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Crítica: Auê – Espaço Sesc

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Reunidos por João Falcão nos musicais “Gonzagão – A Lenda” e “Ópera do Malandro”, os atores-cantores Ádren Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios, Fábio Enriquez e Renato Luciano formaram a Cia. Barca dos Corações Partidos. Durante as temporadas e excursões com essas peças, eles compuseram uma série de canções, que foram compiladas em “Auê” – a primeira criação própria do grupo sem o diretor. O espetáculo novo, com 21 músicas, é dirigido por Duda Maia, que foi diretora de movimento de “Gonzagão”. O resultado é nada menos do que arrebatador.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

“Auê” é meio show, meio musical. Não tem texto, mas todas as canções são apresentadas com enorme teatralidade, e passam suas mensagens com doçura. O elenco canta, dança, interpreta e toca instrumentos de sopro, percussão e cordas, estabelecendo uma comunhão bonita de se ver com o público. Definições do dicionário à parte, auê pode se tornar um gênero teatral novo. O que a Cia. Barca dos Corações Partidos faz é original, genuíno, orgânico. Dizer que é um musical revue – com números musicais independentes, mas interligados – não basta, não traduz o que se vê.

As músicas são lindas, carregadas de amor, e quebram com o paradigma de que a plateia carioca só gosta de ir ao teatro para ouvir repertório conhecido e cantar junto. A direção é muito inteligente na maneira como apresenta cada canção – todas vêm embaladas em uma performance envolvente, e a plateia as recebe encantada. O segredo é como se entrega canções originais inéditas. Sem medo do risco, a Barca dos Corações Partidos mostra sua arte da melhor maneira possível. Fãs de MPB, especialmente, tem tudo para gostar do espetáculo, brasileiríssimo.

Ao longo das 21 canções, há vários momentos belíssimos, mas um especialmente chama a atenção. O sexto número, “Doidera de Amor – Cordel”, é a declamação de um poema de Eduardo Rios, que agrada até os corações mais frios e os mais avessos à poesia. Mais uma vez, o segredo é a forma de apresentar o conteúdo. Fica-se hipnotizado pela história que ele conta, como ele conta. É importante ressaltar: as composições são mesmo todas deles – as únicas exceções são parcerias com Laila Garin (de “Elis, a Musical”), que também é componente da companhia, e Moyseis Marques, que protagonizou “Ópera do Malandro”.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

E há espaço para todos brilharem. O grupo é muito generoso uns com os outros, de modo que cada integrante contribui na mesma medida aos olhos do público. Cada um tem seu momento de destaque, e algumas contribuições são de babar. Fábio Enriquez canta “Dom de um Amor Só” pendurado em um tecido vermelho, de uma maneira tão própria, que você acredita que foi ele quem escreveu aquilo, porque parece exalar de sua alma. Mas a letra é de Eduardo Rios. São várias cenas assim. É nítido que o processo é realmente muito colaborativo.

A encenação acontece em um teatro de arena, com cenografia mínima, mas elegante, e iluminação primordial. Tudo que não há de elementos cênicos, há de luz e de direção de movimento para ocupar todo o espaço. Até os figurinos são poéticos, meio mambembe, e criam a identidade visual do grupo, formado exclusivamente por homens, mas com muita feminilidade presente, o que é um bônus inestimável.

Infelizmente, essa primeira temporada acaba no próximo domingo (31/1). O lado bom é que “Auê” é apresentado de terça a domingo. Só não tem peça na segunda! Isso permite que muito mais gente assista antes que saia de cartaz. É imperdível.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Direção: Duda Maia
Direção musical e arranjos: Alfredo Del-Penho e Beto Lemos
Elenco: Ádren Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Renato Luciano, Ricca Barros
Músico convidado: Rick de La Torre (Bateria)
Iluminação: Renato Machado
Direção de Arte: Kika Lopes
Direção de produção: Andréa Alves
Diretor assistente: Eduardo Rios
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Monna Carneiro
Assistente de iluminação: Rodrigo Maciel
Assistente de direção de Arte: Rocio Moure
Preparação dos instrumentos de sopro: Gilson Santos
Fotografia: Silvana Marques
Programação Visual: Beto Martins e Gabriela Rocha

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SERVIÇO: ter a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 20 (ou R$ 5 para sócios do Sesc). 80 min. Até 31 de janeiro. Espaço Sesc – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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