Crítica: Antes Que a Definitiva Noite Se Espalhe Por Latino América – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Antes Que a Definitiva Noite Se Espalhe Por Latino América

O diretor Felipe Hirsch, do coletivo Ultralíricos, continua estendendo seu olhar para a América Latina como caminho para pensar o Brasil. Depois de trabalhar com a literatura em “A Tragédia e Comédia Latino-Americana”, ele convidou dez autores latino-americanos contemporâneos, incluindo dois brasileiros, para escreverem textos para seu novo trabalho, o espetáculo “Antes Que a Definitiva Noite Se Espalhe Por Latino América”. O título da peça foi retirado de um verso da música “Soy Loco Por Ti, América”, composta por Gilberto Gil e José Carlos Capinan e gravada originalmente por Caetano Veloso em plena ditadura militar no Brasil, em 1968. O novo espetáculo, dividido em dois atos, trata do obscurantismo que domina o Brasil atualmente, a partir de cenas independentes e potentes, que pensam sobre o radicalismo e o lugar da arte na sociedade.

(Foto: Flavia Canavarro)

Debora Bloch (de “Os Realistas”), Guilherme Weber (de “”), Jefferson Schroeder (de “A Produtora e a Gaivota”) e Renata Gaspar (de “Chorume”) formam o elenco impecável, que no segundo ato ganha as participações de Blackyva (de “Balé Ralé”) e Nely Coelho (de “E De Repente Uma Ossada de Baleia Emergiu Na Cidade). Os atores se alternam entre diferentes personagens nessa pluralidade de vozes para costurar cada peça desta reflexão. No primeiro ato, o foco é a situação da arte e do artista. A primeira cena, “Uma Caixa de Chumbo Com 100 Dentes de Artistas Que Morreram Pobres”, escrita por André Dahmer, mostra o leilão de dentes de artistas que morreram miseráveis e desvalorizados. É uma boa introdução para o que o público verá a seguir. Neste ato, ainda, uma cena de Rafael Spregelburd apresenta a história de uma acumuladora de obras de arte que tenta atrair a atenção do grande público para sua coleção, já incapaz de se comunicar com a massa após tanto tempo reservada apenas à elite. Já Pablo Katchadjian cria uma trama sobre um grupo de matadores com a missão de capturar um poeta. Ao invés disso, eles são capturados pela poesia, ao se disfarçarem de músicos para conseguirem se infiltrar nos lugares onde o artista poderia frequentar.

O cenário, criação de Daniela Thomas e Felipe Tassara, é todo composto por colchões usados, que servem como piso e como parede. Ao longo do espetáculo, alguns são suspensos no ar também (aliás, a atriz Renata Gaspar também é suspensa, como se fosse um quadro pendurado nas alturas). O colchão remete à intimidade, ao lar, mas pisar no colchão, para os atores, resulta em instabilidade e insegurança. Todo o espetáculo é encenado desta forma, como um esforço para se manter de pé. Na cena da acumuladora de obras, Guilherme Weber e Debora Bloch simulam implorar para que as pessoas subam no palco e experimentem a delícia da arte. Falam algo como “não adianta, ninguém vem, eles não têm interesse nisso”. No fim do ato, no entanto, todos os espectadores são convocados para subirem e se sentarem no palco, formando uma roda em torno do elenco, que recria a tradição de contação de histórias. Mais do que a quebra da quarta parede, quebra-se também a fronteira que separa artista e espectador. Com exceção de um monólogo da Renata Gaspar, avulso no conjunto, esse primeiro ato é mesmo brilhante. O público aplaude seu fim satisfeito com o que viveu.

Os figurinos negros de Marina Franco, com mudanças pontuais para cada história, dão conta da missão de deslocar o imaginário do público para outro contexto rapidamente, com suporte também da trilha sonora original (obra de Adolfo Almeida Jr, Arthur de Faria, Fernando Catatau, Kiko Dinucci, Maria Beraldo, Mariá Portugal e Rodrigo Barros Homem Del Rei). A iluminação de Beto Bruel é usada como ferramenta dos atores, que a comandam quando ela deve se abrir para a plateia, tudo convidando os espectadores para o diálogo e a reflexão coletiva.

E então vem o segundo ato, menos palatável e menos teatral, deslocando o foco da situação do artista para uma amplitude social. Esse ato é composto por discursos, que ganham uma encenação teatralizada, mas em geral menos envolventes que as cenas e os diálogos do ato anterior. Debora Bloch faz uma espécie de hipnose da plateia, para brincar com os sentidos e mostrar como a visão engana. O que é mentira e o que é verdade? Guilherme Weber, dando vida a um discurso de Guillermo Calderón, entra no palco totalmente nu para um longo monólogo imaginando um chileno abalado pela morte de Caetano Veloso – em alegoria de um Brasil que o Caetano representa. Todo o elenco, com as participações especiais, se reúnem ainda em dois outros textos, para uma declamação coletiva. Uma das cenas é de Manuela Infante e trata da tortura e do assassinato de uma menina lésbica que usava bonés e acessórios masculinos em um povoado intolerante. Blackyva também assume o palco com a voz da favela, trazendo um número musical aparentemente sem direção. O que o primeiro ato tem de bem lapidado falta no segundo. Os textos não teatrais carecem de movimentação e dramaticidade, aproximando-se mais de um palanque. A ação do corpo dos atores, quando há, parece randômica.

É quase como se o primeiro e o segundo ato de “Antes Que a Definitiva Noite Se Espalhe Por Latino América” fossem dois espetáculos distintos. Completam-se em conteúdo, com o segundo ampliando o primeiro, mas há uma mudança radical na linguagem. A costura entre os múltiplos autores, que acontece naturalmente na primeira metade, torna-se rude na segunda. Os textos não teatrais, além disso, são longos e redundantes: clamam por cortes. Obviamente, espetáculos de longa duração têm se revelado uma marca de Felipe Hirsch, mas há uma diferença entre o necessariamente longo e o supérfluo. Ainda assim, é um espetáculo que merece ser visto, sem dúvidas. É uma obra importante para traduzir em tempo real esses tempos sombrios que vivemos.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Flavia Canavarro)

Ficha técnica
Direção geral: Felipe Hirsch
Textos inéditos de André Dahmer (Brasil), Guillermo Calderón (Chile), Manuela Infante (Chile), Nuno Ramos (Brasil), Pablo Katchadjian (Argentina) e Rafael Spregelburd (Argentina).
Elenco: Debora Bloch, Guilherme Weber, Jefferson Schroeder e Renata Gaspar
Participações de Blackyva e Nely Coelho
Direção de arte: Daniela Thomas e Felipe Tassara
Desenho de luz: Beto Bruel
Figurino: Marina Franco
Trilha Sonora Original: Adolfo Almeida Jr, Arthur de Faria, Fernando Catatau, Kiko Dinucci, Maria Beraldo, Mariá Portugal e Rodrigo Barros Homem Del Rei.
Programação visual e fotografia: Cubículo
Assessoria de imprensa: Factoria Comunicação
Produção: Quintal Produções
Direção geral de produção: Verônica Prates
Coordenação artística: Valencia Losada
Produção executiva: Nely Coelho e Thiago Miyamoto

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. 150 min. Classificação: 14 anos. Até 24 de fevereiro. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3050.

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