Crítica

Crítica: A Visita da Velha Senhora

Há artistas que conseguem transformar seu nome em sinônimo de qualidade no teatro. É difícil, mas Denise Fraga (de “Galileu Galilei”) conseguiu. Produzindo seus próprios espetáculos, a atriz de 53 anos tem construído um portfólio invejável e elogiável. Sua mais recente montagem, “A Visita da Velha Senhora”, dirigida pelo marido Luiz Villaça (de “Sem Pensar”), é mais um grande acerto em seu currículo. Escrita pelo autor suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) na década de 1950, a peça impressiona pela atualidade da reflexão que levanta: por quanto você se corrompe? Quando o dinheiro entra em jogo, a ética tem alguma chance? O público sai do teatro questionando os próprios limites e corrupções do dia-a-dia. Quem tem dinheiro pode tudo? Quem não tem se sujeita a tudo para ter? Quando a necessidade aflora, os valores são flexibilizados? O texto instigas reflexões tão importantes quanto úteis.

(Foto: Cacá Bernardes)

A história se passa em uma cidade europeia chamada Güllen, que está falida, com fábricas fechadas, vida cultural morta e população empobrecida. Após várias tentativas frustradas de empréstimos e doações, o prefeito vê uma luz no fim do túnel: a bilionária Claire Zachanassian, ex-moradora da cidadezinha, está disposta a ajudá-los. Ela chega com sua comitiva e sua soberba e rapidamente é bajulada por todos, interessados em sua fortuna. Claire, então, faz uma proposta: doará 500 milhões para a cidade e mais 500 milhões para serem divididos entre todos os moradores, com uma condição – alguém tem que matar Alfred Krank, o homem mais popular da cidade, cotado para ser o próximo prefeito. Ele namorava Claire na juventude e, quando ela engravidou, foi um canalha ao se casar com outra, que tinha melhor situação financeira; negar a paternidade; e ainda arrumar duas falsas testemunhas que juraram em juízo terem dormido com Claire. Difamada, ela não teve outra saída a não ser deixar a cidade e cair na prostituição. Foi em um bordel que conheceu seu primeiro marido, um ricaço, que lhe deixou tudo de herança. “O mundo fez de mim uma puta, agora faço dele um puteiro” é uma das falas célebres desta dramaturgia fascinante.

O espetáculo é apresentado como uma comédia trágica, mas tenho dúvidas quanto a essa classificação – tanto no que concerne à comédia quanto à tragédia. Um drama de humor sombrio talvez faça mais sentido. Claire e Frank são ao mesmo tempo vítima e algoz um do outro. Vítima de uma injustiça, ela quer comprar a justiça à sua maneira. Frank, por sua vez, se vê na “crônica de uma morte anunciada”: se todos os moradores prometem não matá-lo, ao mesmo tempo fazem dívidas confiantes que alguém o matará e poderão usufruir de novo poder aquisitivo. Quanto mais a cidade prospera, mais ele se vê de cara com a morte. O texto é maravilhoso e a montagem faz jus. Denise Fraga dá vida à bilionária com humor ácido e Tuca Andrada (de “Orlando Silva – O Cantor das Multidões”) é responsável pela carga dramática na pele do homem-alvo. Os dois estão bem em sua disparidade.

No total, são 11 atores no elenco, que funcionam como partes de uma grande engrenagem sem erros. Rafael Faustino (de “Solidão”), como o personal assassino e músico da madame, e Romis Fereira (de “Peer Gynt”), como o professor, se destacam na montagem, fiel ao teatro épico do autor. Os atores recebem o público no início do espetáculo, ajudam a indicar os assentos e, ao longo da encenação, se esforçam para envolver e incluir a plateia nas cenas. Sem mais spoilers, para não estragar o efeito-surpresa, mas a direção consegue fazer com que o público tome parte da trama, o que é muito enriquecedor para a experiência. O cenário se modifica com manuseio dos próprios atores. Figurinos ficam expostos e são acessados no palco pelo elenco. É interessante ver como tudo que excede em Claire (atenção para o visagismo de Simone Barata) falta nos moradores de Güllen, inclusive cor. A trilha sonora, executada ao vivo pelo personal músico, acentua o deboche de muitas cenas. Bom trabalho de Dimi Kireeff e Rafael Faustino. A iluminação vai do aconchegante ao espetacular, conforme as necessidades, o que é ótimo. Esse é sem dúvida um espetáculo a ser visto.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestre em Artes da Cena.

(Foto: Cacá Bernardes)

Ficha Técnica:
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução: Christine Röhrig
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral: Luiz Villaça
Direção de Produção: José Maria
Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino
Direção Musical: Dimi Kireeff
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Preparação Corporal e Coreografias Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Fotografia: Cacá Bernardes
Assessoria de Imprensa RIO: Barata Comunicações | Eduardo Barata
Assessoria de Imprensa SP: Morente Forte Comunicações
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Produção Original: SESI-SP | FIESP
Patrocínio Exclusivo: Bradesco
Realização: Sesc Rio de Janeiro, NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 30. 120 min. Classificação: 14 anos. Até 25 de março. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 18 – Centro. Tel: 2279-4027.

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