Crítica: Ayrton Senna – O Musical – Teatro em Cena
Crítica

Crítica: Ayrton Senna – O Musical

Todo mundo tem alguma memória com Ayrton Senna – mesmo os nascidos mais recentemente, muito depois da morte do piloto tricampeão mundial de Fórmula 1. O ídolo nacional (também chamado de “herói”) morreu em 1994, mas é lembrado e referenciado até hoje. Em 2010, o documentário “Senna”, dirigido pelo britânico Asif Kapadia, fez sucesso no mundo inteiro, cotado até para o Oscar. Em 2014, a escola de samba Unidos da Tijuca homenageou o piloto e garantiu seu tetracampeonato no Carnaval do Rio. Agora, em 2017, ele é tema de musical teatral. Com Hugo Bonemer (de “Yank! O Musical”) no papel principal, “Ayrton Senna – O Musical” é um daqueles projetos que já nascem com grande potencial de público. Mexe com o afeto e a nostalgia do espectador antes mesmo de abrir as cortinas – e literalmente, porque há uma réplica do capacete usado por ele na escuderia McLaren no hall de entrada do teatro, por exemplo.

(Foto: Caio Gallucci)

Uma pergunta, no entanto, é inevitável: por que homenagear Ayrton em formato de musical? A montagem não responde essa questão convincentemente. Ele não tinha nenhum vínculo com música (fora o namoro com Xuxa, maior vendedora de discos dos anos 80 e 90 – mas ignorada pelo espetáculo, assim como Adriane Galisteu). O musical teatral, contudo, tem seu valor pela coragem: ninguém pode dizer que a produtora não se arriscou desta vez. Por trás de “Ayrton Senna – O Musical”, está a Aventura Entretenimento, que fez sucesso contando as histórias de Elis Regina e Chacrinha em biografias musicais. É um formato bem sucedido. Mas o do Ayrton dribla a fórmula – tanto no texto de Claudio Lins (de “O Beijo no Asfalto – O Musical”) e Cristiano Gualda (ator de “Bem Sertanejo”) quanto na direção de Renato Rocha (de “Antes Que Tudo Acabe”). Não quero dizer que deu certo, de forma alguma, mas o atrevimento do risco em uma superprodução como essa é, sim, admirável e merece algum crédito.

O roteiro do musical é não-linear e ficcional, ainda que inspirado em fatos reais. Ele se passa durante a última corrida de Ayrton, aquela que o levou à morte na Itália, e mostra para o público como é estar dentro de uma cabine de pilotagem (o “cockpit”). O texto deixa bastante a desejar para o espectador que vai ao teatro com intuito de repassar a história de Ayrton, pois está muito distante do ideal biográfico. Fragmentado, com idas e vindas no tempo e aparentemente duas histórias simultâneas, é confuso durante todo o primeiro ato, esclarecendo conexões no segundo – para quem ainda não havia entendido. Toda a trama se passa no inconsciente do piloto. A realização dessa proposta no palco é a grande questão – negativa. O que Renato Rocha faz é algo como “Ayrton Senna meets País das Maravilhas”, excedendo o aspecto onírico, alucinado e lúdico proposto pela dramaturgia. Ao tentar reproduzir o espírito de uma corrida de Fórmula 1 no palco, o diretor foca no caráter da velocidade e abusa da metáfora de que Ayrton voava na pista. O elenco de 23 artistas passa grande parte do espetáculo, de fato, voando: no início, é interessante e quase impressionante, mas não tarda a ficar repetitivo e, principalmente, gratuito. O que era para ser um artifício engrandecedor acaba por limitar várias cenas. Isso é evidenciado logo no começo, quando Ayrton conversa com os pais e Hugo Bonemer está suspenso por cordas. Ou quando uma corrida de táxi é retratada com os personagens erguido por cordas. Tudo é possível, mas não plausível. Renato também propõe um intercâmbio integrado de linguagens entre teatro musical e circo, com acrobatas e grande valorização da técnica circense para composição das cenas. O coach Rodolfo Rangel, que já trabalhou no Cirque du Soleil, imprime muito sua marca com o espaço aberto pela direção. O resultado, no meio entre o circo e o musical, não alcança excelência em nenhuma das vertentes. No geral, é apenas poluído.

Gringo Cardia assina os cenários – sempre algo importante nessas superproduções. São grandiosos, com painel de LED, andares, as vezes realistas e as vezes conceituais, e muito bem articulados com as artimanhas de cada cena. Um dos pontos altos do espetáculo é o da canção “Medo”, a primeira boa depois de cinco números musicais bem irrisiórios. A produção coloca uma roda em tamanho gigante no palco, os atores sobem e descem aquilo, se penduram, executam uma coreografia de proporções gigantescas (de Lavinia Bizzotto), e a contorcionista Natasha Jascalevich (de “S’imbora, o Musical – A História de Wilson Simonal”) faz seu trabalho enquanto canta lindamente. Em um espetáculo que busca impressionar a todo instante, essa é uma cena que deveras entretém. Mas as cordas aparecendo penduradas no teto da boca de cena, desde o começo, denotam pouca preocupação final com detalhes. Já os figurinos são assinados pelo badalado estilista Dudu Bertholini, conhecido pelo papel de comentarista do programa “Amor & Sexo”. A imagem que fica do espetáculo são os macacões dos pilotos, mas há de tudo um pouco, incluindo figurinos com luzes de neon impactantes mas avulsos, macacões e capacetes prateados e brilhosos, patins e guarda-chuvas de led. Extravagância dá o tom. A iluminação (de Renato Machado) traça momentos espetaculares no musical, mas com erros de direção, como atores passando na frente de focos de luz no fundo palco, atrapalhando os grandiosos efeitos proporcionados. Tudo isso reforça o aspecto “Alice no País das Maravilhas”.

(Foto: Caio Gallucci)

Quanto ao aspecto musical, indicado no título do espetáculo, deixa a desejar. As canções escritas por Claudio e Cristiano, no geral, não agregam à dramaturgia. Cada uma ilustra um tema: “Invencível”, “Vida de Piloto”, “Números”, “Liberdade”, “Medo”, “Grana”, “Herói Impune”, “Chuva”, “Bala na Esquina”, “Noivas do Tempo”, “Meu Rival”, “Liberdade”, “O Meu Lugar”, “Tudo Ou Nada” e “Ladeiras do Tremembé”. Poderia citar várias composições toscas (as letras estão impressas no programa do espetáculo, o que é legal), mas fico com “Meu Rival”, que começa assim: “ele tem uma carinha / de bonzinho, de neném / mas na hora da corrida / te atropela feito um trem / ele não tá nem aí se você vai se machucar / é o meu rival”. É a canção que deveria ilustrar a rivalidade com Alain Prost, tetra campeão mundial. Alguns versos também extrapolam descaradamente a métrica das melodias, tornando ainda mais difícil a compreensão: a qualidade do som, principalmente na primeira parte da apresentação, não colaborou. Ruídos de microfones foram ouvidos até o fim. Além de “Medo”, realmente boa, outros números positivos são “Herói Impune”, em apresentação energética de Victor Maia (de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”), e “Noivas do Tempo” (que lembra “Teresinha” de Chico Buarque) maravilhosamente cantada por Estrela Blanco (de “Beatles Num Céu de Diamantes”) em alegoria da vida amorosa do retratado. Além desses pontos, a direção musical de Felipe Habib (o mesmo de “BarbarIdade”) prejudica muito o protagonista: Hugo está com o pior desempenho de sua trajetória de musicais. Cantando em um timbre forçado e desfavorável, é só em seu último solo, “Tudo ou Nada”, que ele consegue fazer uma apresentação agradável de verdade. O ator já fez vários trabalhos elogiáveis, então fica subentendida uma problemática de direcionamento – mais interessado em um conceito de ronco de motores do que em um real desempenho artístico.

Em termos de atuação, Hugo Bonemer é mais desafiado energeticamente e tecnicamente, muitas vezes inserido no contexto circence. São muitas coreografias velozes e aéreas. As cenas mais simbolizam do que aprofundam emoções e sentimentos, com pouco a explorar em diálogos rasos. É positiva sua dobradinha com Victor Maia, um dos maiores destaques da montagem: Victor interpreta o engenheiro que se comunica com Ayrton por um fone durante toda a corrida. Os dois funcionam bem. João Vitor Silva (de “Tempos de Brilhar”) e o menino Lucas Vasconcelos (fruto do “The Voice Kids”), que protagonizam um tempo paralelo da história sobre o gerente de uma loja de material de construção e um aspirante a trombadinha, roubam a cena e conseguem envolver o público – algo em que a trama principal nem sempre é eficaz. Os dois, sim, têm oportunidades de explorar emoções e criar um vínculo afetivo em cena. São responsáveis pelo trabalho mais dramatúrgico do elenco. Há ainda os acrobatas, muito importantes para a proposta cênica, e impecáveis.

Enfim, para evitar maiores decepções, se quiser mesmo ir ao espetáculo (eu também quis), tenha isso em mente: ele pouco conta a história de Ayrton Senna e seu caráter musical é rasteiro. É mais uma versão enfraquecida do “Cirque du Soleil” – sem malabaristas, trapezistas, equilibristas, ilusionistas, palhaços ou tudo que interesse – mas com dramaturgia sobre Ayrton. Spoiler: o poderoso “pã pã pã”, despertador de memórias, só é ouvido explicitamente no final. Se tem uma música que faz lembrar Ayrton é esse tema da vitória criado por Eduardo Souto Neto para a Rede Globo, e ela é totalmente desvalorizada no espetáculo. Outra bola fora. A música é apoteótica como o musical pretende ser, mas não consegue.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Caio Gallucci)

Ficha técnica
Texto e composições originais – Claudio Lins e Cristiano Gualda
Direção – Renato Rocha
Elenco: Hugo Bonemer, Victor Maia, João Vitor Silva, Lucas Vasconcelos, Pepê Santos, Will Anderson, Leonardo Senna, Adam Lee, Ivan Vellame, Kiko do Valle, Natasha Jascalevich, Estrela Blanco, Karine Barros, Lana Rhodes, Bruno Carneiro, Douglas Cantudo, Juliano Alvarenga, Marcella Collares, Marcelinton Lima, Olavo Rocha, Laura Braga, João Canedo, Gabriel Demartine e Paula Raia.
Direção Musical – Felipe Habib
Criação Sonora – Daniel Castanheira
Cenografia e Direção de Arte – Gringo Cardia
Figurino – Dudu Bertholini
Coreografia – Lavínia Bizzotto
Desenho de Som – Carlos Esteves
Desenho de Luz – Renato Machado
Produção de Elenco – Marcela Altberg
Direção Técnica de Efeitos de Voo e Rigging Designer – Vincent Schonbrodt
Supervisor de Efeitos de Voo e Rigging Designer – Daniel Araújo
Assessoria de Acrobacia e Coach – Rodolfo Rangel
Assistente de Direção e Diretor Residente – Pedro Rothe
2° Assistente de Direção – Matheus Brito
Assistente de Direção Musical e Preparadora Vocal – Aurora Dias
Assistente de Arranjos e Pianista Condutor – Gustavo Salgado
Assistente de Cenografia – Jackson Tinoco
Assistente de Figurino – Cinthia Kiste
Assistente de Coreografia – Roberta Serrado

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SERVIÇO: qui e sex, 20h30; sáb, 16h30 e 20h30; dom, 18h. R$ 25 a R$ 120 (qui a sáb) ou R$ 25 a R$ 150 (sáb e dom). 140 min. Classificação:livre. De 10 de novembro até 4 de fevereiro. Teatro Riachuelo Rio – Rua do Passeio, 40 – Cinelândia. Tel: 2533-8799.

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