Crítica: A Vida Não É um Musical – O Musical – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: A Vida Não É um Musical – O Musical

“A Vida Não É um Musical – O Musical”, com esse título irônico, é surpreendentemente bom. Sua sinopse – sobre a personagem de um vale encantado que enfrenta a cidade grande pela primeira vez e descobre a violência, a pobreza e os “problemas do mundo real” – não transmite a grandiosidade do que ele realmente apresenta. Este é um espetáculo extremamente político, que pensa nosso tempo e satiriza figuras e situações facilmente reconhecíveis, e além de tudo é um ótimo musical. Fazendo piada com o uso alienante do gênero, ele endossa a revitalização do teatro musical carioca, puxada por trabalhos nos quais o formato serve ao tema e não o contrário. É brilhante, inclusive para quem detesta musicais, porque tira sarro deles e ainda entrega uma comédia muito boa. Está em cartaz no teatro de arena do Sesc Copacabana: imperdível e baratinho. Ótimo custo/benefício.

(Foto: Carol Pires)

O frescor é trazido por um outsider no teatro musical chamado Leandro Muniz. O roteirista assinou a comédia teatral “Sucesso” (2016) e é um dos nomes por trás de produtos queridinhos da audiência como a franquia cinematográfica “Meu Passado Me Condena” (2013, 2015) e o talk show de TV “Lady Night” (2017). No novo espetáculo, além de assinar o texto, ele divide a direção com João Fonseca – este sim um nome tarimbado no teatro musical carioca. São dele destaques do filão biográfico: “Tim Maia, Vale Tudo – O Musical” (2011), “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical” (2013) e “Cássia Eller, o Musical” (2014). Isso não impede, e talvez até instigue, que o novo trabalho tire sarro desses musicais-tributo em uma cena. A parceria entre Leandro e João é antiga: o autor começou a carreira trabalhando com a Cia. Os Fodidos Privilegiados, dirigida por João.

“A Vida Não é um Musical” começou a ser concebido há dez anos como um esquete criado para um festival. Chamava-se “Musical Disney”. O espetáculo provoca justamente o contraste entre o mundo ideal dos filmes da Disney e a “vida real”. Na história, Liz vive com o marido e os filhos em um vilarejo onde tudo é perfeito, a harmonia e a felicidade imperam e todos cantam e dançam sem razão aparente. Não há espaço para insatisfação. Mas existe um problema: as fronteiras não podem ser ultrapassadas e é vetado todo e qualquer contato com pessoas do mundo externo. Ou seja, a liberdade é cerceada. Ao desafiar a regra, Liz é obrigada a fugir do vale e encarar a imensidão da cidade grande – onde ela vai parar em uma favela, sofre um assalto e, com o decorrer dos fatos, acaba se tornando candidata a governadora, confrontando sua inocência com a podridão inerente a uma campanha eleitoral. São incontáveis as referências à história política recente da cidade e do país, e o público se diverte ao identificar personagens e episódios marcantes. O texto trata de milícia, corrupção, manipulação midiática, prisões e assassinatos políticos, assédio, radicalismo, pauta religiosa, perseguição, marketing eleitoral… e poderia resultar superficial ao abrir um leque tão amplo de subtemas, mas é tudo muito bem engrenado e articulado. O texto de Leandro Muniz é certamente uma grande força do espetáculo, somado às canções originais de Fabiano Krieger, que debocham de tudo, inclusive de suas métricas e melodias. A direção musical é de Fabiano e Gustavo Salgado, responsáveis por articular as dez vozes do elenco com a banda, localizada no alto da arquibancada, com som potente. Na sessão assistida, em alguns momentos, o som dos intrumentos sobrepunha ao canto, dificultando o entendimento da letra, mas isso aconteceu poucas vezes.

A sátira proposta pelo espetáculo marca todos os elementos da encenação. Os diretores dosam quais estarão mais ou menos evidentes em cada cena, de maneira eficaz para que não se torne um grande pastelão desmedido. O cenário de Nello Marrese traz bexigas que invadem a plateia e um amplo tapete verde sinalizando o gramado do vale, com desenhos toscos nele – algo muito simplório, na verdade. O contorno da arena é marcado por um tecido azul, que marca as fronteiras do vale e esconde o lixo do mundo real, revelado quando necessário. Os figurinos de Carol Lobato, no início, se dedicam à construção do imaginário desse lugar encantado, com riqueza de detalhes, mas não tardam a se entregar ao escárnio pedido pelo texto em personagens-chave. A iluminação de Paulo Denizot pode ser o elemento mais contido, evitado a poluição de informações.

O espetáculo conta com uma narradora (Ingrid Gaigher, de “Rent”), que só serve para satirizar a existência das narrações em contos de fadas. O elenco se divide em vários papéis, com exceção de Daniela Fontan (de “Sucesso”) como a protagonista abobada Liz e Thelmo Fernandes (de “O Beijo no Asfalto – O Musical”) como o perverso governador em busca de reeleição. Thelmo é ótimo em personagens inescrupulosos. No núcleo principal, também estão Nando Brandão (de “Só Por Hoje – O Musical”), com ótima atuação na pele do político idealista por quem Liz se apaixona, e Marcelo Nogueira (de “Agnaldo Rayol – A Alma do Brasil”), como o marido de desenho animado que ela deixa para trás. Todos trazem interpretações divertidas, em diferentes camadas. O time é completado por Augusto Volcato (de “O Menino das Marchinhas – Braguinha Para Crianças”), Ester Dias (de “O Jovem Frankenstein” da UNIRIO), Flora Menezes (de “Só Por Hoje – O Musical”), Joana Mendes (de “Só Por Hoje – O Musical”) e Udylê Procópio (de “Bituca – Milton Nascimento Para Crianças”), com ótimas contribuições. Outro ponto que me chamou atenção e não posso deixar passar despercebido é a diversidade dos atores escalados – em cores, tamanhos, gêneros, faixas etárias e bagagens – o que hoje em dia é fundamental para se falar de política sem leviandade.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Carol Pires)

Ficha técnica

AUTOR : Leandro Muniz

DIREÇÃO : João Fonseca e Leandro Muniz

ELENCO: Daniela Fontan, Thelmo Fernandes, Augusto Volcato, Ester Dias, Flora Menezes, Ingrid Gaigher, Joana Mendes, Marcelo Nogueira, Nando Brandão e Udylê Procópio

DIREÇÃO MUSICAL Fabiano Krieger e Gustavo Salgado

MUSICAS ORIGINAIS: Fabiano Krieger

DIREÇÃO DE MOVIMENTO E COREOGRAFIAS: Carol Pires

FIGURINO : Carol Lobato

CENÁRIO : Nello Marrese

ILUMINAÇÃO: Paulo Denizot

DESIGN DE SOM: Rossini Maltoni

DESIGN GRAFICO : Pablito Kucarz

FOTOS: Carol Pires

VISAGISMO: Diego Nardes

ASSESSORIA DE IMPRENSA: Duetto Comunicação

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Junior Godim

PRODUÇÃO EXECUTIVA: Juliana Trimer

ASSISTENTE DE PRODUÇÃO Nely Coelho

REALIZAÇÃO: Quase Companhia

IDEALIZAÇÃO: Leandro Muniz

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 30. 105 min. Classificação: 16 anos. Até 6 de maio. Arena do Sesc Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2548-1088.

Comentários

comments