Crítica: A Vida ao Lado – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: A Vida ao Lado

Imagine receber uma notificação da prefeitura de que você terá que desocupar o apartamento onde vive para que o prédio seja derrubado e ali se construa um aquário exótico. É diante dessa situação que estão os personagens da peça “A Vida ao Lado”, escrita e dirigida por Cristina Fagundes (do “Clube da Cena”), que também está em cena. O espetáculo acompanha o dia a dia dos moradores de um prédio, que tem 30 dias para deixar o local. No palco, sete atores se dividem entre distintos personagens, tanto moradores quanto trabalhadores deste edifício.

(Foto: Lu Valiatti)

O interessante da dramaturgia é a fuga da obviedade: a situação de iminente desocupação é tratada como uma tensão que permeia todas as relações, mas não exatamente conduz a história. Tanto é que a peça tem ótimos momentos cômicos, apesar das condições dramáticas. Cada casa – com sua própria formatação de família – traz seus conflitos específicos, que não deixam de existir por ter surgido um macro. A rotina continua, para o bem e para o mal. Os personagens se debatem sobre maternidade, emprego, solidão, traição, dinheiro, medo, sexualidade, violência, preconceito, domínio, bullying e roubo, para citar os mais evidentes. Dos mais novos aos mais velhos, todos têm suas questões. Alguns diálogos são valiosos – com boa dose de ironia de humor sofisticado.

O texto é fragmentado mas linear, e a direção trabalha também com simultaneidade: o fim de uma cena acontecendo simultaneamente ao início de outra. Em alguns momentos, o ator troca de personagem ao dar dois ou três passos. As marcações do elenco e a iluminação conduzem o olhar do espectador com clareza, apesar da abundância de informação. Existe uma notável trilha sonora, que funciona como interlúdios, mas a meu ver um tanto equivocados: são músicas country e folk que convidam a imaginação para um ambiente mais rural do que urbano. Além disso, na sessão assistida, o som estava instável – erro técnico que também ocorreu na luz.

A concepção de Cristina Fagundes para o espetáculo é engenhosa. O cenário (de Alice Cruz e Tuca Benvenutti) é composto por uma rede de encanamento, que deixa latente que tudo vai virar água em breve, enquanto o próprio texto traz menção a uma infiltração. Pode querer dizer também que todos os problemas dos personagens estão cercados pelo maior, da chegada do aquário, simbolizado pela água. Isso culmina com o fim do espetáculo – mas não vou dar spoiler para não estragar a surpresa. A bem elaborada iluminação (de Aurélio De Simoni), além de traçar diferentes possibilidades para os atores, também põe holofotes em cima dos canos, provocando um efeito estético de beleza onde não se espera. Os figurinos (de Sol Azulay) seguem uma paleta de cores fechada, em geral cinza como concreto, e os atores têm a mesma caracterização para todos os personagens: Bia Guedes (de “Ela É Meu Marido”) só solta e prende o cabelo para compor duas mulheres diferentes.

Todo o elenco apresenta atuação convincente, com sutilezas e traços característicos para cada personagem. Alexandre Barros (de “Como Me Tornei Estúpido”) é o síndico do prédio e uma criança perversa; Alexandre Varella (de “Tubarões”) é o menino bonzinho que perdeu seu cachorro, o marido sádico que mantém uma relação comercial com a esposa, e uma das pontas de um trisal; Flavia Espírito Santo (de “A Verdadeira Historia de Alessandra Colasanti”) é a mulher do trisal, pressionada pelos dois maridos para engravidar; Bia Guedes é a empregada doméstica de uma das casas e a esposa femme fatale em outra casa; Cristina Fagundes é a mulher do síndico, preocupada com a sexualidade do filho; Ana Paula Novellino (de “Dois É Bom”) é uma mãe confrontando a iminente solidão com a partida da família; e Marcello Gonçalves (de “Meu Ex Imaginário”) é o porteiro, uma criança que não fala português, e uma das pontas do trisal. Alexandre como o síndico e Marcello como o porteiro rendem momentos especialmente engraçados.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e pós-graduado em Jornalismo Cultural.

(Foto: Lu Valiatti)

Ficha técnica
Texto e direção: Cristina Fagundes
Elenco: Alexandre Barros, Alexandre Varella, Ana Paula Novellino, Bia Guedes, Cristina Fagundes, Flavia Espírito Santo e Marcello Gonçalves.
Diretor assistente: Fernando Melvin
Direção de movimento: Daniel Leuback
Iluminação: Aurélio De Simoni
Cenário: Alice Cruz e Tuca Benvenutti
Figurino: Sol Azulay
Trilha sonora: Isadora Medella
Visagismo: Vini Kilesse
Assistente de figurino: Flavia Espírito Santo
Assistente de trilha sonora: Flavia Belchior
Assistente de visagismo: Flor Pizzolato
Cenotécnico: Dêro Martin
Programação visual: Ivison Spezani
Mídia digital / Redes sociais: Leo Amato
Fotos: Gilberto Vilela
Operador de som: Guilherme Miranda
Operador de luz: Iago Silva
Assessoria de imprensa: Kassu Assessoria de Comunicação
Direção de produção: Cristina Fagundes
Produção executiva: Juliana Trimer

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h30. R$ 40. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 26 de maio. Teatro Municipal Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Centro. Tel: 2220-5033.

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