Aderbal traz para o Brasil uma fábula adulta sobre três cachorros participantes de um processo seletivo para entrar para a elite canina de antiterrorismo. Originalmente montada na Espanha em 2007, a peça faz parte de um grupo de obras do autor centradas em animais, como “Palabra de Perro” (2003), sobre dois cachorros que adquirem a habilidade de falar como humanos; “Últimas Palabras de Copito de Nieve” (2004), protagonizada por um gorila albino; e “La Tortuga de Darwin” (2008), focada em uma tartaruga bicentenária. Usar o universo animal de maneira metafórica é algo que Mayorga gosta de fazer.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

O espetáculo montado por Aderbal começa com os três cães acordando em uma espécie de sala de espera, para onde foram levados por terceiros. Odin, o oportunista cínico (João Velho, de “A Santa Joana dos Matadouros”); Emanuel, o intelectual passivo (Cadu Garcia, de “Galápagos”); e John-John (José Loreto, de “Garotos”), o forte irracional, são os três finalistas da disputa pela “coleira branca”, o que significa um emprego de alto nível no combate ao terrorismo. Os cães foram selecionados após uma corrida e têm que enfrentar mais uma bateria de provas de habilidades, avaliadas pelo mito canino Cássius (Alex Nader, de “Caranguejo Overdrive”), cadeirante, cego de um olho e surdo de um ouvido após acidentes de trabalho. Ao longo da trama, o público descobre um pouco mais sobre a história e as motivações de cada personagem, assim como as circunstâncias do emprego ao qual concorrem. O texto utiliza esse argumento canino para tratar de ética, justiça e democracia. Apesar dos personagens animais, a humanidade pulsa na encenação.

Os atores não apresentam caracterizações óbvias. São híbridos de cães e humanos. Usam calçados, calças, camisas, tudo da moda humana, mas com coleiras discretas. John-John, que passou por um treinamento especializado, carrega ainda fones de ouvido para ouvir o som que o tranquiliza – como o exército americano no Iraque. Na interpretação, o elenco também mescla comportamentos essencialmente caninos com outros caracteristicamente humanos. Ora estão de quatro, ora estão apenas sobre duas pernas. Essa opção cênica, ainda que muito interessante, leva o público a rir em alguns momentos por ver homens com trejeitos animais: de alguma maneira, esse ponto de partida não é superado e causa certos ruídos. Não me parece que era para ter graça. E esse não é um problema de atuação – todo o elenco, incluindo Gillray Coutinho (de “Linda”), que interpreta o único humano, apresenta ótimo desempenho. É uma questão da ordem da direção. O pacto da proposta da encenação com a plateia falha em alguma medida. São cerca de três ou quatro momentos em que o público ri por ver os atores comportando-se como cães, que eles são, mas que os espectadores parecem esquecer que eram. Claro que vê-los com trajes humanos não ajuda. Se, por um lado, os figurinos assinados por Antônio Medeiros aproximam o público pela identificação humana, por outro, não acentuam a natureza dos personagens.

O cenário é impecável e bem utilizado, a iluminação de Maneco Quinderé mostra-se satisfatória, e a trilha de Tato Taborda revela contrastes pertinentes. Trata-se de uma produção de qualidade, sem dúvida. A ideia de Juan Mayorga (cães para questões humanas), seguida por Aderbal, é perspicaz: um bom ponto de partida. No entanto, o texto dá voltas, mas não vai além da largada. A proposta do ser híbrido, que acaba sendo o mais interessante de se assistir, também traz seus próprios entraves – nem todos solucionados, como mencionado anteriormente. O resultado, então, é um espetáculo de alto potencial, que você assiste do início ao fim à espera de algo arrebatador, um superclímax, que não vem. De excelência latente.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Juan Mayorga
Direção e Tradução: Aderbal Freire-Filho
Diretor Assistente: Fernando Philbert
Elenco: Alex Nader, Gillray Coutinho, João Velho, José Loreto, Kadú Garcia e Manoel Madeira
Iluminação: Maneco Quinderé
Cenário: Aderbal Freire-Filho
Música: Tato Taborda
Figurino: Antônio Medeiros
Projeto gráfico: Radiográfico
Assistência de Produção: Roberta Aguiar
Produção Executiva e Fotografia: Nil Caniné
Direção de Produção: Sérgio Martins
Coprodução: A Freire-Filho, Somart e TEMPO_FESTIVAL
Realização: Somart Produções Artísticas

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 11 de dezembro. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.

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