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Crítica: Amor em Dois Atos – Sesc Copacabana

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Os atores Julia Lund (de “Estamos Indo Embora”) e Otto Jr. (de “Labirinto”) têm o desafio de apresentar dois espetáculos seguidos de quinta a domingo: uma maratona física e mental. Na compilação “Amor em Dois Atos”, a dupla interpreta duas peças francesas, escritas por Pascal Rambert, que versam sobre duas manifestações diferentes de relacionamentos amorosos: o início e o término, o apaixonar-se e o despedir-se. No primeiro ato, “Encerramento do Amor” e, no segundo, “O Começo do A.”, portanto, em ordem inversa aos acontecimentos – talvez para marcar que não são os mesmos personagens. Ambas as peças têm direção de Luiz Felipe Reis (de “Estamos Indo Embora”). O público pode assistir às montagens de forma independente e avulsa, mas o recomendado pela produção é que veja uma seguida da outra, como dois atos. A questão é: se você aguentar.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

“Encerramento do Amor” tem uma proposta ousada: é uma dramaturgia de apenas duas falas, o que não significa que seja uma peça curta ou silenciosa. São 80 minutos de muita oratória, porém sem um diálogo óbvio. Uma cena única, em que primeiro o homem informa à mulher, pleno de argumentos, que quer se separar. Ela só ouve, funga, demonstra espanto, insatisfação, desilusão, mas não esboça uma palavra. Quando ele termina sua exposição, ela começa a dela, e então é a vez dele ouvir seu monólogo-réplica. Os dois personagens são atores e estão no palco de um teatro vazio. Bastante irreal, o formato do texto – com duas falas imensas – rendeu reconhecimento para o dramaturgo francês. A peça foi premiada no Prix du Syndicat de la Critique (2012), no Grand Prix de Littérature dramatique (2012) e no Les Molières (2013).

A montagem apresentada no mezanino do Sesc Copacabana, porém, não tem méritos. A direção não é capaz de prender a atenção da plateia durante a grande cena de 80 minutos. Na primeira meia hora, o espectador já demonstra sinais de cansaço. A maneira como o ator Otto Jr. despeja o texto quase sem vírgulas, sem qualquer ação significativa, não funciona. O jogo de cena dos dois não convence: parece que estão interpretando e-mails enviados. Quando chega a vez de Julia Lund, que até consegue dar algum fôlego para a encenação, a plateia já está brigando contra as pestanas. A dramaturgia carece de contexto e características dos personagens, o que dificulta qualquer empatia, e a direção optou por uma montagem limpa: cenário todo branco, figurinos irrelevantes, imobilidade dos atores, iluminação ambiente, nada que eleve o nível.

É totalmente compreensível que uma parcela do público não retorne no segundo ato. “O Começo do A.” é completamente diferente, mas ainda chata. Essa peça foi escrita por Pascal Rambet para uma rádio francesa e, portanto, é essencialmente narrativa. Com conteúdo autobiográfico, acompanha a relação do dramaturgo com a atriz Kate Moran, por quem se apaixonou ao dirigi-la em uma peça para o Festival de Avignon. Após a apresentação, no entanto, ela retornou para Nova York e ele para Paris, onde viveu seus dias de “ressaca amorosa”: é essa a história. Ao contrário de “Encerramento do Amor”, aqui a direção faz uma montagem mais requintada: a iluminação de Tomás Ribas proporciona uma experiência estética artística, um verdadeiro show à parte; a trilha sonora do diretor e Thiago Vivas dá algum ânimo; o cenário apático da primeira peça se torna um enorme telão, com importação do cinema; e há uma série de performances energéticas de dança contemporânea, com direção de movimento de Lu Brites. Em tese, tudo que falta em “O Encerramento do Amor” sobra em “O Começo do A.”. De fato, é excessivo: por vezes, os atores estão desempenhado qualquer ato enquanto dizem o texto. Por qualquer ato, entenda, por exemplo, dizer suas falas carregada no ar ou de cabeça para baixo – no caso de Julia. Se é uma metáfora da paixão ou da labirintite, não se sabe.

Para os atores, como dito, “O Amor em Dois Atos” é um desafio. No primeiro ato, pela quantidade de texto sem pausa, sem ação. No segundo, pelo desgaste físico. É evidente que ambos estão se colocando à prova com esse projeto. Mas encerra-se aí o caso. Não alcança o público. As histórias não afetam nem prendem – vagamente interessam – a plateia em qualquer nível. Pelo contrário, distanciam. Culpa um pouco do texto, muito da direção. Na sessão assistida, Julia e Otto disseram no fim, exaustos, que “sobreviveram”. Ao espectador, restava a mesma sensação.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Divulgação)

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Ficha técnica
Direção, adaptação e concepção sonora e visual: Luiz Felipe Reis
Textos originais: Pascal Rambert
Tradução dos originais: Marcus Vinicius Borja
Atuação: Julia Lund e Otto Jr.
Diretor assistente e direção de vídeo: Marcelo Grabowsky
Cenário: José Dias
Iluminação: Tomás Ribas
Figurino: Antônio Guedes
Direção de movimento: Lu Brites
Trilha sonora: Luiz Felipe Reis e Thiago Vivas
Gravação de off Pedro Sodré
Fotos e direção de fotografia do vídeo: Elisa Mendes
Concepção de ensaio fotográfico: Daniel de Jesus e Elisa Mendes
Design gráfico: Daniel de Jesus
Hair stylist: Gabi Balan e Neandro Ferreira
Make: Gabriel Ramos
Assistente de cenografia: Beatriz Magno
Direção de prodrução: Sérgio Saboya (Galharufa Produções)
Produção executiva: Nathália Pinho
Idealização, coprodução e realização: Julia Lund e Luiz Felipe Reis (Polifônica Cia.)

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Encerramento do Amor: qui a sáb, 19h; dom, 18h. 80 min. O Começo do A. qui a sáb, 21h; dom, 20h. 60 min. SERVIÇO R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). Classificação: 16 anos. Até 23 de outubro. Sesc Copacabana – Mezanino – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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