Em 2014, o filme “Álbum de Família” ocupou salas de cinema no país e foi notícia, por conta das indicações ao Oscar para Meryl Streep (atriz protagonista) e Julia Roberts (atriz coadjuvante). No longa-metragem dramático, o espectador assiste à reunião de uma família disfuncional e desgarrada na casa da mãe por conta do desaparecimento do patriarca, o que logo se revela um suicídio. O filme é uma adaptação da peça de teatro “August: Osage County”, de Tracy Letts, que recebeu o Prêmio Pulitzer e cinco Tonys em 2008. No entanto, o espetáculo só chega ao Brasil agora, três anos após o burburinho em torno do filme, com uma montagem estrelada por Guida Vianna (de “O Nó do Coração”) e Letícia Isnard (de “A Reunificação das Duas Coreias”) nos papéis centrais, com atuações tocantes, e direção de André Paes Leme (de “A História de um Barquinho”).

(Foto: Silvana Marques)

A situação da família é essa: Violet Weston, a mãe, viciada em fármacos, faz quimioterapia por conta de um câncer na boca e sente-se no direito de falar o que bem entender para todos – mesmo que tenham acabado de sair do funeral. Bárbara, a filha mais velha, tem o temperamento tão forte quanto o dela, o que gera embates frequentes. Quando sabe do desaparecimento do pai, ela viaja para a casa onde não vai há anos, carregando a filha adolescente e o marido, que já saiu de casa, mas ninguém sabe. Segredos, suas duas irmãs, Ivy e Karen, também têm. Karen chega à casa com um noivo que ninguém conhece, apresentado como o “homem perfeito”, e Ivy, a única que ficou na cidade, está pronta para ir embora, não sem antes botar para fora seus ressentimentos. O reencontro das filhas, todas em torno dos 40 e tantos anos, com a mãe é um acerto de contas familiar, um caldeirão de emoções, e um retrato da miséria humana.

São muitos os sentimentos e remorsos envolvidos na casa pós-funeral. Juntam-se ali filhas, maridos, noivo, neta, tia, primo, empregada contratada uma semana antes… A história mostra um esforço constante de todos para aparentarem melhor do que se sentem antes de sucumbirem ao desgosto geral e explodirem – uns com os outros. É uma família difícil, não mais não menos que qualquer outra, mas aqui dissecada na intimidade de um lar cheio de tensões. Para dar conta de todo o material, a direção de André Paes Leme encontra uma opção enriquecedora de simultaneidade de cenas. Personagens, em diferentes cômodos da casa, aparecem lado a lado, cada um desenvolvendo seus próprios conflitos, o que aumenta a intensidade do que se vê. Isso também exige maior sincronia do elenco, que traz grandes atuações. Guida Vianna comove com os surtos e variações de humor de Violet. Da mesma maneira, Letícia Isnard desperta a empatia com a força aparente de sua Bárbara, enquanto por dentro se desespera com sua vida em ruínas. A verdade é que, na grande família que não sabe demonstrar carinho, todos se sentem muito solitários. Isaac Bernat (de “Incêndios”), Claudia Ventura (de “A Cuíca de Laurindo”), Lorena Comparato (de “#broncadequê?”), Alexandre Dantas (de “A Outra Casa”), Claudio Mendes (de “Ou Tudo Ou Nada – O Musical”), Eliane Costa (de “Lucrécia”), Guilherme Siman (de “Ensina-me a Viver”), Julia Schaeffer (de “As Coisas”) e Marianna Mac Niven (de “Educando Rita”) completam o elenco.

O cenário, assinado por Carlos Alberto Nunes, é ditado pela decisão da direção de cenas simultâneas em cômodos distintos. O palco traz apenas tapetes em organização disforme e cadeiras de madeira em um fundo preto. Paredes e demais mobília são invocadas pela imaginação do espectador a partir de incitações da dramaturgia e da encenação, que se desprende do realismo nesse sentido. É um grande acerto da direção: em momento algum, ocorre confusão sobre quem fala para quem ou onde. A iluminação de Renato Machado também é certeira nesse conceito, diminuindo ou ampliando o espaço cênico, de acordo com as necessidades de cada parte da história. Os figurinos, de Patrícia Muniz, representam a convenção do luto sem demérito das características de cada personagem.

O resultado da montagem é potente. Ao entrelaçar conflitos, a encenação sublinha como o comportamento torto dos personagens, cheios de atitudes errôneas, é profundamente arraigado em uma rede de relações obscuras. Com isso, otimiza-se o drama de “Agosto” e dilui-se o humor, que marca mais acentuadamente algumas partes do filme. É realmente de dar pena dos Weston. Ótimo espetáculo!

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Silvana Marques)

Ficha técnica
Texto: Tracy Letts
Tradução: Guilherme Siman
Direção e Adaptação: André Paes Leme
Direção de Produção: Andrea Alves e Maria Siman
Idealização e Coordenação Geral: Maria Siman
Elenco: Guida Vianna (Violet Weston), Letícia Isnard (Barbara Fordhan), Alexandre Dantas (Steve Heidebrecht), Claudia Ventura (Karen Weston), Claudio Mendes (Charlie Aiken), Eliane Costa (Mattie Fae Aiken), Guilherme Siman (Charlie Júnior), Isaac Bernat (Beverly Weston/Bill Fordham), Julia Schaeffer (Johnna Monevata), Lorena Comparato (Jean Fordham) e Marianna Mac Niven (Ivy Weston).
Diretor Assistente: Anderson Aragón
Cenografia: Carlos Alberto Nunes
Figurino: Patrícia Muniz
Iluminação: Renato Machado
Música: Ricco Viana
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotografia: Silvana Marques
Patrocínio: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Oi
Copatrocínio: Multiterminais
Co-realização: Oi Futuro
Realização: Primeira Página Produções, Sarau Agência de Cultura Brasileira, Ministério da Cultura, Governo Federal – Brasil Ordem e Progresso.

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. 120 min. Classificação: 16 anos. Até 17 de setembro. Oi Futuro – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.

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