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Crítica: Afeta-me Agora ou Desaparecei Com o Tempo – Caixa Cultural

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“Olha essa fila! Hoje, a do teatro está maior que a do cinema! E é domingo! Já deu de Faustão, né gente? É isso aí”. Quem fala é o descontraído ator Vicente Coelho (de “Apesar de Você”), na porta do teatro, onde o público se aglomera a espera do espetáculo “Afeta-me Agora ou Desaparecei Com o Tempo” (que título maravilhoso, aliás). Se já faz parte da peça ou não, não se sabe, mas dá o tom do que é a montagem: uma tentativa de aproximação entre ator e espectador. Resultado do projeto de conclusão de curso de direção teatral da Julia Gorman (atriz de “Mas por quê?!!! – A história de Elvis”), o espetáculo evidencia o interesse dela por experimentações na forma e linguagem cênicas.

(Foto: Rafaê Silva)

(Foto: Rafaê Silva)

Apresentado em uma semiarena, “Afeta-me Agora ou Desaparecei Com o Tempo” convida parte do público a se sentar nas cadeiras e sofás que compõe o cenário, participando de algumas cenas. Na pele dos personagens, os atores também se dirigem ao público o tempo todo, e chegam a oferecer uma degustação de vinho, com o aroma da bebida impregnando o ambiente. A pesquisa de linguagem inclui ainda uma banda executando trilha sonora ao vivo (o elenco de dois atores também toca piano e violão eventualmente), projeções de vídeos ou da transmissão ampliada do que acontece no palco. Tudo isso para contar uma história que, a grosso modo, não passa de uma comédia romântica: a materialização da ideia de que as tramas se repetem, e o que muda é a forma de contar.

Na peça, um casal separado repassa sua história para o público, desde o primeiro encontro na fila do banco, até a dissolução da relação, com ele partindo para Berlim. A trama é apresentada de maneira não-linear, em capítulos nomeados no telão. O espectador testemunha a atração, o encantamento, a rotina, os estresses e as decepções. Nada novo, na verdade. Até clichê. A dramaturgia, organizada pela diretora a partir de um processo colaborativo, não é exatamente o forte da montagem. A decisão pela apresentação não-linear tampouco agrega algum valor a mais.

Algumas das experimentações são mesmo injustificadas, ainda que interessantes. O espetáculo, por exemplo, traz uma ótima cena em que a personagem feminina se revolta com a mídia politicamente tendenciosa, rasga um jornal em pedaços e bate suas folhas em um liquidificador. É ótima, mas não tem nada a ver com todo o resto. Seria ótima para uma outra peça. Aqui, representa uma pausa para uma performance da atriz, Julia Shimura, que naquele momento não parece mais na pele da personagem. Outra ponto que se perde é a questão de levar os espectadores para dentro do cenário, que para por aí: não acrescenta em nada, pois não é explorada profundamente. Já a degustação de vinho, sim, faz todos se sentirem parte da festa que é encenada. O cheiro de bebida compõe a cena.

Falando em cenário, a ficha técnica do espetáculo não aponta esse crédito, o que faz algum sentido. Há direção de arte é assinada por Uirá Clemente, que proporciona bons momentos intermediais, quando a sala é expandida graças às projeções gravadas ou ao vivo, ou quando os atores assumem um microfone que antes não se via (créditos aqui também para a iluminação de Lívia Ataíde). Visualmente, a montagem proporciona uma experiência rica. A música, às vezes excessiva, tem direção de Pedrinhu Junqueira e conduz a love story.

Sobre o elenco: Vicente Coelho e Julia Shimura, o casal, revelam muita química e sintonia, que ajudam a envolver a plateia e tornar a trama crível. Vicente, particularmente, está muito carismático e cativador – desde a porta do teatro. O público gosta facilmente de seu personagem. A proposta da direção de se dirigir à plateia, olho no olho, funciona. Julia Gorman também se sai bem na gerência do espaço, ocupando cenicamente toda a semiarena. Há algo de belo no personagem andando de bicicleta tão próximo dos espectadores. “Afeta-me Agora ou Desaparecerei com o Tempo” é um bom espetáculo – e afeta – por mais que pareça um tanto pretensioso. Faltou só dosar as ideias. Fica a curiosidade por ver mais de Julia Gorman.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Rafaê Silva)

(Foto: Rafaê Silva)

Ficha técnica
Direção: Julia Gorman
Assistência de direção: Bruno Marcos
Pesquisa de Linguagem: Cia Afirma de Teatro
Dramaturgia colaborativa: Julia Gorman (organizadora)
Supervisão de Dramaturgia: Rafael Souza-Ribeiro
Elenco: Julia Shimura e Vicente Coelho
Iluminação: Lívia Ataíde
Direção de Arte: Uirá Clemente
Produção: Débora Paganni e Rubi Schumacher
Direção Musical: Pedrinhu Junqueira.
Trilha sonora original: Danilo Timm, Julia Gorman, Pedrinhu Junqueira e Julia Shimura.
Músicos: Pedrinhu Junqueira, Thaiana Halfed, Antonio Escobar, Gabriel Ballesté e Julia Gorman.
Direção de vídeos e câmera ao vivo: Isabella Raposo
Projeções: Heloísa Duran

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 20. Classificação: 12 anos. Até 18 de dezembro. Caixa Cultural – Teatro de Arena – Avenida Almirante Barroso, 25 – Centro. Tel: 3980-3815.

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