Crítica: As Crianças – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: As Crianças

Qual a idade que marca a transição para a velhice? Que vida você quer levar após a aposentadoria? Quando podemos considerar que alguém já viveu o suficiente? Qual a responsabilidade real da humanidade com as gerações futuras? Essas perguntas saltam da peça “As Crianças”, de Lucy Kirkwood, aqui dirigida por Rodrigo Portella (de “Tom na Fazenda”). A história se passa em uma casa inóspita, próxima do local onde ocorreu um acidente nuclear no passado. Ali vive o casal de físicos aposentados Dayse e Robin, isolados do convívio social. A rotina pacata, no entanto, é quebrada pela visita surpresa de uma colega de trabalho que não viam há 40 anos, Rose. Ela não está ali à toa: quer convidá-los para uma missão crucial.

(Foto: Victor Hugo Ceccato)

O elenco é formado por Analu Prestes (de “Um Dia Como os Outros”), Mario Borges (de “Ivanov”) e Stella Freitas (de “O Último Lutador”), todos com ótimo domínio de cena. Uma das propostas da direção é que os atores digam as rubricas do texto (as indicações de ação): por exemplo, uma atriz fala que sua personagem “serve os pratos” ao invés de servi-los de fato. Nos momentos finais, quando a história fica mais tensa, essa decisão sai cara, porque dilui bastante do potencial das cenas, que perdem vitalidade. Ficam mornas e o clímax não acontece. Um contraponto importante é a trilha sonora de Marcelo H e Federico Puppi, por vezes dando aos ouvidos o que o espetáculo se recusa a dar aos olhos, colaborando para a construção imaginativa da plateia.

Além disso, a encenação de Rodrigo Portela condensa ambientes em um mesmo enquadramento. O cenário, assinado por ele e Julia Deccache, recria o que seria a cozinha desta casa com elementos pontuais (mesa e cadeiras), mas os atores cujos personagens estão em outros lugares também ficam expostos em tempo integral ao lado de quem está em cena, o que a iluminação de Paulo Cesar Medeiros ajuda a explicitar. Isso causa um efeito interessante. Cabe ao público entender que o ator está à vista dos demais, mas seu personagem nem sempre. A reflexão sobre a maturidade se manifesta também em itens infantis manuseados pelos atores maduros – uma bexiga, pirulito de coração, e um cavalinho de madeira – que contrastam com os figurinos de Rita Murtinho, causando estranhamento.

A peça entrega uma narrativa com início, meio e fim, porém parte de sua riqueza está no sugerido. Há reflexões que ficam a posteriori para cada espectador. Os elementos que não se vê talvez sejam os mais expressivos: a filha de 38 anos que não cresceu, as vacas mortas, e o trabalho letal de reparo na usina, por exemplo. Do mesmo modo, os personagens também não são totalmente francos e abertos uns com os outros, então nem tudo é dito para todos. Ora o público faz descobertas junto com os personagens, ora antes deles. Na reta final, é obrigado a pensar junto: “o que eu faria?”. A resposta não vem fácil.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

(Foto: Victor Hugo Ceccato)

Texto: Lucy Kirkwood
Tradução: Diego Teza
Direção: Rodrigo Portella
Elenco: Mario Borges, Analu Prestes, Stela Freitas
Assistência de Direção: Mariah Valeiras
Cenário: Rodrigo Portella e Julia Deccache
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Figurino: Rita Murtinho
Trilha Sonora Original: Marcelo H e Federico Puppi
Preparação Corporal: Marcelo Aquino
Programação Visual: Fernanda Pinto
Produção Executiva: Bárbara Montes Claros
Direção de Produção e Administração: Celso Lemos
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60. Classificação: 14 anos. Até 31 de março. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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